A Carta Roubada – Conto de Edgar Allan Poe

By | 11/10/2021

Em 18… encontrava-me em Paris. Após uma sombria e tempestuosa tarde de outono, gozava a dupla voluptuosidade da meditação e de um cachimbo de espuma, na companhia do meu amigo Dupin, na sua pequena biblioteca ou gabinete de estudo, no número 33 da Rua Dunot, terceiro andar, no bairro de Saint-Germain. Durante mais de uma hora tínhamo-nos mantido em profundo silêncio, e qualquer observador não acreditaria que havíamos estado profunda e exclusivamente absorvidos na contemplação das irregulares espirais de fumo que enchiam a divisão. Por meu lado, discutia comigo mesmo certos pontos que, durante a primeira parte do serão tinham sido o tema da nossa conversa, isto é, os crimes da Rua Morgue e o mistério referente ao assassínio de Marie Roget. Estava eu a pensar na estranha semelhança que existia entre os dois crimes quando a porta se abriu para dar passagem ao nosso velho amigo G…, prefeito da Polícia.

Saudámo-lo cordialmente, porque aquele homem tinha o seu lado bom e o seu lado mau, e já não o víamos há alguns anos. Como nos encontrávamos quase completamente às escuras, Dupin levantou-se para acender um candeeiro. No entanto, sentou-se prontamente, sem fazer mais nenhum gesto, ao ouvir o senhor G… dizer que tinha ido consultar-nos ou, melhor, pedir a opinião do meu amigo acerca de um assunto que o trazia muito preocupado.

– Se é um caso que exige reflexão — observou Dupin sem acender a luz – é melhor examiná-lo nas trevas.

– Aí está uma ideia extravagante — volveu o prefeito, que tinha a mania de chamar extravagâncias a todas as coisas que ficavam além da sua compreensão, o que o levava, certamente, a viver no meio de uma enorme legião de extravagâncias.

– É verdade — concordou Dupin, estendendo um cachimbo na direção do visitante e oferecendo-lhe uma cómoda poltrona.

– Bem, quer agora explicar-nos qual é esse assunto difícil? — perguntei.

– Espero que não seja outro assassínio…

– Oh, não! Nada disso. O caso é muito simples e não duvido que pudéssemos resolver o problema, mas pensei que não desagradaria a Dupin conhecer os pormenores deste assunto, precisamente porque é extremamente estranho.

– Simples e estranho — disse Dupin.

– Isso mesmo. No entanto, a expressão não é exata: se preferir, pode escolher uma ou ambas as definições. O certo é que o caso traz-nos preocupados e inseguros, porque, apesar da sua simplicidade, estamos completamente desorientados.

– Talvez seja a própria simplicidade que os desorienta — replicou o meu amigo.

– Que contrassenso! — exclamou o prefeito, rindo a bom rir.

– Pode ser que o mistério seja demasiado claro — disse Dupin.

– Deus do Céu! Quem é que já ouviu dizer uma coisa, dessas?

– Demasiado evidente!

– Ah! ah! ah! — riu o nosso visitante, que sem dúvida se sentia muito divertido. — Oh, meu caro Dupin, ainda me faz morrer de riso!

– Mas, afinal, do que se trata?

– Eu já conto — respondeu o prefeito, lançando uma baforada de fumo e instalando-se melhor na poltrona. — Direi tudo em poucas palavras, mas, antes de começar, permita-me que o avise de que o caso requer o maior sigilo, e eu perderia provavelmente o meu lugar se soubessem que eu tinha confiado o segredo a alguém.

– Comece — incitei-o.

– Ou não comece — disse Dupin.

– Está bem, começo. Segundo informação que me deram pessoalmente, e proveniente de altas esferas, um documento da maior importância foi subtraído dos aposentos reais. Sabe-se quem é o indivíduo que o roubou, isto não oferece dúvidas, pois viram-no apoderar-se dele. Também podemos afirmar que o documento continua em seu poder.

– Como sabe disso?

– Deduziu-se claramente da natureza do documento e da ausência de certos resultados que se produziriam imediatamente se o papel saísse das mãos do ladrão. Por outras palavras: se fosse empregado para alcançar o objetivo que o indivíduo se propunha, evidentemente, alcançar.

– Quer ser um pouco mais explícito? — pedi.

– Pois bem, direi que esse papel confere ao seu possuidor certo poder num lugar onde qualquer influência é extraordinária. — O prefeito adorava este palavreado com um certo saber a intriga diplomática.

– Continuo a não perceber nada — declarou Dupin.

– Absolutamente nada? Então… Se este documento fosse revelado a uma terceira pessoa, cujo nome não direi, poria em situação embaraçosa uma pessoa da mais elevada posição. E é isto que dá ao detentor desse documento um ascendente sobre a ilustre pessoa cuja honra e segurança se encontram desta maneira em perigo.

– Mas esse ascendente — interrompi — depende disto: o ladrão sabe que a pessoa roubada sabe quem foi que cometeu o roubo? Quem se atreveria…?

