As Recordações de Bedloe – Edgar Allan Poe

By | 05/10/2021

Nos fins do ano de 1827, quando eu vivia perto de Charlottesville, na Virgínia, conheci casualmente o senhor Augusto Bedloe. Desde o primeiro momento ele despertou-me curiosidade e interesse. Era-me impossível compreender quer o seu aspeto físico quer o seu aspeto moral. Não consegui obter nenhum pormenor positivo acerca da sua família.

Donde vinha? Não o soube nunca. Quanto à idade, parecia jovem e até alardeava juventude; mas havia momentos em que ninguém hesitaria em dar-lhe uma centena de anos.

Mas o mais estranho nele era o seu aspeto exterior. Extraordinariamente alto e delgado, curvava-se muito a andar, tinha a testa enorme, a boca larga e flexível, e os dentes, embora sãos, eram os mais irregulares que jamais vi numa boca humana.

No entanto, a expressão do seu sorriso não era desagradável, como se podia supor, mas exprimia uma profunda melancolia, uma tristeza constante. Os olhos eram grandes e redondos como os dos gatos, e até as pupilas tinham contrações e dilatações proporcionais ao aumento e diminuição da luz, exatamente como acontece com os felinos. Nos momentos de excitação, essas pupilas tornavam-se brilhantes até um ponto inconcebível e pareciam emitir raios luminosos nascidos de um fogo interior. Habitualmente, porém, permaneciam opacos, lembrando os olhos de um morto enterrado há muito tempo.

Todas estas particularidades pareciam incomodá-lo muito e aludia constantemente a elas num estilo meio explicativo meio justificativo que, a primeira vez que se ouvia, impressionava penosamente.
No entanto, acostumei-me bem depressa a isso e não voltei a sentir o menor mal-estar quando ele falava. Tinha a obsessão de insinuar, mais do que afirmar positivamente, que fora sempre diferente do que era agora, e que uma longa série de ataques nervosos lhe haviam transformado a sua antiga beleza pessoal. Há muitos anos que cuidava da sua saúde um velho médico chamado Templeton, que encontrara em Saratoga e que, dada a fortuna de Bedloe, consentiu em consagrar exclusivamente toda a sua experiência médica a tratar do doente.

O doutor Templeton, que teria aproximadamente setenta anos, viajara muito durante a sua juventude e foi, em Paris, um dos discípulos mais entusiastas das doutrinas de Mesmer. Para aliviar as dores violentas do enfermo empregava exclusivamente remédios magnéticos, conseguindo inspirar a Bedloe uma grande confiança nesse sistema de cura. Além disso, o doutor, como todos os entusiastas de uma causa ou de um sistema, tinha conseguido fazer de Bedloe um perfeito prosélito e conseguira por fim que ele se submetesse a toda a espécie de experiências. A sua repetição dera como resultado qualquer coisa que naquela época era ainda muito rara na América. Refiro-me à relação magnética, cada vez mais absoluta e forte, que se estabeleceu entre o doutor Templeton e Bedloe. Não tenho, no entanto, a pretensão de afirmar que essa relação se estendia para além da faculdade de o adormecer, mas sim que este poder tinha uma grande intensidade. Na primeira tentativa feita para provocar o sono hipnótico, o discípulo de Mesmer fracassou por completo. Na quinta ou sexta não conseguiu mais que um resultado imperfeito e à custa de grandes esforços. Unicamente na oitava o triunfo foi completo. Desde então, a vontade do paciente sucumbiu rapidamente sob a do médico, tanto que, quando eu os conheci, o sono chegava instantaneamente por um simples ato volitivo do operador, embora o enfermo não se apercebesse da sua presença. Por isso, agora, no ano de 1845, quando todas essas coisas já deixaram de ser milagre, me atrevo a revelar um facto positivo mas aparentemente impossível.

O temperamento de Bedloe era sensível, excitável e entusiasta no mais alto grau. A sua imaginação, singularmente vigorosa e criadora, obtinha, sem dúvida, energias adicionais pelo uso habitual do ópio, que consumia em grande quantidade e sem o qual lhe teria sido impossível viver. Tinha por costume tomar uma boa dose, imediatamente depois do pequeno-almoço, que consistia numa chávena de café forte. Depois disso partia, sem outra companhia que a de um cão, ao longo da cadeia de montes selvagens situada a oeste e a sul de Charlottesville e que foram crismados com o nome de Ragged Mountains (Montes Desgarrados).

