O guinéu da coxa – Charles Dickens

By | 19/10/2021

O céu estava sombrio, um céu de Dezembro e o empedrado das ruas desaparecia debaixo da neve, aquela neve de Londres meio derretida e lamacenta. Nunca se me varreu da memória a recordação dessa neve apesar de já terem passado quinze anos sobre a última vez que a vi com a sua triste cor. Ali a tinha, à minha frente, com os mesmos sulcos, ocultando os mesmos perigos para os transeuntes. Havia somente uma hora que eu tinha chegado da América do Sul a bordo do barco-correio de Southampton, e agora ora estava encostado à janela do meu quarto no hotel Morley, Charing Cross, contemplando com ar sombrio os efeitos dos jogos de água da praça de Trafalgar, ora passeava agitadamente de um extremo ao outro do aposento, fazendo esforços para me distrair, pensando que não era um vagabundo desterrado, mas um homem que regressava ao seu país.

Aproximei a cadeira da chaminé e enquanto atiçava o lume, evocava através da chama o quadro da minha vida passada. Recordei-me da infância que tornou extremamente desgraçada a dependência de um tio velho e rico que me olhava como a um obstáculo porque não acreditava que eu pudesse vir um dia a honrar o seu nome e os seus benefícios. Esta excelente pessoa tinha quase tanto de ávaro como de vaidoso. Sentia a necessidade de estímulo e se me tivessem obrigado com algumas palavras ternas a abrir o coração juvenil, teriam descoberto o reconhecimento mais sincero, uma ânsia de carinho, o instinto e o amor por tudo quanto é bom e belo. Mas, todos estes belos sentimentos se tinham fechado na minha alma amarfanhados pela ironia de quantos me rodeavam. Que contente ficou meu tio quando lhe disse que estava disposto a ir procurar a fortuna do outro lado dos mares! Com que frieza se despediu de mim o meu único primo!

Como compreendi que havia chegado por fim a hora de me separar de um país onde, na opinião da minha própria família, era incapaz de usar honradamente o meu nome e de conquistar uma posição social. Parti na triste convicção de que me encontrava só no mundo e impaciente por demonstrar aos meus desdenhosos parentes que não merecia um conceito tão depreciativo.

Quando regressei, ao fim de quinze anos, ignorava tudo o que se passara com a minha família, que talvez se tivesse esquecido de mim logo que me perdeu de vista. Chamei e entrou no quarto um criado velho de cuja fisionomia me recordava. Conhecia meu primo Jorge que, outrora, sempre que vinha a Londres, se hospedava no hotel Morley, como nosso tio. Mas, actualmente, Jorge chegara à posição demasiado alta para frequentar um hotel de segunda ordem, quando, pela Primavera, ia passar na capital um ou dois meses. Nesta época do ano Jorge Rutland não abandonava o seu castelo solarengo e eu tinha a certeza de o encontrar em Rutland-Hall, que ficava no condado de Kent.

Apressei-me a escrever-lhe a seguinte carta:

Querido Jorge:

Estou convencido de que te causará tanto espanto reconhecer a minha letra como se o meu espectro te surgisse. Tranquiliza-te quanto à aparição do espectro. Como sabes, estou há muito convencido de que para nada sirvo, e deves saber também que o céu não me concedeu a felicidade de morrer.

Sinto vergonha ao confessar-te que não cheguei do outro mundo com a minha fortuna feita. Asseguro-te, contudo, que trabalhei para a conseguir; mas no mundo não basta querer; é preciso, também, sorte para conseguir. Felizmente ainda tenho tempo para reparar a perda dos quinze melhores anos da minha vida, e estou disposto a lançar mão de tudo, sempre que a ocupação seja digna de um cavalheiro. Entretanto, desejo imenso ver-te e aos teus. Uma longa ausência da pátria e da família é o que mais nos faz compreender quanto vale o calor de uma mão amiga. Não espero, pois, que me respondas. Depois de amanhã seguirei para Kent e devo estar aí à hora de jantar. Como vês confio no teu bom acolhimento e hospitalidade durante algumas semanas, até que me consiga tomar uma resolução.

Hoje como sempre, meu querido Jorge, é teu velho amigo e primo

Guy Rutland.

Dobrei a carta e meti-a no envelope.

– Breve saberei o que são na realidade os meus queridos parentes, pensei com alegria enquanto escrevia a direcção:

Jorge Rutland, esq.

Rutland-Hall (Kent)

Eram aproximadamente sete da tarde quando cheguei ao imponente vestíbulo de Rutland-Hall. O primo Jorge não veio ao meu encontro. Esqueci- me, sem dúvida, dos costumes do país. Provavelmente o primo Jorge espera-me no alto da escada. Avancemos.

