O Poder da Palavra – Edgar Allan Poe

By | 06/10/2021

Oinos — Perdoa, Agathos, a fraqueza de um espírito revestido ainda há pouco da imortalidade.

Agathos — Não tenho nada que te perdoar, meu caro Oinos. O conhecimento não é instintivo, nem mesmo aqui. Quanto ao saber, pede-o aos anjos com confiança!

Oinos — Mas na existência passada imaginava eu que o conhecimento de todos os objetos me viria de uma só vez e, com ele, a felicidade absoluta.

Agathos — Ah! não é na ciência que está a felicidade, mas sim na aquisição da ciência! Saber para sempre é a beatitude eterna: mas saber tudo seria uma condenação de demónio!

Oinos — Mas visto que os nossos conhecimentos aumentam a cada minuto, não é inevitável que cheguemos por fim a conhecer tudo?

Agathos — Contempla o abismo imenso do Universo. Deixa cansarem-se- te os olhos a penetrar as inumeráveis perspetivas de estrelas, através das quais deslizamos serenamente e sem fim! Não sentes estacar a própria visão espiritual ante as áureas muralhas circulares dos céus, muralhas feitas de miríades de corpos brilhantes que se fundem numa unidade incomensurável?

Oinos — Concebo agora claramente que o infinito da matéria não é um sonho.

Agathos — Não há sonhos no céu, mas revela-se-nos aqui que o único objeto do infinito da matéria é criar fontes infinitas onde a alma possa saciar esta sede de conhecer que lhe é ingénita e que ela não poderia extinguir sem se aniquilar a si própria. Interroga-me pois, meu Oinos, com liberdade e sem receio. Vem! Deixaremos à esquerda o grupo brilhante das Plêiades e iremos pousar lá ao longe, nas planícies estreitadas, para além de Órion, onde acharemos, em vez de amores perfeitos, violetas e jáceas selvagens, vastas regiões de sóis triplos e de sóis tricolores.

Oinos — E agora, Agathos, enquanto adejamos através do espaço, instrui-me. Mas fala-me a linguagem familiar da terra. Ainda agora não compreendi bem o que me davas a entender sobre os modos e os processos da criação; isto é, do que chamávamos criação no tempo em que éramos mortais. Queres dizer que o Criador não é Deus?

Agathos — Quero dizer que a Divindade não cria coisa alguma. Oinos — Explica-te.

Agathos — A Divindade não criou senão ao princípio. As criaturas que emergem agora infatigavelmente à existência, por todo o Universo, podem apenas ser consideradas como resultados imediatos ou indiretos, e nunca como diretos ou imediatos do Divino Poder Criador.

Oinos — Essa ideia, meu Agathos, teria sido considerada entre os homens como o último grau da heresia.

Agathos — Entre os anjos, meu Oinos, é simplesmente admitida como uma verdade.

Oinos — A minha razão compreende-te, mas só com relação a certas operações do ser a que chamamos Natureza, ou leis naturais, produzindo, em determinadas condições, objetos que têm a perfeita aparência da criação. Recorda-me que, pouco tempo antes da destruição final da terra, fizeram-se, com o melhor êxito, um grande número de experiências que alguns filósofos designaram, enfaticamente, sob o nome de criação de animálculos.

Agathos — Esses casos não eram senão exemplos de criação secundária, da única espécie de criação que não se tornou mais a efetuar desde que a primeira palavra proferiu a primeira lei.
Oinos — E os mundos estrelados, que brotam incessantemente das profundezas do Nada e que a toda a hora e todo o instante fazem explosão nos céus; esses astros, Agathos, também não são a obra imediata do Criador?