– O ladrão — explicou G… — é D…, que se atreve a tudo o que é indigno de um homem, mas muito digno dele. O procedimento que utilizou no roubo foi tão engenhoso como ousado. O documento em questão, uma carta, para lhe ser franco, foi recebido pela pessoa roubada enquanto se achava no seu aposento real. Enquanto o lia, foi interrompida repentinamente pela entrada de outra personagem, de quem pretendia especialmente esconder aquela missiva. Depois de ter tentado inutilmente guardá-la numa gaveta, viu-se obrigada a deixá-la, aberta, em cima da mesa. No entanto, deixou-a voltada para baixo, com o endereço para cima e, escondido desta maneira, o conteúdo não chamou a atenção. Entretanto, chegou o ministro D… Os seus olhos de lince fixaram-se no papel, reconheceram a letra do endereço e, ao ver a embaraçosa situação em que se achava a pessoa a quem a carta tinha sido dirigida, adivinhou o seu segredo.

Depois de tratar de alguns assuntos, despachados apressadamente, na sua maneira habitual, tirou da algibeira uma carta parecida com a referida, abriu-a, fingiu lê-la e colocou-a precisamente ao lado da outra. Durante um quarto de hora pôs-se novamente a falar dos assuntos políticos. Pouco tempo depois pediu licença para se retirar e pousou a mão em cima da carta comprometedora, à qual não tinha qualquer direito. A pessoa roubada viu tudo, mas, como é natural, não se atreveu a chamar a atenção para este facto, devido à presença da terceira
pessoa de que lhes falei. E o ministro abandonou a sala, deixando em cima da mesa a sua carta, uma carta sem importância.

– Deste modo — disse Dupin voltando-se para mim — é um caso em que o ascendente é completo: o ladrão sabe que a pessoa roubada sabe quem a roubou.

– Sim — replicou o prefeito — e de há uns meses para cá tem-se aproveitado muito bem do poder conquistado graças a este estratagema, com um fim político e até um ponto muito perigoso. A pessoa roubada está dia a dia mais convencida da necessidade premente e absoluta de recuperar a carta. Mas, obviamente, não pode fazê-lo de uma maneira descarada. Assim, chegada a este extremo, essa pessoa encarregou-me do caso.

– Suponho que não é possível — observou Dupin, que estava cercado por uma auréola de fumo — escolher, nem sequer imaginar, um agente mais sagaz.

– Está a lisonjear-me — disse o prefeito — mas talvez tenham formado a meu respeito uma opinião desse género.

– É evidente — comentei — que, como fez notar, a carta contínua nas mãos do ministro, uma vez que é o facto de a ter na sua posse e não a utilização que cria o poder sobre o roubado. O ascendente desapareceria com a utilização.

– É verdade — disse G… — e é guiado por essa convicção que tenho encaminhado as investigações. O meu primeiro cuidado foi fazer uma inspeção minuciosa ao palacete do ministro, e a minha principal dificuldade fazê-lo sem ele o saber. Estava em guarda sobretudo contra o perigo que poderia haver se lhe desse um motivo para suspeitar das nossas intenções.

– Mas o senhor está absolutamente à vontade nesse género de investigações — fiz-lhe notar. — A Polícia parisiense tem feito numerosas vezes trabalhos desses.

– Oh, sem dúvida, e é por isso que tenho muitas esperanças. Por outro lado, os hábitos do ministro proporcionam-me grandes vantagens. Dorme fora com frequência, e embora tenha vários criados, como dormem a boa distância do quarto do patrão e ainda para mais são napolitanos, deixam-se embriagar de boa vontade. Como sabe, disponho de chaves com que posso abrir todos os quartos e salas de Paris. Durante três meses não passei uma única noite que não tenha consumido, pelo menos em grande parte, a inspecionar pessoalmente o palacete de D… A minha honra está nisto comprometida, e para que fique a saber tudo dir-lhe-ei que a recompensa é enorme. Assim, não abandonei as buscas senão quando me convenci de que o ladrão é mais sagaz que eu. Julgo que revistei todos os cantos onde é possível esconder um papel.

– Mas não é possível — insinuei — que a carta, embora continue em poder do ministro, esteja escondida fora da casa dele?

– Isso não é possível — respondeu Dupin. — A situação particular da corte e especialmente a natureza da intriga de que o senhor D… tomou conhecimento criam a necessidade de o documento se encontrar ao alcance da mão, para poder ser utilizado imediatamente. Este ponto é tão importante como a posse do documento.

– A possibilidade de mostrá-lo? — perguntei.

– Ou, se preferir, de destruí-lo — acrescentou Dupin.

– Sim, é verdade — concordei. — É evidente que o papel se encontra no palacete. E consideramos absurdo que o ministro o traga consigo.

– Sem dúvida — confirmou o prefeito. — Mandei-o deter por duas vezes por falsos ladrões, que o revistaram da cabeça aos pés, diante dos meus olhos.

– Podia ter-se poupado a esse trabalho. Segundo presumo, o senhor D… não é louco e deve ter previsto esse expediente como arma muito provável.