Junto da escada recebeu-me um criado grave, como um autómato, como se o meu regresso para junto dos parentes fosse um facto que acontecesse todos os dias. Introduziu-me numa sala, mas nem ali pisavam o tapete os pés impacientes do cerimonioso dono da casa.

– Ah! pensei, talvez haja mais alguma regra de etiqueta que eu tenha esquecido. Sem dúvida, meu primo espera-me no salão a fim de me dar o tempo necessário para que me lave e escove e fique apresentável para a hora do jantar.
– Acompanhe-me ao quarto que me destinam, disse a outro criado que tomou conta da minha manta de viagem.

Segui este novo guia com resignação, observando que me destinavam aposentos lá no alto do castelo; mas quando fiquei só pensei que talvez tivesse sido precedido por alguns outros hóspedes que ocupassem quartos melhor mobilados que o meu.

Quando, à pressa terminei a minha toilette, toquei a campainha; apareceu novamente o criado a quem pedi que me acompanhasse ao salão. Pelo caminho, fui estudando algumas frases discretas para entabular conversação com os diferentes membros da minha família. Não sou fluente, mas quando quero ser agradável consigo-o muitas vezes e naquela altura, estou bem certo de que não teria representado muito mal o meu papel.

O criado abriu a porta e retirou-se imediatamente, fechando-a atrás de si. Em vez de ser eu a fazer qualquer surpresa, fiquei, sim, surpreendido ao encontrar-me só numa enorme sala, mal alumiada, se é que não estava completamente às escuras.

Mas não, não me encontrava só; numa poltrona, junto do fogão, estava preguiçosamente sentada uma menina em cujo rosto se reflectiam as labaredas vermelhas da chaminé. Era uma rapariga de quinze ou dezasseis anos, modestissimamente vestida com uma bata de lã escura, que estropiava a vista lendo à luz do fogão. Tinha a cabeça encostada ao espaldar da poltrona, coberta com as madeixas da abundante cabeleira loura, e sustentava o livro aberto à altura dos olhos.

A jovem estava tão absorvida com a leitura, a porta tinha sido aberta tão de mansinho e a sala era tão grande, que me vi obrigado a tossir uma ou duas vezes para chamar a sua atenção. A princípio assustou-se; depois, deixando
cair o livro, endireitou-se na cadeira, estendeu a mão e pegou num objecto que eu ainda não tinha visto e estava junto da poltrona: era uma muleta.

Apoiando-se à muleta, levantou-se, e ficou de pé diante de mim… A pobre menina era coxa.

Apresentei-me e o meu nome tranquilizou-a. Convidou-me a sentar-me dando-se ares de pessoa da casa. Levantou o livro, colocou-o sobre os joelhos, e depois, metendo a mão num dos ângulos da poltrona, tirou uma rede em cujas malhas aprisionou os fartos cabelos. Terminada a operação ficou com as mãos apoiadas nas muletas (porque eram duas) como se se preparasse para me deixar só logo que eu lhe dissesse que estava ali de mais.

– Tompson, disse-me como quem se desculpa, julgou certamente que não estava aqui ninguém. Fico sempre nos aposentos dos meninos, salvo quando os senhores saem. Nessas ocasiões desço ao salão para me entreter com um pouco de leitura.

– O Sr. Rutland não está em casa? perguntei.

– Não; foram jantar fora.

– Deveras? Então seu pai não recebeu a minha carta! Ouvindo estas palavras, a jovem ruborizou-se.

– Não sou filha de Rutland. Chamo-me Thereza Ray, e sou órfã. Meu pai, que era parente afastado e amigo do Sr. Rutland, recomendou-me a ele à hora da morte… e o Sr. Rutland trouxe-me para aqui… por caridade.

Pronunciou as últimas palavras com amargura; mas, depois de morder os lábios, continuou:

– Nada sei portanto, em relação à carta de que me fala; mas parece-me ter ouvido dizer que esperavam alguém… Sem dúvida não julgavam que o senhor chegasse esta noite, visto que toda a família foi jantar a casa de uns vizinhos.

– Bela conclusão! disse para mim próprio e fiquei a reflectir na afectuosa recepção que me fizera meu primo Jorge. Se era eu que ele esperava, não havia dúvida de que a carta tinha chegado ao seu destino; portanto sabia, não só o dia, mas também a hora da minha chegada.

– Oh, Jorge, meu bom primo, nada mudaste!