Agathos — Vou tentar, meu Oinos, conduzir-te gradualmente à conceção que tenho em vista. Sabes perfeitamente que, assim como nenhum pensamento pode perder-se, assim não há uma única ação que não tenha um resultado infinito. As nossas mãos agitando-se no ar, quando éramos habitantes da terra, causavam uma certa vibração na atmosfera ambiente. Essa vibração prolongava-se indefinidamente, comunicando-se a cada molécula da atmosfera terrestre, que a partir desse momento e para sempre era posta em atividade por aquele simples movimento da mão. Os matemáticos do nosso planeta conheceram perfeitamente esse facto. Os efeitos particulares criados no fluido por impulsos particulares serviram-lhes de base a um cálculo muito exato. De sorte que se tornou fácil determinar em que período preciso o impulso de uma força dada poderia fazer o giro do globo e influenciar, para sempre, cada átomo da atmosfera ambiente. Por um cálculo retrógrada, determinaram igualmente (sendo dado um efeito em condições conhecidas) o valor do impulso original. Então os mesmos sábios que viram que os resultados de um impulso dado eram absolutamente sem fim e que uma parte desses resultados podia ser rigorosamente seguida no espaço e no tempo, por meio da análise algébrica, que compreenderam também a facilidade do cálculo retrógrado, esses homens, digo, conheceram ao mesmo tempo que esta espécie de análise continha, ela própria, um poder de progresso indefinido: que não existiam limites concebíveis à sua marcha progressiva nem à sua aplicabilidade, exceto os do espírito que a havia conduzido ou aplicado. Mas tendo chegado a este ponto, os nossos matemáticos estacaram.

Oinos — E para que haveriam de ter ido mais longe, Agathos?

Agathos — Porque mais longe havia considerações de um interesse profundo. Do que sabiam, os nossos filósofos podiam ter inferido que um ser de uma inteligência infinita (um ser para quem a análise algébrica não teria limitação) não acharia a mínima dificuldade em seguir qualquer movimento imprimido ao ar e transmitido ao éter pelo ar até às suas repercussões mais longínquas, mesmo numa época infinitamente remota. Demonstra-se, efetivamente, que cada movimento imprimido ao ar deve, por fim, atuar sobre todos os seres individuais compreendidos nos limites do universo. Ora o ser dotado de uma inteligência infinita (o ser que imaginámos) poderia seguir as ondulações longínquas do movimento, segui-las ao longe e incessantemente mais longe, nas suas influências sobre todas as partículas da matéria; ao longe e incessantemente mais longe, nas modificações que elas impõem às formas primitivas (ou, noutros termos, nas criações novas que elas produzem), até vê-las, por fim, quebrarem-se e desde então ineficazes, de encontro ao trono da Divindade. Um tal ser poderia fazer não só isto, mas ainda, se numa época qualquer lhe fosse apresentado um certo resultado (se um destes cometas inumeráveis, por exemplo, fosse submetido ao seu exame) ele poderia, sem trabalho algum, determinar, pela análise retrógrada, a que impulso primitivo o mesmo cometa devia a sua existência. O poder de análise retrógrada, na sua plenitude e absoluta perfeição, é exclusivamente a prerrogativa da Divindade; mas este poder é exercido, em todos os graus da escala inferior à perfeição absoluta, pela povoação total das inteligências angélicas.

Oinos — Mas tu não falas senão dos movimentos imprimidos ao ar.

Agathos — Falando do ar, o meu pensamento abraçava apenas o mundo terrestre; mas a proposição generalizada compreende os impulsos criados no éter, os quais, penetrando e atravessando todo o espaço, vem a ser o grande medium da criação.

Oinos — Então todo o movimento, de qualquer espécie que seja, é criador? Agathos — Certamente que sim; mas há muito tempo que uma filosofia verdadeira nos ensinou que a fonte de todos os movimentos é o pensamento; e que a fonte de todos os pensamentos é…

Oinos — Deus.

Agathos — Falei-te, Oinos (como devia falar a um filho dessa bela terra que morreu recentemente), dos movimentos produzidos na atmosfera da terra.

Oinos — Sim, caro Agathos.

Agathos. — E enquanto eu assim falava, não te atravessou o espírito algum pensamento relativo ao poder material das palavras? Não é verdade que cada palavra é um movimento criado no ar?

Oinos — Mas porque choras, Agathos? E porque, oh!, porque é que as tuas asas enfraquecem ao pairar sobre esta bela estrela, a mais virente e contudo a mais terrível de todas as que havemos encontrado no nosso voo? As suas brilhantes flores parecem um sonho maravilhoso, mas os seus vulcões ferozes lembram as paixões de um coração tumultuoso!

Agathos — Não parecem, são! São sonhos e paixões! Esta estrela extraordinária fui eu que a criei há cerca de três séculos, proferindo algumas frases apaixonadas com os punhos cerrados e os olhos arrasados de lágrimas aos pés da minha amada. As suas flores brilhantes são os mais caros de todos os sonhos não realizados e os seus vulcões furiosos são as paixões do mais tumultuoso e do mais insultado dos corações!

226 Views