Numa manhã sombria, quente e nevoenta de novembro, e durante o estranho período de tempo que na América chamamos o verão indiano, o senhor Bedloe saiu, como todos os dias, para dar o seu passeio habitual. Chegaram, porém, as oito da noite e ainda não tinha voltado.

Seriamente alarmados por essa prolongada ausência, dispúnhamo-nos já a sair à sua procura quando reapareceu subitamente. O relato que nos fez da sua expedição e do que lhe aconteceu foi dos mais singulares.

– « Devem lembrar-se — disse — que eram aproximadamente nove horas da manhã quando saí de Charlottesville. Dirigi-me para o monte e, cerca das dez, entrava num desfiladeiro completamente desconhecido para mim. Segui todas as sinuosidades daquela passagem com verdadeiro interesse. O espetáculo que se oferecia aos meus olhos, embora sem merecer o nome de sublime, apresentava um aspeto indiscritível de lúgubre desolação, que muito me agradava. A solidão absoluta tinha qualquer coisa de virginal. Saboreava o prazer de imaginar que ninguém antes de mim ali pusera os pés. Era tão estreita a entrada do desfiladeiro e de tal maneira estava oculta e parecia inacessível, que esta minha crença não me parecia disparatada.

« A bruma espessa e tão singular, característica do verão indiano, estendia- se pesadamente sobre tudo, e era tão densa que não se distinguiam os objetes a doze jardas de distância. O caminho apresentava-se cheio de curvas, e a ausência da luz solar tornava-o de tal forma vago que perdi por completo o sentido da direção. Não se esqueçam também de que o ópio tinha produzido o seu efeito costumado, aumentando a intensidade emocional do meu mundo interior. O estremecer de uma folha, a cor de uma hastezinha de erva, a forma caprichosa de uma moita de trevo, o zumbido de uma abelha, o brilho de uma gota de orvalho, o suspiro do vento, os vagos perfumes que vinham do bosque, produziam-me um mundo de sugestões, uma procissão mágica de pensamentos desordenados e rapsódicos. Absorto nos meus sonhos, caminhei muitas horas, durante as quais a névoa se foi tornando mais espessa à minha volta, o que me obrigava, em algumas ocasiões, a andar tateando com as mãos. Um indefinível mal-estar, uma espécie de irritação nervosa que me fazia estremecer o corpo, apoderou-se de mim. Houve um momento em que tive medo de avançar e de me precipitar nalgum abismo. Lembrei-me também das estranhas histórias dos Montes Desgarrados, das raças selvagens que habitam os seus bosques, da sua selva e das suas cavernas. De súbito, a minha atenção foi atraída pelo rufar de um tambor.

« Como é natural, fiquei estupefacto. Um tambor naqueles sítios era uma coisa insólita. Não me surpreenderia mais o soar da trombeta do Arcanjo. Mas não tive tempo de continuar na minha perplexidade, porque outro facto mais extraordinário chamou a minha atenção.

« Senti aproximar-se um tinir estranho, como o que produziria um molho de chaves batendo umas nas outras, e quase imediatamente passou à minha frente, soltando um grito agudo, um homem meio nu, de rosto muito moreno. Passou tão perto de mim que senti na face a sua respiração ardente. Levava na mão um objeto feito de anilhas de ferro, que ia sacudindo à medida que corria. Mal desaparecera na névoa quando, arquejante, se lançou em sua perseguição uma fera enorme, com as fauces abertas e os olhos em brasa. Conheci-a logo: era uma hiena. A vista desse monstro, em vez de aumentar o meu terror, tranquilizou-me, porque então fiquei convencido de que sonhava e fiz todos os esforços para despertar.

« Comecei a andar mais rapidamente que antes. Esfreguei as pálpebras, gritei muito alto, belisquei-me nos braços, e, aproveitando uma pequena fonte que encontrei, lavei as mãos, a cabeça e o pescoço. Senti dissiparem-se as sensações equívocas que até aí me tinham atormentado e pareceu-me até, ao voltar a mim, ser um homem diferente. Já em melhor disposição de ânimo, continuei a andar pela senda desconhecida.