Enquanto pensava assim, notei que a jovem fixara em mim os seus grandes olhos observadores, cuja curiosa expressão podia facilmente traduzir. E se tivesse coragem, ter-me-ia dito:

– Também leio claramente no seu pensamento, senhor, e tenho pena de si. Veio aqui com uma esperança que vai ser frustrada. Melhor teria procedido se esperasse que o convidassem. Que vem o senhor cá fazer? Eu, se pudesse sair desta casa nunca mais tornaria a por cá os pés. Se nesse mundo donde o senhor vem houvesse qualquer caminho aberto, tenha a certeza de que me meteria por ele com decisão, apoiando-me nas minhas muletas. Juro-lhe que não tornaria a ter o gosto de ver-me aqui, nem sequer para roubar uma hora ao aborrecimento nesta magnífica poltrona estofada. Como se pode dizer tanto num olhar? Eis um mistério; mas o que é certo é que o olhar de Thereza Ray dizia tudo isto, palavra por palavra. Um laço de simpatia nos uniu rapidamente.

– Miss Ray, disse-lhe; que pensará de um homem que depois de passar quinze anos da sua vida no estrangeiro, tem a falta de vergonha de voltar à pátria sem um xelim nas algibeiras? Não lhe parece que merecia ser apedrejado?

– Supunha isso mesmo, respondeu ela mexendo a cabeça e dirigindo-me outra vez o seu penetrante olhar. Supus isso mesmo quando soube que lhe destinavam um dos piores quartos, reservando os melhores para as visitas que são esperadas na próxima semana. No dia de Natal a casa estará cheia… Eu não posso compreender o que o senhor me disse.

– Que é o que não pode compreender? perguntei.

– Que não tenha um xelim no bolso. Rir-se-iam todos à sua custa e os criados sabê-lo-iam logo. Eu tenho um guinéu que a boa lady Thornton me deu no dia do meu aniversário. Se me permite que lho empreste, dar-me-á com isso muito prazer. Não me faz falta e o senhor pagar-me-á quando for rico.

Este oferecimento foi feito com tanta gravidade, que tive de fazer um esforço para não desatar a rir. A pequena tomava-me evidentemente sob a sua protecção e, sonhando para mim afrontas que considerava seu dever evitar, amparava-me com a sua experiência, e com a sua superior perspicácia. Achei muito divertido o deixar-me proteger por ela e entregar- me ao amável interesse que lhe despertara a minha má situação financeira. Deixando-me arrebatar por intimidade tão espontânea, respondi-lhe com a maior gravidade:

– Agradeço e aceito o seu oferecimento. Traz consigo o guinéu.

– Não, mas vou já buscá-lo. Apoiando-se nas muletas saiu para voltar poucos minutos depois com uma bolsinha que me entregou. Abri-a e encontrei um guinéu cuidadosamente envolvido em papel prateado.

– Sinto não ter mais, disse-me ao ver que eu metia a bolsinha na algibeira, mas recebo tão poucos presentes deste género!

Nesse momento, o orgulhoso criado que me tinha acompanhado até à porta do salão, veio informar-me de que tinha o jantar na mesa.

Quando acabei de comer tive o desgosto de saber que a minha pequena benfeitora estava junto dos meninos. Não a tornei a ver naquela noite e dormi descansadamente até pela manhã do dia seguinte.

II

No dia seguinte, ao almoço, apresentaram-me a todos os parentes. Encontrei primos e primas tal como os havia imaginado. O primo Jorge tinha-se convertido num grave chefe de família.

– Alegra-me muito tornar a ver-te – disse apertando-me a mão. Logo compreendi que não era tanta a alegria. A mamã Rutland acolheu-me também o mais cortesmente possível… foi pelo menos o que disse. Os jovens priminhos trataram-me com um desdém, do melhor tom. Era necessário ser mais cândido do que me julgara na véspera a minha protectora para não perceber o lugar que me reservavam… debaixo da mesa.

Estava condenado a esse papel que só se aceita no caso de uma necessidade extrema: o papel de uma pessoa sem importância.