– Não é louco declarado — volveu G… — mas, no entanto, é poeta, o que significa que não está muito longe da loucura.

– Isso é verdade — disse Dupin, depois de ter lançado uma grande
baforada do seu cachimbo de âmbar — e digo-lhe até que já escrevi alguns poemas…

– Vamos — atalhei — conte-nos os pormenores exatos das suas investigações.

– O facto é que temos perdido tempo e que procurámos em toda a parte. Tenho grande experiência destes assuntos e no caso presente revistámos sala por sala, dedicando a cada uma as noites de uma semana inteira. Primeiro, examinámos os móveis de cada divisão. Abrimos todas as gavetas e, como sabem, não existem gavetas secretas para um agente bem treinado. Qualquer homem que permite que lhe escape um esconderijo deste género, numa investigação destas, é um imbecil. A tareia é tão fácil! Existe em cada divisão uma certa quantidade de volumes e superfícies de que podemos dar-nos conta. Temos para isso regras exatas. Não pode escapar-nos um décimo de milímetro.

Inspecionámos também todo o género de assentos. Os estofos e as almofadas foram sondados com agulhas iguais às que já me viu empregar, também retirámos os tampos das mesas.

– Sim? Porquê?

– Por vezes, os tampos das mesas são levantados para esconder alguma coisa. Para isso, faz-se um furo num dos pés da mesa, guarda-se o objeto na cavidade e torna a colocar-se o tampo. Faz-se o mesmo com as tábuas ou a cabeceira das camas.

– Mas não podia descobrir-se a cavidade dando pancadas, até soar a oco? – perguntei.

– Não, senhor. Porque, ao depositar o objeto, a pessoa deve ter o cuidado de envolvê-lo numa capa espessa de algodão e não se dá por nada. Além disso, nós não podíamos fazer barulho.

– Mas não tiveram possibilidade de desmontar todas as peças de mobiliário onde podiam ler escondido o objeto da maneira que descreveu. Uma carta pode ser enrolada numa espiral muito delgada, ficando com o volume de uma agulha de tricotar grossa, e deste modo ser metido no pé de uma cadeira, por exemplo. Desmontaram todas as cadeiras?

– Não, mas fizemos melhor do que isso. Examinámos os pés das cadeiras e as junções de todos os móveis, com a ajuda de um potente microscópio. Se tivesse havido alguma mexida recente, certamente teríamos descoberto. Um único grão de serradura produzido por uma verruma, por exemplo, apareceria aos nossos olhos quase com o tamanho de uma maçã. A menor alteração na cola, uma simples separação das juntas revelar-nos-iam o esconderijo.

– Suponho que o senhor examinou os espelhos e que inspecionou as camas, as cortinas das camas, os cortinados e os tapetes.

– Naturalmente, e ao mesmo tempo que inspecionávamos esses objetos examinámos a respetiva divisão. Fizemos um exame da totalidade de superfície, dividindo-a em partes que numerámos, a fim de ficarmos certos de não ter omitido alguma, e cada polegada quadrada foi submetida a novo exame microscópico. Chegámos até a inspecionar as casas adjacentes.

– As casas vizinhas?! — exclamei. — Mas que trabalho tiveram!

– Tem muita razão! Mas, repito, a recompensa é enorme.

– Examinaram também o soalho?

– O chão é de ladrilhos e não nos deu relativamente muito trabalho. Ao observarmos a argamassa entre os ladrilhos pudemos certificar-nos de que estava intacta.

– Decerto examinaram os papéis do senhor D… e os livros da sua biblioteca.

– Evidentemente. Abrimos todos os embrulhos e todos os livros, e não nos limitámos simplesmente a sacudi-los, como alguns polícias fazem: vimo-los folha por folha. Também medimos a espessura de cada encadernação e observámo- las ao microscópio. Se tivessem recentemente introduzido algum papel numa das capas, o facto não teria escapado à nossa observação. Cinco ou seis volumes que haviam chegado das mãos do encadernador foram conscienciosamente sondados longitudinalmente com agulhas.

– Examinaram o chão, debaixo dos tapetes?

– Sim, levantámos os tapetes e observámos o chão ao microscópio.

– E o papel das paredes?

– Também.

– Foram aos sótãos?

– Fomos.

– Então, enganaram-se na pista — declarei — e a carta não está, como supunham, no hotel.

– Receio que o senhor tenha razão — disse o prefeito. — E agora, Dupin, que me aconselha a fazer?

– Uma investigação completa.

– É absolutamente inútil — respondeu G… — A carta não está no palacete!

– Não posso dar-lhe outro conselho melhor. O senhor conhece a forma, a letra e demais pormenores necessários para identificar a carta?

– Oh, sim! — O prefeito puxou por uma agenda e começou a ler vem voz alta a descrição minuciosa do documento perdido, do seu aspeto interior e principalmente do seu aspeto exterior. Pouco depois de ter terminado a leitura desta descrição, o homem despediu-se de nós tomado de um desânimo que nunca lhe tínhamos visto.