« Não tardei a sentar-me junto de uma árvore, quase esgotado pelo exercício e pelo peso da pressão atmosférica. Naquele momento, apareceu um ténue raio de sol que recortou a sombra das folhas sobre a erva, vagamente. Olhei espantado para essa sombra e, depois, levantei os olhos. A árvore era uma palmeira.

« Ergui-me rapidamente num estado de agitação terrível. Já não podia atribuir ao sono o que via. Tinha a certeza de estar no pleno uso das minhas faculdades, e, no entanto, os sentidos traziam à minha alma um mundo de sensações inéditas e singulares.

« O calor era intolerável; a brisa tinha um perfume penetrante. Um murmúrio profundo e contínuo, como o de um largo rio, chegou aos meus ouvidos, misturado ao rumor característico da multidão. Enquanto eu escutava, o vento, como uma varinha mágica, dissipou a névoa que cobria a terra e encontrei-me num vale através do qual passava majestosamente um grande rio, ao pé de uma montanha enorme. Nas margens do rio erguia-se uma povoação de aspeto oriental, como as descritas em «As mil e uma noites» , mas com um aspeto ainda mais estranho. Do sítio onde eu estava colocado, muito acima do nível da povoação, podia observar todos os seus aspetos como se estivessem desenhados num mapa. As ruas eram inumeráveis e entrecruzavam-se irregularmente em todas as direções, largas como avenidas, e cheias de gente.

« As casas eram extraordinariamente pitorescas, com grande profusão de balcões, terraços, minaretes e torrezinhas de fantásticas ameias. Eram numerosos os bazares, e as mais ricas mercadorias eram exibidas neles com enorme abundância: sedas, musselinas, alfaias magníficas e joias preciosas. Entre a multidão, havia palanquins e liteiras, no fundo dos quais se viam vultos de mulher, com o rosto severamente velado. Passavam elefantes cobertos de panos faustosos, ídolos talhados grotescamente, bandeirolas, lanças, tudo no meio do som múltiplo dos tambores e dos gongos. Noutros lugares, entre milhares de homens negros e amarelos com turbantes de cores vistosas e barbas flutuantes, circulava uma porção de bois cobertos de fitas, enquanto legiões de macacos sujos e sagrados trepavam, palradores, às cornijas das mesquitas ou se dependuravam dos minaretes e das torrezinhas. Das mas, cheias de gente, desciam para os cais junto ao rio inumeráveis escadarias que conduziam aos banhos, e, mesmo dentro das águas, era difícil encontrar uma passagem livre através dos navios engalanados que sulcavam a sua superfície, por todos os lados.

« Na parte exterior dos muros da cidade havia majestosos bosques de palmeiras e coqueiros e de outras árvores seculares, gigantescas e solenes. Aqui e ali avistava-se um arrozal, a cabana de um camponês, uma cisterna, um ou outro templo solitário, ou a silhueta pura e graciosa de uma rapariga dirigindo-se para o rio com o cântaro biblicamente pousado na cabeça. Estais a pensar que tudo isto era um sonho. De forma alguma. Tudo aquilo que eu via, ouvia, palpava, nada tinha que ver com a forma característica e inconfundível do sonho. Quando alguém, sonhando, dá conta do seu estado, a sua suspeita não deixa de confirmar-se e a pessoa adormecida desperta imediatamente. É certa a afirmação de Novalis quando diz que estamos mais perto de despertar quando sonhamos que sonhamos. Se aquele espetáculo se me tivesse oferecido, tal como o descrevi, sem que suspeitasse de que se tratava de um sonho, então poderia ter sido realmente um sonho. Mas apresentando-se como eu disse, suspeitado e comprovado como foi, tenho de classificá-lo noutra espécie de fenómenos.

– Nisso não creio que o senhor se engane — observou o doutor Templeton.

– Mas continue. O senhor dizia que se levantara e se dirigira para a cidade…

Augusto Bedloe olhou profundamente para o doutor.

– Justamente. Como o senhor diz, levantei-me e dirigi-me para a cidade. Em breve me encontrei no meio de uma imensa multidão que seguia em determinado sentido, dando mostras da maior agitação. Subitamente, por virtude de um inconcebível influxo, senti-me penetrado de interesse pelo que ia acontecer. Tive até o pressentimento de que ia representar o papel principal, sem compreender exatamente qual seria.