Jorge entreteve-se durante alguns dias mostrando-me as suas extensas propriedades; mas quando chegaram hóspedes de mais consideração deixou-me abandonado aos meus próprios recursos para passar o tempo. As filhas de Rutland dispensaram-se da honra de aceitar a minha escolta quando passeavam a cavalo e logo que tiveram outros cavaleiros mais distintos à sua disposição já não voltou a haver cavalo para mim. Quanto à castelã, à minha nobre prima, dissimulava mal o aborrecimento que lhe causava a minha importuna visita, se bem que nem Jorge nem sua mulher ocupassem a alta situação que a herança de meu tio lhes conferia no condado. Se não eram, nobres de fresca data, não deixavam de ser de uma grande mesquinhez. Sentiam-se humilhados tendo na sua nobre companhia um parente pobre que ainda por cima lhes chamava primos. Confesso que experimentava um prazer maligno em fingir que não percebia o papel que desempenhava em Rutland-HalI. Tudo me parecia bem, inclusive a troça que de mim faziam, que em vez de me incomodar, me esforçava por parecer cada vez mais amável, agradecendo mesmo todas as atenções de que não era objecto. Bem sabia que não era este o melhor meio para me tornar simpático aos olhos de meus primos. Mais lhes agradaria de certo um pouco de susceptibilidade da minha parte; mas sentia-me tão feliz desfrutando a hospitalidade daquele sumptuoso castelo! Representava um porto de salvação depois duma viagem tormentosa… E vendo-me tão bem acolhido por tão carinhosos parentes, como não havia de sentir-me bem humorado!

Além disso, tinha tanta liberdade como os outros hóspedes de Rutland-Hall, que de «motu próprio» escolhiam as suas distracções e dispunham do seu tempo. Quando me aborrecia com as conversas no salão, ia para os aposentos das crianças, onde cresciam cinco rebentos da família. Havia uma hora do dia em que nem o pai, nem a mãe, nem os irmãos mais velhos entravam naquele pequeno reino: às cinco da tarde, quando os meninos tomavam chá. Tinha conquistado pouco a pouco a boa vontade de Jenny, a criada particular dos meus pequenos primos, muito sensível aos presentes que eu lhe dava intencionalmente, e muito discreta quando sabia que a sua discrição seria recompensada. Até os próprios pequenos me tinham um certo afecto, conquanto não fossem precisamente uns anjos; mas eu tinha encontrado o caminho dos seus corações presenteando-os com livros de estampas, polichinelos, bonecas e guloseimas que adquiria com o guinéu de Thereza Ray. Esta admirava-se das coisas que eu comprava com uma única moeda de ouro e elogiava a minha habilidade em obter tudo tão barato.

Por má que fosse a minha situação em Rutland-Hall, a de Thereza Ray, era simplesmente intolerável. Uma alma menos resoluta teria sucumbido, e uma natureza menos delicada teria perdido toda a doçura com que o céu a tivesse dotado. Os criados não tinham por ela a menor atenção, os pequenos achincalhavam-na, sacrificando-a a todos os seus caprichos. Só Jenny tinha certa simpatia pela pobre rapariga, mas apenas a defendia da perseguição dos seus tiranos quando podia fazê-lo sem se expor também à sua tirania.

Infelizmente não estava autorizada a fazê-los entrar na ordem pela forma que mais teria impressionado aqueles meninos mal educados. Pelo que respeitava as filhas mais velhas de Rutland, a presença fugaz da órfã ou o simples apontar do seu nome, bastavam para que a paz de suas almas se perturbasse.

– Que havemos de fazer desta rapariga? ouvi dizer um dia à senhora de Rutland, falando com uma de suas filhas. Se não fosse coxa poderíamos obrigá-la a ganhar o pão de uma maneira ou de outra; mas assim, necessitando de muletas para andar…

Se a senhora de Rutland não acabou a frase, o seu pensamento ficou claramente expresso num desdenhoso movimento de ombros e certo trejeito com que os seus lábios supriam perfeitamente as reticências da linguagem. Como suportava a pobre Thereza Ray tudo isto? Sem uma queixa, sem um protesto, sem lágrimas e sem sequer entreabrir os lábios. Sob o seu simples trajo negro havia uma verdadeira couraça de resignação angélica. A experiência parecia demasiadamente amarga, mas ela submetia-se sem humildade degradante, com uma expressão tranquila no olhar, que parecia dizer:

– Por muitos que sejam os sofrimentos que me imponham saberei calar-me, porque nada me devem e talvez sofresse mais noutra parte. A gratidão impede-me de qualquer queixa.

Por acaso encontrei pela segunda vez a minha pequena benfeitora um dia ou dois depois da nossa primeira entrevista no salão. Nos terrenos anexos ao solar reatámos a conversação do dia anterior, e havia para mim tal doçura na sua simpatia, que acrescentei mais alguns capítulos à novela da minha falta de recursos e de todas as dificuldades que me esperavam no país natal, onde quinze anos de ausência me tornaram quase estrangeiro. Com que encantadora credulidade me escutava! Que admiráveis conselhos me deu!

Com que amável interesse se se ofereceu, ao separarmo-nos, para dar-me em melhor ocasião outros conselhos!