Cerca de um mês mais tarde, o prefeito fez-nos segunda visita, encontrando-nos ocupados da mesma maneira. Pegou num cachimbo, puxou por uma poltrona e falou de diversas coisas. Ao fim de algum tempo, perguntei-lhe:

– Então, meu caro prefeito, onde está a carta roubada? Calculo que acabou finalmente por compreender que é dificílimo vencer o ministro.

– Que vá para o diabo! Apesar de tudo, voltei a começar as pesquisas, conforme me aconselhou Dupin. No entanto, como calculava, foi trabalho perdido.

– A quanto ascende a recompensa? O senhor disse…?

– É… muito elevada… uma recompensa verdadeiramente excecional, mas não quero dizer-lhe a quanto ascende. Todavia, estaria disposto a pagar cinquenta mil francos a quem me encontrasse essa carta. O facto é que o assunto é cada vez mais urgente e a recompensa foi duplicada há pouco tempo. Mas mesmo que desse três vezes mais que a princípio, o meu zelo não poderia por isso ser maior.

– Sim, acredito — disse Dupin, arrastando as palavras no meio de baforadas de fumo. — Acredito no que me diz. Parece-me, no entanto, que o senhor não fez tudo o que era possível… que não chegou ao fundo da questão. Podia fazer… um pouco mais… Pelo menos assim me parece… Hum?

– Como? Em que sentido?

– Ah… (uma baforada de fumo) o senhor podia (uma série de baforadas) pedir conselho sobre o assunto, hem? (três baforadas). Lembra-se da história que contam acerca de Abernethy?

– Não! Esse Abernethy que vá para o diabo!

– Está bem. Escute. Uma vez, um rico muito avarento concedeu a ideia de obter gratuitamente de Abernethy uma consulta médica. Com este objetivo, entabulou com ele, no meio de outras pessoas, uma conversa banal, através da qual insinuou ao médico o seu próprio caso, como se se tratasse de um doente hipotético.

« — Suponhamos — disse o avarento — que os sintomas são estes e aqueles. Que me aconselharia?

« — Pois… aconselhava-o… a que fosse ao meu consultório.

– Mas — retorquiu o prefeito um pouco desconcertado — eu estou disposto a ouvi-lo e a pagar-lhe. Se alguém me tirasse deste apuro, receberia sem dúvida alguma, cinquenta mil francos.

– Nesse caso — disse Dupin, abrindo uma gaveta e tirando de lá um livro de cheques — pode preencher um cheque desse montante. Depois de o ter assinado dar-lhe-ei a carta.

Fiquei estupefacto. Por seu turno, o prefeito parecia aterrado. Ficou alguns minutos de boca aberta, mudo e imóvel, fitando o meu amigo com ar incrédulo e com os olhos quase fora das órbitas.

Por fim, recobrou parte do sangue-frio, pegou numa caneta e, após uma certa hesitação, com o olhar perturbado e o rosto quase sem expressão, assinou o cheque de cinquenta mil francos e entregou-o a Dupin. Este examinou o cheque cuidadosamente, guardou-o na carteira, e em seguida abriu uma escrivaninha e tirou de lá uma carta que entregou ao prefeito. O homem pegou-lhe com alegria, abriu-a com dedos trémulos, lançou uma olhadela ao seu conteúdo e, sem dizer uma palavra, precipitou-se na direção da porta e desapareceu. Não pronunciara uma palavra a partir do momento em que Dupin lhe pedira que preenchesse o cheque.

Logo que ele fechou a porta, o meu amigo deu-me algumas explicações.

– A Polícia parisiense é muito hábil nas suas funções — disse-me. — Os agentes são perseverantes, engenhosos, sagazes e possuem os conhecimentos exigidos pelo seu papel específico. Assim, quando G… nos pormenorizou a maneira como tinham inspecionado a residência de D…, mostrou inteira confiança nos seus talentos e estava certo de ter feito uma investigação conscienciosa, dentro da sua especialidade.

– Dentro da sua especialidade?

– Sim. As medidas adotadas não só eram as melhores no género, mas também foram executadas com absoluta perfeição. Se a carta tivesse estado no raio das suas investigações, os agentes tê-la-iam encontrado, sem sombra de dúvida.

Soltei uma gargalhada. Dupin, porém, parecia falar muito seriamente.

– Portanto, as medidas eram boas — continuou — e foram admiravelmente executadas. Mas tinham o defeito de ser inaplicáveis ao caso presente e a tal homem. Para o prefeito existe uma série de meios muito engenhosos, que aplica em todos os casos e aos quais adapta todos os planos. Infelizmente, erra sempre por demasiada profundidade ou por excessiva superficialidade nos casos que não se enquadram nos seus esquemas, e qualquer criança inteligente será capaz de raciocinar melhor do que ele.