« Um estranho e profundo sentimento de hostilidade fez-me odiar a multidão e fugir dela para entrar na cidade por um estreito e afastado caminho. Tudo à minha volta era tumulto e discórdia. Grupos de homens meio índios meio europeus lutavam contra outros que vestiam uniformes ingleses. Sem reparar no que fazia, agarrei nas armas de um oficial morto e comecei a ferir a torto e a direito com a ferocidade nervosa do desespero.

« Depressa fugimos vencidos pelo número e fomos obrigados a refugiar- nos numa espécie de quiosque, onde nos fortificámos, ficando momentaneamente em segurança. Através de uma floresta, do alto do quiosque, vi que a multidão, furiosamente enraivecida, assaltava um formoso palácio situado na margem do rio, e, em breve, de uma das janelas superiores do palácio, vi descer uma personagem de aspeto efeminado, que, servindo-se de uma corda feita de turbantes, conseguiu chegar até uma embarcação, na qual fugiu para a margem oposta.

« Então dirigi-me aos meus companheiros e, com palavras precipitadas mas enérgicas, convenci-os a sairmos da nossa fortaleza. Lançámo-nos entre a multidão assaltante, que a princípio recuou mas que logo retrocedeu para lutar com nova coragem. Por fim, vimo-nos perdidos em ruas estreitas, ladeados por altos edifícios que as sombreavam, e onde nunca chegavam os raios do sol.

« A população caiu impetuosamente sobre nós, ameaçando-nos com as lanças e fazendo-nos curvar a cabeça sob uma nuvem de flechas. Eram curiosas essas flechas, semelhantes aos kriss retorcidos dos malaios, semelhantes a serpentes, pois são grandes e negros como elas e têm a ponta envenenada. Uma dessas flechas feriu-me na fonte direita. Dei uma volta e caí pesadamente. Um mal instantâneo e terrível se apoderou de mim, agitei-me convulsivamente, tentei respirar e por fim pareceu-me que morria» .
– Suponho — exclamei sorrindo — que o senhor já não se obstinará em teimar que a sua aventura não foi um sonho! A não ser que esteja disposto a sustentar que está morto…

Esperava, ao pronunciar estas palavras, que Bedloe me respondesse artificiosamente, mas com grande espanto meu vi-o empalidecer até à lividez, o corpo estremecer-lhe estranhamente e guardar silêncio. Então olhei para Templeton. Estava imóvel na sua cadeira, os dentes batiam-lhe e tinha os olhos quase fora das órbitas.

– Continue — disse por fim a Bedloe em voz rouca.

– Durante alguns minutos — continuou Bedloe — a minha única sensação foi a da noite e a do não ser, com a consciência da morte. Por fim, uma sacudidela violenta e súbita, como um choque elétrico, atravessou a minha alma e recobrei com ela o sentido da elasticidade e da luz. Digo o sentido porque não via a luz mas sentia-a. Pareceu-me que abandonava a terra, mas que já não possuía presença corporal, visível e palpável.

« A multidão retirara-se. O tumulto cessara. A cidade estava tranquila. Debaixo de mim, jazia o meu corpo com a flecha cravada na fronte, com o rosto desfigurado e terrivelmente inchado.

« Mas tudo isto eu não o via; sentia-o. Nada me interessava e parecia-me nada ter de comum com o cadáver. Esvaíra-se-me a vontade e pareceu-me que voava para fora da cidade, seguindo o mesmo caminho que pisara para entrar nela.

Quando cheguei ao desfiladeiro, ao próprio lugar onde encontrara a hiena, senti novo choque, como o que é produzido pela corrente de uma pilha, e a sensação de peso, de volição e de substância tornou a entrar em mim. Voltei a ser eu mesmo, o meu próprio indivíduo, e orientei rapidamente os meus passos para aqui, mas sem que o que se passara perdesse a energia viva da realidade. Desta forma, nem sequer por um minuto posso contradizer a minha inteligência considerando que tudo tenha sido um sonho».