Mesmo que meu querido primo e minhas simpáticas primas não me tivessem abandonado tanto, privando-me do prazer de os acompanhar nas suas excursões, eu teria preferido sempre procurar Thereza Ray nos seus passeios solitários ou nos aposentos dos pequenos, onde praticava o meu sistema de corrupção com o mesmo cuidado que empregaria se se tratasse de uma intriga eleitoral. A conversação nos passeios agradava-me muito mais que na sala barulhenta das crianças, onde mantinha a minha popularidade e a minha influência com tão pouco dinheiro. Mais de uma vez me esqueci dos rigores da estação escutando Thereza Ray que, coxeando nos atalhos da horta, queria resolver algum novo problema que eu propunha para aprender com ela a arte de conseguir com pouco dinheiro uma existência agradável. Um dia parou subitamente e cravando as muletas na neve endurecida, disse-me:

– O senhor devia deixar Rutland-Hall e procurar trabalho… Oh! se eu pudesse trabalhar!…

III

Chegou a Rutland-Hall um tal sir Harry. Como não estou muito certo da maneira como se escreve o seu outro apelido, creio que não há necessidade de mencioná-lo. Era um solteirão rico, pertencente a uma família nobre, e a castelã observava com interesse todos os seus actos e movimentos. O tal sir Harry tinha o capricho de ir todos os dias fumar um charuto para a horta, encontrando ali, mais de uma vez a minha pequena benfeitora, que notando que ele a olhava com modo muito singular, acabou por provocar uma púdica exaltação na cor do seu rosto, tão lindo como fresco. Torceu caminho, como a lebre que espera despistar o caçador; mas sir Harry conseguiu encontrá-la de novo e assediou-a com os seus galanteios, cheios de lugares comuns.

Chegou o caso aos ouvidos da senhora de Rutland, que inventou uma porção de perfídias a propósito da pobre órfã. Ignoro as tristes acusações que lhe fez, dando-lhe por fim uma repreensão que durou uma hora; mas nessa noite, quando entrei nos aposentos dos pequenos com uma bola de borracha para Jack, o mais novo e o menos tirano da família, percebi pelos olhos inchados de Thereza Ray que a pobrezinha chorara, que dos seus olhos brotava uma torrente de lágrimas. Contive-me para não dizer em voz alta o que pensava da senhora de Rutland, e quando Jenny interveio para acalmar o tumulto promovido porque o primo Guy não tinha trazido um presente para cada menino, disse a Thereza Ray:

– Então! Para quando guarda a sua filosofia? Doravante não aceitarei nenhum conselho seu se continuar a dar-me tão mau exemplo.

Thereza não respondeu uma única palavra nem desviou o olhar do guarda- fogo. O golpe tinha sido rude e a ferida profunda. Ah! senhor Harry e senhora de Rutland, com que prazer eu teria feito carambolar as vossas cabeças nesse momento!

– Thereza, disse-lhe, a menina ainda tem um amigo, embora de fraco valimento…

Então dirigiu-me uma dessas respostas mudas de que estou bem certo ter traduzido literalmente e que dizia:

– Tem razão; deposito em si toda a confiança, mas neste momento não posso falar.

Recobrou, contudo, gradualmente a tranquilidade e aproximou-se da mesa para tomar a sua xícara de chá e comer alguns biscoitos, enquanto eu consertava o arco desmantelado de Tommy.

Tommy era o mais turbulento e malicioso daqueles pequenos selvagens, um pequeno chefe bárbaro, a quem, dois dias depois, gostaria de ter dado uma boa sova. Lembrou-se de fazer a Thereza uma das suas graçolas mais pesadas. Tirou-lhe as muletas, e servindo-se delas, imitando a pobre coxa, saiu da sala e só voltou depois de as ter feito em pedaços. Todas as súplicas de Thereza foram inúteis ao maldoso garoto. A pobrezinha ficou prisioneira durante as festas do Natal, sem poder fazer outra coisa que contemplar os campos atrás dos vidros da janela.

Tommy ria-se da sua resignação – mas talvez não proceda bem acusando Tommy.

Suspeitava então e continuo a suspeitar que outra cabeça, que não era a daquele diabinho, fora a instigadora da conspiração contra o pobre pássaro, a fim de que não saísse da sua gaiola.

O pássaro definhava no seu ninho, mas quem se compadecia dele? Talvez Jenny, que por compaixão ou porque participava das generosidades do meu inesgotável guinéu, se atreveu a lamentar em voz alta a situação da prisioneira e condenar o procedimento de Tommy.