« Conheci um garoto de oito anos cuja infalibilidade no jogo do “par ou ímpar” causava admiração geral. Este jogo é simples e joga-se geralmente com berlindes. Um dos jogadores fecha na mão um certo número de berlindes e pergunta ao outro: “Par ou ímpar?» Se este último adivinha, ganha um berlinde, mas se se engana, perde um. O garoto de quem estou a falar ganhava todos os berlindes da escola. Evidentemente, tinha um sistema para adivinhar baseado na simples observação, no conhecimento da agudeza de espírito do adversário. Suponhamos que o seu adversário é um perfeito pateta e, mostrando a mão fechada, pergunta: “Par ou ímpar?” O nosso estudante responde “ímpar” e perde. Na vez seguinte ganha porque diz para si: “O tolo pôs par da primeira vez e a sua esperteza não o levará mais longe que pôr ímpar da segunda. Portanto, vou dizer ‘ímpar’! e ganho.” E assim sucede.

« Mas com um adversário menos estúpido teria pensado deste modo: “Este rapaz vê que eu disse ‘ímpar’ e à segunda vez pensará — é a primeira ideia que lhe ocorrerá — em fazer uma pequena variação, como faz o primeiro estudante. Porém, uma segunda reflexão dir-lhe-á que esta mudança é muito simples, e finalmente decide pôr ‘par’, como na primeira vez. Vou dizer ‘par’.” Diz “par” e ganha. Muito bem. A maneira de raciocinar do nosso estudante, a que os companheiros chamam sorte, o que é, na realidade?

– É — respondi — uma identificação das ideias do raciocinador com as do seu adversário.

– Exatamente — confirmou Dupin. — E quando perguntei a esse rapazinho por que meios alcançava esta perfeita identificação, que o levava a ganhar sempre, respondeu-me desta maneira:

« — Quando quero saber até que ponto uma pessoa é esperta ou estúpida, até que ponto é boa ou má, e quais são os seus pensamentos, dou à minha cara a mesma expressão que a da pessoa que observo e espero pelos pensamentos que possam nascer no meu espírito ou no meu coração e que correspondam àquela minha expressão.»

Esta resposta deixa reduzida à expressão mais simples a profundidade sofistica atribuída a La Rochefoucauld, a Bruy ère, a Maquiavel e a Campanella.

– E a identificação de ideias do raciocinador com o seu adversário depende, compreendo-o perfeitamente, da exatidão com que é avaliado o intelecto do adversário.

– Em termos práticos — prosseguiu Dupin — esse facto é a condição principal, e se o prefeito e os seus subordinados se enganam frequentemente, isto deve-se a essa falta de identificação, e em segundo lugar a uma apreciação inexata ou, melhor, a uma falta de apreciação da inteligência do adversário. Essas pessoas só vêm as suas ideias engenhosas, e quando procuram alguma coisa escondida pensam apenas nos meios que utilizariam para a esconder. Os polícias têm razão ao pensar que o seu próprio engenho é uma fiel representação do da multidão. Porém, quando têm de enfrentar um malfeitor especial cuja sagacidade é de espécie diferente da sua, este malfeitor, como é natural, engana-os.

« Isto sucede sempre que a sua astúcia é maior que a dos adversários, e sucede também frequentemente mesmo quando é inferior. Os polícias não variam os seus métodos de investigação, e ainda menos quando são estimulados por algum caso extraordinário ou por uma recompensa pouco comum. Nestas circunstâncias exageram e levam ao extremo as suas velhas rotinas, mas sem modificar os princípios.

« No caso de D…, por exemplo, que fizeram para alterar o sistema? Que significam todas aquelas perfurações, pesquisas, sondagens, exames ao microscópio e a divisão da superfície em polegadas quadradas e numeradas senão o exagero na prática desses princípios ou de vários princípios de investigação baseados numa ordem de ideias relativas ao engenho humano e àqueles a quem o prefeito se acostumou na vasta rotina das suas funções?

« Não vê que o prefeito considera como facto demonstrado que todos os homens que pretendem esconder uma carta se servem, se não precisamente de um furo feito com uma verruma na perna de uma cadeira, pelo menos de algum furo, de algum canto estranho que engendraram, o que também pertence à mesma linha de pensamento que o buraco feito com uma verruma?

« Você também se aperceberá facilmente de que esses esconderijos tão originais só se empregam nos casos correntes e não são adotados senão pelas inteligências vulgares, porque em todos os casos em que há objetos escondidos é sempre de admitir esta maneira rebuscada de os ocultar. Assim, a descoberta não depende das peripécias, mas simplesmente do cuidado, da paciência e da determinação dos investigadores. Ora bem, quando o caso é importante ou a recompensa considerável, veem-se fracassar todas estas boas qualidades. Agora compreenderá o que eu queria dizer ao afirmar que, se a carta roubada tivesse sido escondida dentro do raio das pesquisas do nosso prefeito, por outras palavras, se o princípio inspirador da pessoa que escondeu estivesse compreendido nos limites dos princípios do prefeito, este tê-la-ia descoberto. G… foi completamente ludibriado, e a causa primeira e original do seu fracasso assenta na suposição de que o ministro era um louco, porque tinha reputação de poeta. Todos os loucos são poetas, concluiu para si o prefeito, que só é culpado de uma falsa colocação do termo médio do silogismo, daí deduzindo que todos os poetas são loucos.