– E não é — disse Templeton com um ar de solenidade profunda. — Mas seria difícil encontrar o termo que melhor definisse o fenómeno. Suponhamos que a alma do homem moderno se encontra à beira de prodigiosas descobertas psíquicas. Contentemo-nos, por enquanto, com esta hipótese, e vejamos esta aguarela, que já lhes teria mostrado se um indefinível sentimento de horror mo não tivesse impedido.

E apresentou-nos uma pintura que, para mim, nada tinha de extraordinário, mas cujo efeito sobre Bedloe foi prodigioso.

Apenas a viu, quase desmaiou, e, no entanto, não era mais do que uma miniatura, um retrato maravilhosamente acabado da sua própria fisionomia tão original. Pelo menos, foi isto, naturalmente, o que me ocorreu ao vê-lo.

– Vejam os senhores a data da pintura — disse Templeton. — É bem visível aqui, neste canto: 1780. Foi feita, sem dúvida, neste mesmo ano. Trata-se de um amigo meu, já falecido, um tal Oldeb, de quem em Calcutá fui muito íntimo durante o governo de Warren Hasting. Eu tinha então vinte anos. E quando o vi pela primeira vez, amigo Bedloe, em Saratoga, a milagrosa semelhança que existia entre o senhor e este retrato fez com que eu procurasse a sua amizade e tentasse realizar a combinação de nunca nos separarmos.

« Ao fazer isto, era impelido, principalmente, não pela triste recordação do falecido mas por uma inquietação não desprovida de terror e de curiosidade. Ao relatar a visão que teve na montanha, o senhor descreveu minuciosamente a cidade indostânica de Benares, nas margens do Rio Sagrado. Os tumultos, os combates e as cenas de extermínio foram episódios reais da insurreição de Chey te-Sing, em 1780, quando a vida de Hasting corria os maiores perigos. O homem que fugiu valendo-se dos turbantes dos seus criados era o próprio Chey te-Sing. A tropa do quiosque era composta de cipaios e oficiais ingleses, capitaneados pelo próprio Hasting. Eu fazia parte dêsse destacamento e empreguei todos os esforços para impedir a imprudente e fatal saída do oficial que caiu morto pela flecha envenenada de um bengali. Esse oficial era o meu queridíssimo amigo Oldeb. O senhor verá por este manuscrito — e o narrador mostrava um livro de notas de que algumas páginas pareciam de data muito recente — que, enquanto o senhor pensava essas coisas no meio do monte, eu estava ocupado aqui, em sua casa, a escrevê-las no papel».

Uma semana aproximadamente depois desta conversa foi publicado num jornal de Charlottesville o seguinte comunicado:

Cumprimos o doloroso dever de anunciar a morte do senhor Augusto Bedlo, um cavalheiro cujo excelente trato e afáveis qualidades o tinham tornado muito estimado dos nossos conterrâneos. Há já algum tempo que o senhor Bedlo sofria de umas terríveis nevralgias, que por várias vezes lhe iam causando a morte; mas, no entanto, a causa do seu falecimento foi bem diferente. Numa excursão feita há dias aos «Montes Desgarrados» contraiu umas febres que foram seguidas de congestão cerebral. Para o aliviar, o doutor Templeton pensou que seria oportuna uma sangria local e aplicaram-se sanguessugas nas fontes. O senhor Bedlo faleceu quase imediatamente e, ao ser examinado o recipiente que continha as sanguessugas, viu-se então que, desgraçadamente, havia entre elas um desses vermes venenosos tão abundantes nesta região. A sua extrema semelhança com a sanguessuga medicinal deu lugar à confusão. E, no entanto, a sanguessuga venenosa de Charlottesville pode distinguir-se da medicinal pela sua cor negra e especialmente pelas suas contorções vermiculares, que se parecem muito com as de uma serpente.

Falando com o diretor do jornal, perguntei-lhe dias depois porque tinha escrito o nome do defunto suprimindo-lhe o e final. O diretor encolheu os ombros:

– Foi uma simples gralha tipográfica. Já se sabe que o nome era Bedloe com um e final e nunca o vi escrito de outra forma.

Eu pensei então numa verdade muito mais estranha que todas as ficções. Os outros podiam supor que se tratava de uma gralha tipográfica, mas, na realidade, a palavra Bedlo, sem e final, não é outra senão a palavra Oldeb ao contrário.

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