Não desejo fazer acreditar ao leitor que o inesgotável guinéu era uma dessas milagrosas moedas de ouro que, nos contos de fada, recheiam a bolsa de Fortunato. Sem explicar ainda todo o mistério, afirmarei que havia, como eu, outra pessoa que se interessava pela órfã, e essa pessoa era a mesma lady Thornton que lhe havia dado a moeda. Nem só bastante rica, mas também bastante caridosa, para se eu lhos tivesse pedido, ter-me emprestado mais alguns guinéus. Lady Thornton vinha de vez em quando a Rutland-Hall e eu fizera todo o possível para conquistar a sua simpatia.

Durante a prisão de Thereza Ray deu-se uma dessas visitas e quis o acaso que eu estivesse só no salão quando ela entrou. Vinha convidar toda a família e todos os seus hóspedes, grandes e pequenos, a festejarem a Noite de Natal no seu castelo, que ficava a três ou quatro milhas de Rutland-Hall. Aproveitei a ocasião para lhe contar a história das muletas de Thereza.

– Que pequeno tão travesso! Que pequeno tão travesso! – exclamou. É preciso que Thereza tenha outras muletas para a festa do Natal.

A boa lady fixou em mim um olhar perscrutador através das lentes dos seus óculos.

– Que espécie de interesse lhe merece Thereza? – perguntou.

– Eu e Thereza somos dois bons amigos.

– O senhor e Thereza! Permita-me que lhe peça explicações, porque ignoro se o senhor sabe que Thereza Ray tem dezoito anos.

– Dezoito anos? Seriamente? Pois eu julgava-a ainda uma criança!

– Thereza não é uma criança, senhor Guy Rutland. Thereza é já uma senhora.

Thereza Ray uma senhora! Não pude deixar de rir. Como, então? A minha pequena benfeitora, a minha mamãzinha… O meu riso devia ter escandalizado lady Thornton, mas Christina Rutland, que entrou nessa altura no salão, pôs termo à difícil situação.

No entanto, mais de uma vez naquele dia desatei à gargalhada, ao lembrar- me do caso. Thereza Ray uma senhora! Que ideia !…

IV

Faltavam ainda cinco ou seis dias para a festa que lady Thornton nos havia convidado, quando se deu um incidente curioso, que determinou um conselho de família dos donos da casa, antes do almoço, na biblioteca.

Chegara de Londres uma grande caixa, endereçada a miss Thereza Ray e quando a abriram depararam um par de muletas.

E que par de muletas! Uma obra de arte no seu género, de madeira esculpida, com incrustações de madrepérola, aplicações de prata e almofadas de veludo bordado.

Os senhores de Rutland ficaram assombrados! Quem teria feito aquele magnífico presente? Quem? E quem, fora de Rutland-Hall, tinha ouvido falar de Thereza Ray? Recaíram suspeitas em sir Harry, e eu esfreguei as mãos de contente, rindo perdidamente, ao ter conhecimento do que sucedera.

Mas o grande conselho ponderou ainda sobre o seguinte: Entregariam a Thereza Ray tão rico presente? De forma alguma; o melhor seria fingir ignorância. Aquelas muletas não estavam em harmonia com a situação da órfã e podiam inspirar-lhe ideias absurdas! Apesar das suas novas muletas, Thereza Ray continuaria prisioneira. Ocultaram a caixa e ninguém falou sobre a sua existência.

Esperei alguns dias para ver se os senhores de Rutland reconsideravam, mas tudo foi em vão. O pássaro continuava a definhar na gaiola, sem que nenhuma mão amiga se mostrasse disposta a abrir-lha, entregando-lhe novamente a liberdade.

Enquanto toda a família se movia em volta de Thereza Ray, preparando-se para gozar o convite de lady Thornton, Thereza continuava sentada, fazendo costuras em aventais para as criadas ou remendando as meias dos pequenos, que a viam impávidos, arrastando-se pela sala ou deitando os seus olhares tristes para a janela. Mostravam-lhe os fatos que estreariam na noite da festa e os laços que lhe adornariam os chapéus. Naquele dia, como em todos os restantes do ano, Thereza ficaria só em casa, com o seu vestidinho preto. Suspirando, Thereza tinha-se despedido daquela festa, para a qual fora convidada inutilmente, como os que lhe diziam: «despacha- te, Thereza, que se vai aproximando o dia: ainda é preciso pôr estas fivelas nos sapatos ou fazer aquele laço para o vestido». Certamente, estas palavras eram de todo desnecessárias, porque a pobre mamãzinha trabalhava com a actividade de uma obreira.