– E o ministro é realmente poeta? Sei que são dois irmãos e ambos conquistaram certa reputação como escritores. Segundo creio, o ministro escreveu um livro muito notável sobre cálculo diferencial e integral. Assim, ele é matemático e não poeta.

– Engana-se. Conheço-o muito bem e sei que é poeta e matemático. Como poeta e matemático deve ter raciocinado corretamente, ao passo que o simples matemático teria raciocinado mal e cairia nas malhas do prefeito.

– Essa opinião — repliquei — deixa-me surpreendido e é desmentida pelo mundo inteiro. Espero que não tenha a intenção de reduzir a nada a ideia amadurecida ao longo dos séculos. A razão matemática é há muito considerada a razão por excelência.

– Pode-se apostar — disse Dupin, citando Chamfort — que toda a ideia pública, que toda a convenção aceite é um disparate, porque conveio à maioria. Os matemáticos, concordo, fizeram todo o possível para propagar o erro popular de que você falou e que, apesar de ter sido difundido como verdade, não deixa de ser um perfeito erro. Por exemplo, acostumaram-nos, com uma arte digna da melhor causa, a aplicar a palavra análise às operações algébricas. Os franceses são os primeiros responsáveis por essa trapaça científica. Porém, se se reconhece que os termos da linguagem têm uma importância real, se as palavras fundamentam o seu valor na aplicação, oh!, então concedo que análise signifique álgebra, como geralmente em latim ambitus significa ambição, relegio significa religião e homines honesti quer dizer gente honrada.

– Estou a ver — observei — que você vai arranjar questões com muitos matemáticos de Paris.

– Dou-me conta do valor e dos resultados de uma razão cultivada por um processo especial que não seja a lógica abstrata e verifico particularmente o raciocínio extraído do estudo das matemáticas. As matemáticas são a ciência das formas e das quantidades e o raciocínio matemático não é outra coisa senão a simples lógica aplicada à forma e à quantidade. O grande erro consiste em supor que as verdades a que chamam puramente algébricas são verdades abstratas ou gerais. Este erro é tão grande que me espanta a unanimidade com que é acolhido. Os axiomas matemáticos não são axiomas de uma verdade geral. O que é verdade no que se refere à forma ou à quantidade é frequentemente um erro grosseiro quando se refere, por exemplo, à moral. Nesta última é absolutamente falso que a soma das frações seja igual ao todo. Da mesma maneira, o axioma também não é correto na química. Tão-pouco é certo na avaliação de uma força motriz, porque dois motores, cada um de uma dada potência, não têm, quando estão associados, uma potência igual à soma das potências tomadas separadamente. Há uma multiplicidade de verdades matemáticas que apenas são verdades nos limites da relação. Mas os matemáticos argumentam incorrigivelmente segundo essas verdades finitas, como se elas fossem de aplicação geral e absoluta, valor que, aliás, toda a gente lhes atribui. Bry ant, na sua muito notável Mitologia, cita uma fonte análoga de erros quando diz que, embora ninguém acredite nas fábulas do paganismo, nós próprios esquecemo-lo de tal maneira que algumas vezes extraímos deduções delas, como se fossem realidades vivas. Por outro lado, entre os nossos matemáticos, que são pagãos, há certas fábulas pagãs a que dão crédito e das quais extraíram conclusões, não devido a negligência, mas sim a uma incompreensível perturbação do cérebro. Ora bem, nunca encontrei um matemático puro em quem tenha podido ter confiança fora das suas raízes e das suas equações; não conheci um único que ocultamente não aceite como verdade indesmentível x2 + px não seja igual a q. Como experiência, diga a um desses senhores, se isso o distrair, que você crê na possibilidade de haver casos em que x2 + px não seja absolutamente igual a q, e depois de lhe fazer compreender o que deseja, afaste-se o mais depressa possível, porque ele tentará com certeza bater-lhe.

– Isto quer dizer — continuou Dupin, enquanto eu fazia um grande esforço para não me rir com as suas últimas observações — que se o ministro não fosse mais que um matemático, o prefeito não teria tido necessidade de assinar este cheque. Conheço-o como matemático e como poeta e tinha tomado as minhas medidas tendo em conta a sua capacidade e tendo em conta as circunstâncias em que se encontrava. Sabia também que era um diplomata e um intrigante obstinado. Refletindo, cheguei à conclusão de que um homem assim devia estar ao corrente dos procedimentos policiais.

Evidentemente, devia ter previsto, e os acontecimentos provam-no, as armadilhas que lhe tinham sido preparadas e as pesquisas secretas no palacete. Estas frequentes ausências noturnas, que o nosso bom prefeito acolheu como uma ajuda positiva para o seu futuro êxito e eu interpretei como artimanha para facilitar as investigações da Polícia e para persuadi-la mais facilmente de que a carta não estava no palacete. Também compreendi que toda a série de ideias referentes aos princípios invariáveis da ação policial, ideias que lhe expliquei há pouco, não sem trabalho, também compreendi, dizia eu, que todas essas ideias deviam necessariamente ter surgido no espírito do ministro.

« Por isso, este desdenharia necessariamente de todos os esconderijos vulgares. Um tal homem não podia duvidar que o esconderijo mais complicado, o recanto mais inacessível do seu palacete seria tão pouco secreto como uma antecâmara ou um armário, para os olhos, as agulhas, as verrumas ou os microscópios do prefeito. Finalmente, concluiu que devia utilizar um processo simples. Você deve lembrar-se, sem dúvida, das gargalhadas com que o prefeito acolheu a ideia que lhe expus na nossa primeira entrevista: que se o mistério se apresentava tão intrincado devia ser por causa da sua simplicidade.

– Sim — respondi — lembro-me perfeitamente da hilaridade dele.

Cheguei a pensar que ia ter um ataque de nervos.

– O mundo material — prosseguiu Dupin está cheio de analogias exatas com o imaterial, e é isso que dá um tom de verdade ao dogma da retórica que diz que uma metáfora ou uma comparação tanto podem dar força a um argumento como embelezar uma descrição.

« O princípio da inércia, por exemplo, parece idêntico nas duas naturezas, físicas e metafísica. Um corpo grande põe-se em movimento com mais dificuldade que um corpo pequeno, e a quantidade de movimento está na razão direta desta dificuldade. Isto é tão positivo como esta proposição análoga: os intelectos de grande capacidade, que ao mesmo tempo são mais tempestuosos, mais constantes e mais acidentados nos seus movimentos que os de grau inferior, são aqueles que se movem com maior dificuldade e os que mais vacilam quando se põem em marcha. Outro exemplo: já reparou quais são as tabuletas das lojas que mais chamam a atenção?

– Nunca pensei nisso — confessei.

– Há um jogo de adivinhas em que se utiliza um mapa. Um dos jogadores pede a um dos presentes que descubra uma palavra dada, o nome de uma povoação, rio, estado ou império, enfim, de qualquer palavra que se encontra no mapa pormenorizado. Geralmente, o principiante neste género de jogo pretende atrapalhar o adversário dando-lhe para descobrir nomes escritos numa letra quase imperceptível. Porém, aqueles que se distinguem neste jogo escolhem palavras impressas em grandes letras, de um extremo ao outro do mapa. Estas palavras, tal como as tabuletas com letras enormes, escapam ao observador devido à sua excessiva evidência; e aqui o esquecimento material é precisamente análogo à desatenção moral de um espírito que deixa escapar as considerações demasiado palpáveis, tão evidentes que chegam a ser vulgares e importunas. Todavia, segundo parece, este é um caso que se encontra acima ou abaixo da inteligência do prefeito. Este último nunca acreditaria que o ministro tivesse colocado a carta diante dos narizes dos polícias, para melhor a esconder.

« Quanto mais refletia, mais audacioso e brilhante me parecia o engenho de D…, que, desta maneira, tinha o documento ao alcance da mão, para fazer imediatamente uso dele e para mostrar ao prefeito, de uma maneira decisiva, que o documento não se achava escondido nos limites de uma pesquisa vulgar e em regra, pois eu estava convencido de que o ministro havia recorrido ao procedimento mais engenhoso e mais simples, isto é, ao de não esconder a carta.

« Convencido disto, uma manhã pus uns óculos verdes e apresentei-me em casa do ministro, como que por casualidade. Como tinha suposto, encontrei o senhor D… bocejando, sonolento, e declarando-se preocupado com um enorme aborrecimento. O senhor D… é um dos homens mais enérgicos da atualidade, mas unicamente quando está seguro de não ser visto por ninguém.

« Para não ficar atrás, queixei-me da fraqueza dos meus olhos e da necessidade de usar óculos. Porém, através dos óculos inspecionava cuidadosa e minuciosamente toda a divisão, procedendo como se prestasse grande atenção às palavras do ministro.

« Prestei particular atenção a uma secretária grande, junto de que ele estava sentado e em cima da qual se achavam misturados, numa estranha confusão, várias cartas e diversos outros papéis, assim como dois instrumentos musicais e alguns livros. Depois de um prolongado exame, feito com todo o tempo necessário, nada vi que pudesse despertar particularmente as minhas suspeitas.

« Finalmente, os meus olhos, ao percorrerem a sala, detiveram-se num modesto porta-cartas com enfeites dourados, pendurado por cima da lareira por meio de uma fita azul bastante antiga. O porta-cartas, que dispunha de três ou quatro divisões, continha cinco ou seis cartões de visita e uma única carta. Esta última encontrava-se muito suja, amarrotada e quase rasgada ao meio, como se tivessem pensado em rasgá-la completamente, como se faz a uma missiva sem interesse, mas depois houvessem mudado de ideias.

« Esta carta exibia um grande monograma negro de D… e era dirigida ao próprio ministro. O endereço parecia escrito por mão feminina, com letra muito pequena. Aparentemente, a carta havia sido colocada negligentemente num dos compartimentos do porta-cartas.