A ninguém ocorria perguntar a Thereza:

– E tu, que vestido vais levar?

Como imaginar que Thereza podia ir também com a sua perna coxa e sem muletas?

Contudo, alguém pensava nisto; alguém tinha dito: um vestido novo de seda ficaria divinamente em Thereza, e um laço cor-de-rosa ou azul destacar-se- ia muito bem entre os seus cabelos louros.

No próprio dia da festa tive que tratar de um assunto urgente na cidade mais próxima, e à tarde, antes de voltar a Rutland-Hall, entrei em casa da melhor modista para trazer uma grande caixa de cartão.

– Quer ver o vestido da senhora?

Abriram a caixa e desdobraram um vestido de seda com aplicações de rendas, que não posso descrever nos termos adequados, mas em que admirei a elegância do corte e a harmonia das cores.

– Desculpe-me, mas afigura-se-me de que a saia está um pouco larga.

– Como o senhor disse que era para uma menina de dezoito anos e as raparigas vestem agora tal como as senhoras…

Era já tarde quando voltei a Rutland-Hall e vi partir as carruagens cheias de alegres convidados. Subi rapidamente aos aposentos dos pequenos com a minha caixa debaixo do braço e encontrei Thereza só com Jenny, a fronte apoiada na mão, contemplando melancolicamente a alcatifa coberta de pedacinhos de gaze e de seda.

Ao ver-me, o seu rosto iluminou-se.

– Ah! – disse-me, pensei que tinha ido com os outros.

– Ainda não, mas não tardarei a reunir-me a eles e venho buscá-la.

– A mim! – exclamou tristemente; bem sabe que não posso ir, porque mesmo que tivesse muletas nada tinha que vestir.

– Um amigo mandou-lhe um vestido e eu sei, também, arranjar-lhe as muletas. Jenny tome conta desta caixa e ajude a vestir a menina Thereza, pois a carruagem espera-nos.

Thereza ruborizou-se e os seus olhos marejaram-se de lágrimas; depois empalideceu, sufocada pela comoção, enquanto Jenny, a quem eu tinha feito um bom presente de Natal, se extasiava diante do vestido que tirara da caixa.

– Thereza, disse-lhe pela segunda vez, não podemos perder tempo, estarei de volta para vir buscá-la dentro de dez minutos.

E deixei-a trémula e docemente emocionada, entregue a Jenny, que começou imediatamente a vesti-la.

Thereza estava já pronta quando entrei com as muletas incrustadas de prata e madrepérola.

Quando afirmo que Thereza estava vestida não quero dizer que encontrei uma menina com o trajo próprio das que vão a uma festa de crianças, mas que o vestido tinha transformado a minha mamãzinha, a minha pequena benfeitora numa jovem elegante, que, vendo a sua imagem no espelho, se assombrava da metamorfose.

Da Thereza de há pouco, apenas conservava a linda cabeça de expressão cândida… Quanto ao resto… agora compreendia porque lady Thornton falara verdade quando me dissera que a órfã era já uma senhora.

Jenny, que até esta altura tinha tratado Thereza como uma criança, não era a menos assombrada dos três, e eu ignoro o indefinível sentimento que sucedeu à minha surpresa, porque era um misto de medo e de satisfação.

Quando entreguei as muletas a Thereza, Jenny olhou-me como se eu fosse algum desses príncipes possuidores do talismã das Mil e uma noites.

Thereza experimentou as muletas e imediatamente atravessou a sala com passo seguro descendo a escada até ao vestíbulo. As muletas desapareciam entre as pregas da saia e as aplicações de tule que lhe envolviam os ombros alvos.

Com que satisfação me lembrei, naquele momento de certa bolsinha e de certo guinéu que ainda estavam ocultos na velha mala que tinha escolhido para ir passar uns dias em Rutland-Hall!

A carruagem esperava-nos. Era já tarde para me arrepender daquela acção preparada tão discretamente, apesar de me sentir muito mais tímido do que tinha previsto, ao ver-me frente a frente com a actriz, a quem até então tinha atribuído um papel tão passivo.

Não descreverei o que se passou naquela memorável noite, nem a sensação que produziu a nossa entrada em casa de lady Thornton. Lady Thornton, deixando os hóspedes entregues à sua mortificação, aproximou-se de mim e disse-me ao ouvido maliciosamente:

– Estou ansiosa por ver o desenlace de tudo isto.