« Mal lancei uma olhadela à carta, deduzi imediatamente que era aquela que eu procurava. O aspeto dela era, evidentemente, absolutamente diferente do que o prefeito me descrevera. Neste, o monograma era negro e grande; no outro, pequeno e encarnado, com as armas ducais da família S… Nesta a escrita era miúda e feminina; na outra, o endereço tinha o nome de uma personagem real e a letra era firme e vigorosa. As duas cartas apenas se pareciam num ponto: as dimensões. Porém, o caráter exagerado das diferenças, particularmente a sujidade, e o estado do papel, amachucado e rasgado, tão em contraste com os verdadeiros costumes metódicos de D…, denunciavam a intenção de a mostrar como um documento sem valor. Tudo isto, juntamente com o facto de o documento se achar diante dos olhos de todos os visitantes e por concordar com as minhas deduções anteriores, parecia corroborar as minhas suspeitas.

« Prolonguei a minha visita o máximo tempo possível e enquanto mantinha uma discussão muito viva com o ministro acerca de um problema de grande interesse para ele, não deixei de observar a carta, refletindo sobre o seu aspeto exterior e a maneira como tinha sido posta no porta-cartas e fiz uma descoberta que eliminou qualquer pequena dúvida que ainda me restasse. Analisando os rebordos do papel, notei que estavam mais estragados que numa carta em idênticas circunstâncias, isto é, via-se claramente que tinha sido trabalhada. A carta, de papel grosso, apresentava o aspeto de ter sido aberta, descolada e novamente dobrada, pelos mesmos vincos, mas em sentido inverso. Esta descoberta foi o bastante. Desde então não tive mais dúvidas de que a carta havia sido voltada como uma luva, colada de novo e lacrada segunda vez. Pedi licença para me retirar, tendo o cuidado de deixar esquecida em cima da secretária uma tabaqueira de ouro.

« Na manhã seguinte fui buscar a tabaqueira e reencetámos animadamente a discussão da véspera. Enquanto conversávamos, ouviu-se na rua uma forte detonação, seguida de gritos e exclamações de uma multidão assustada. O ministro D… correu para uma janela, abriu-a e olhou para a rua. Ao mesmo tempo, eu dirigi-me ao porta-cartas, peguei na carta, meti-a no bolso e substituí-a por outra, uma espécie de fac-símile (quanto ao exterior) que tinha preparado na minha casa, falsificando o monograma do senhor D… com uma espécie de sinete de miolo de pão.

« O tumulto na rua tinha sido provocado pelo insensato capricho de um homem armado de uma espingarda, que havia disparado a arma no meio de uma multidão de mulheres e crianças. Enfim, como a arma não estava carregada com cartuchos com balas, tomaram o indivíduo por um louco ou um bêbado e deixaram-no seguir o seu caminho. Depois de o homem se retirar, o senhor D… afastou-se da janela, onde eu fora fazer-lhe companhia depois de ter- me apoderado da preciosa carta. Despedi-me dele pouco depois. O pretenso louco era um homem pago por mim.

– Mas que pretendia você — perguntei ao meu amigo — ao substituir a carta por outra falsificada? Por que não se apoderou dela aquando da sua visita, sem outras precauções?

– O senhor D… — respondeu Dupin — é capaz de tudo e, além disso, é um homem vigoroso. Por outro lado, tem servidores completamente dedicados à sua causa. Se eu tivesse posto em prática a extravagante tentativa que você me sugeriu, não teria saído vivo de casa dele e o bom povo de Paris nunca mais ouviria falar em mim. Ora bem, à parte essas considerações, tinha um objetivo particular. Você já conhece as minhas simpatias políticas e neste caso procedi como partidário da dama em questão, que desde há dezoito meses está nas mãos do ministro. Agora, porém, inverteram-se os papéis, e como ele ignora que a carta desapareceu da sua casa, quererá continuar a impor-se. É quase certo que, ao tentar o próximo golpe, consumará a sua ruína política. A sua queda será tão brusca como ridícula. Fala-se bastante descuidadamente do facilis descensus Averni, mas, quanto a ascensões, pode dizer-se o mesmo que a Catalani dizia do canto: é mais fácil subir que descer. O senhor D… é um verdadeiro monstrum horrendum, um homem de génio sem princípios. No entanto, confesso que não me desagradaria conhecer os pensamentos dele quando, desafiado pela personagem a quem o prefeito chamava uma certa pessoa, se vir obrigado a abrir a carta que eu lhe deixei no porta-cartas.

– Quê?! Você escreveu alguma coisa na carta falsa?

– Pois claro! Não me pareceu bem deixar o papel em branco. Isso pareceria um insulto. Certa vez, em Viena, o senhor D… pregou-me uma valente partida e reagi, dizendo-lhe, com um sorriso, que não me esqueceria. Assim, como estava convencido de que ele sentiria curiosidade em saber quem fora a pessoa que lhe tinha trocado a carta, pensei que era lamentável não lhe deixar um indício. Como o ministro conhece a minha letra, copiei, no meio da carta os seguintes versos:

…desígnio tão funesto,
Se não é digno de Atreu, é digno de Tiestes.

Você encontrará isto no Atreu, de Crébillon!

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