Thereza, sem reflectir no caso, entregara-se desde o primeiro momento ao prazer de proporcionar uma surpresa aos seus amigos; mas não tardaram nela os receios de ter ofendido os senhores de Rutland. Mais de uma vez tremeu nos momentos mais alegres da festa, pensando na tempestade que mais tarde ou mais cedo se desencadearia sobre a sua cabeça. Meu primo Jorge e sua mulher não dissimulavam o seu desgosto, e quando chegou a hora do regresso a Rutland-Hall, tivemos a sorte de encontrar ainda a carruagem em que tínhamos vindo, porque não nos ofereceram lugar nos carros da família.

Quando chegámos fomos avisados de que os senhores de Rutland nos esperavam na biblioteca, onde os encontrámos. A senhora de Rutland encarregou-se de Thereza, deixando-me entregue a seu marido.

Não quero entrar nos detalhes desta história.

– Cavalheiro, disse-me o meu amável primo ao terminar, sofremos demasiado tempo a tua insolente intervenção, e peço-te que te retires daqui amanhã.

– Primo Jorge, respondi; não tenho inconveniente em partir já amanhã, mas com a condição de Thereza Ray me acompanhar se assim o desejar.

Olhou-me surpreendido.

– Sabes, que se trata de uma órfã sem um «penny», que recolhi por caridade?

– Quero fazer dela minha mulher, se tiver a felicidade de Thereza aceitar a minha mão, afirmei com solenidade.

– E uma vez casados, disse-me com ironia: Como pensam viver? Do ar ou então à custa da família?

– Podes ter a certeza de que não será à tua custa – respondi-lhe, deitando- lhe um olhar que nada tinha de humilde. Conheço-te muito bem, Jorge Rutland.

– Palavras, isso não passa de palavras! Pois bem, não te esqueças de que eu lavo as minhas mãos relativamente ao que possa suceder-te e a Thereza Ray.

– Amen – respondi, e rodando sobre os calcanhares, retirei-me para o meu quarto.

No dia seguinte muito cedo, bati à porta que dava ingresso aos aposentos das crianças, pedi a Jenny que acordasse miss Ray para lhe dizer que eu a esperava no jardim.

Era no dia de Natal, dia de paz e de amor e embora não possa dizer que a paz reinava no meu coração quando abracei com o olhar a paisagem branca de neve, devo confessar que nessa altura não sentia ódio a ninguém.

Thereza não tardou, mas pareceu-me a mesma Thereza que vira com o seu vestidinho preto e um tanto envergonhada das suas novas muletas. Senti uma enorme alegria ao vê-la assim, porque a linda rapariga que eu surpreendera na noite anterior causara-me medo. Contudo, quanto mais a olhava mais me via obrigado a reconhecer que não era já a simples Thereza a quem eu tratara como uma criança antes da metamorfose. Mudara muito, ou talvez fosse em mim que a mudança se tivesse operado… ou então nos dois… Apesar de tudo, essa mudança nada tinha de desagradável.

Saímos juntos do jardim e tomámos por um dos nossos atalhos favoritos, e aí abrimos os nossos corações. Quando voltámos a casa, disse a Thereza; – Em conclusão, Thereza, não receia viver comigo na miséria? Consente em correr esse perigo?

Thereza respondeu movendo a linda cabecinha.

– Prepare-se, pois, para sairmos daqui depois do almoço. Não traga nada, Thereza. Ainda me resta algum dinheiro do troco do guinéu e com ele compraremos tudo o que for necessário.

Thereza foi buscar o chapéu e voltou. Partimos e ao cabo de uma hora estávamos casados. Rezámos juntos na igreja, um ao lado do outro, e depois voltámos a Rutland-Hall para fazermos as nossas despedidas.

Eu creio que nos tomaram a mim por um doido varrido e a ela por estouvada, pelo menos até meu primo Jorge receber a carta-ordem que eu lhe enviei no dia seguinte contra um banqueiro de Londres, para que cobrasse a importância da despesa feita por minha mulher na sua casa.

Daí em diante e pelo que me dizia respeito, começaram a mudar de opinião. Percorri o continente com minha mulher. A enfermidade dela não era incurável: o tempo e os cuidados inteligentes tornaram inúteis as muletas.

Ninguém, pois, estranhara que ao voltarmos a Inglaterra os nossos parentes tivessem dificuldade em reconhecer Thereza na senhora Guy Rutland, casada com um milionário. Lady Thornton acolheu-nos com a sua graciosa amabilidade… Mostrei-lhe o milagroso guinéu, que ainda tenho muito bem guardado e a que chamo o dote de Thereza. Será necessário dizer que as preciosas muletas incrustadas de prata e madrepérola não tinham sido um presente de sir Harry?

Também as conservo ainda com amor, como uma relíquia de família.

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