Conversa entre Eiros e Charmion – Edgar Allan Poe

By | 27/09/2021

Eiros — Porque me chamas Eiros?

Charmion — Porque assim te chamarás de hoje em diante. Esquece igualmente o meu nome terrestre e chama-me Charmion.

Eiros — Não será isto um sonho?

Charmion — Não há sonhos onde agora estamos; mas deixemos por enquanto esses mistérios. Alegro-me de ver em ti o aspeto da vida e a lucidez da razão. As cataratas da sombra desapareceram já dos teus olhos. Anima-te e não temas nada; os dias da estupefação passaram para ti. Amanhã, eu própria quero introduzir-te nas alegrias perfeitas e nas maravilhas da tua nova existência.

Eiros — Efetivamente não sinto a mínima estupefação. A vertigem e as trevas deixaram-me de todo; já não ouço aquele barulho insensato, precipitado, terrível, semelhante ao rugido do mar. Contudo, Charmion, sobressalta-me a perceção do novo.

Charmion — Isso há de passar depressa; compreendo a comoção que sentes. Por tudo isso passei eu há cerca de dez anos terrestres e ainda não pude perder a lembrança desse alvoroço intraduzível. Mas é o teu último transe, o único pelo qual terás de passar no céu.

Eiros — No céu? Charmion — Sim, no céu.

Eiros — Oh! meu Deus, tende piedade de mim! Sinto-me esmagada pela majestade de tudo o que me rodeia, pela revelação do desconhecido, pelo Futuro, ontem vaga conjetura, convertido hoje no Presente augusto e certo.

Charmion — Não te entregues por ora a semelhantes pensamentos; amanhã falaremos nisso. As recordações do passado acalmarão melhor a agitação do teu espírito vacilante. Não olhes em redor de ti, nem tão pouco para a frente. Olha para trás. Estou ansiosa por ouvir a narrativa do acontecimento prodigioso que te trouxe aqui. Conta-me isso. Conversemos de coisas familiares e falemos a antiga linguagem desse mundo que acaba de perecer de um modo tão espantoso.

Eiros — Espantoso, sim, e real! Não é sonho.

Charmion — Os sonhos acabaram para nós. Mas conversemos, minha Eiros. Primeiro que tudo diz-me: quando eu morri chorou-se muito por mim lá na terra?

Eiros — Oh! profundamente, Charmion. A tua família nunca mais teve alegria. Até à hora da destruição, pesou sempre sobre nós uma nuvem intensa de saudade e de melancolia.

Charmion — Fala-me dessa última hora. Além do simples facto da catástrofe, não sei de nada. Na época em que saí da fila dos humanos para entrar nos domínios da noite, parece-me que não se pressentia ainda a catástrofe que vos submergiu. Mas é verdade que eu estava pouco ao corrente da filosofia especulativa do tempo.

Eiros — Dizes bem. Aquela catástrofe era absolutamente inesperada. Entretanto acidentes análogos haviam desde muito suscitado discussões entre os nossos astrónomos. Não preciso dizer-te, minha amiga, que mesmo na época em que nos deixaste já os homens interpretavam as passagens da escritura sagrada, que falam da destruição de todas as coisas pelo fogo, como referindo-se ao globo terrestre. Mas com respeito ao agente imediato da ruína, o pensamento humano perdia-se em conjeturas desde a época em que a ciência astronómica despojara os cometas do seu terrível caráter incendiário. A insignificante densidade desses corpos havia sido evidentemente demonstrada. Tínhamo-los visto atravessar os satélites de Júpiter sem causar a mínima alteração nas órbitas desses planetas secundários. Havia muito tempo que os olhávamos como viajantes inofensivos, criações vaporosas de uma tenuidade inconcebível, incapazes de prejudicar o nosso globo maciço, mesmo no caso de um contacto. Portanto, a ideia de procurar na classe dos cometas o agente ígneo da destruição profetizada era desde longos anos considerada como inadmissível.

Mas ultimamente o espírito do maravilhoso e as imaginações bizarras predominavam singularmente na humanidade e, posto que o receio verdadeiro não pudesse atacar senão os ignorantes, todavia, quando os astrónomos anunciaram um cometa novo, esse anúncio foi recebido com uma espécie de agitação e de desconfiança.

Os elementos do astro estrangeiro, tendo sido logo examinados, todos os observadores reconheceram, de comum acordo, que a sua marcha devia trazê- lo, no periélio, a uma grande proximidade da Terra. Houve dois ou três astrónomos de reputação secundária quo sustentaram resolutamente que o contacto era certo. Não te posso descrever o efeito que aquela notícia produziu no mundo. Durante alguns dias recusámo-nos a acreditar numa asserção que a inteligência humana, materializada nas considerações mundanas, não podia compreender. Mas a verdade, quando se trata de um facto de importância vital, penetra depressa nos espíritos, por mais espessos que estes sejam. Por fim toda a gente viu que a ciência astronómica não mentia.

Esperámos o cometa. Primeiro, a sua aproximação não foi sensivelmente rápida nem o seu aspeto apresentou nada de notável. Era de um vermelho escuro e tinha uma cauda regular. Durante sete ou oito dias o seu diâmetro aparente não sofreu aumento notório. A cor é que variou um pouco. Entretanto, todos os negócios e ocupações ordinárias foram abandonados, absorvidos por uma discussão imensa que se travou entre os sábios relativamente à natureza dos cometas. Os homens mais grosseiros e mais ignorantes elevaram as suas faculdades mesquinhas até àquelas altas considerações. Os sábios empregaram então toda a sua inteligência, todo o seu saber, toda a sua energia; não para diminuir o receio, não já para sustentar uma teoria predileta, mas para procurar a verdade; a verdade e nada mais! Consumiram-se a procura-la! Chamaram em altos brados a ciência perfeita! A verdade ergueu-se na pureza da sua força e da sua excessiva majestade! Os sábios inclinaram-se e adoraram-na.

A opinião de que pudesse resultar do contacto temido um prejuízo real para o nosso globo ou para os seus habitantes todos os dias perdia terreno entre os sábios. Fora demonstrado que a densidade do núcleo do cometa era muito inferior à das camadas mais altas da nossa atmosfera. A passagem inofensiva de um visitante semelhante através dos satélites de Júpiter era um ponto sobre o qual se insistia constantemente e que não serviu de pouco para diminuir o terror. Os teólogos, com um zelo animado pelo medo, persistiam nas profecias bíblicas, explicando-as ao povo com uma retidão e uma simplicidade da qual até ali nunca haviam dado exemplo. A destruição final da terra devia operar-se pelo fogo, diziam eles com uma eloquência que impunha por toda a parte a convicção — mas os cometas não eram de natureza ígnea. Essa verdade, que ninguém ignorava já, punha-nos ao abrigo de recear, por agora, a grande catástrofe profetizada.

É notável que os erros e os preconceitos populares relativos às pestes e às guerras, preconceitos que ressuscitavam de cada vez que aparecia um cometa novo, não tivessem figurado então. Parece que o bom senso, fazendo um esforço supremo, derrubara, de repente, do trono a superstição. O excesso do interesse atual havia dado energia até às inteligências mais fracas.

Os desastres de pequena gravidade que podiam resultar do contacto foram assunto de laboriosas discussões. Os sábios falavam de ligeiras perturbações geológicas, de alterações prováveis nos climas e por conseguinte na vegetação, da possibilidade de influências magnéticas e elétricas. Muitos sustentavam que não se produziria nenhum efeito visível.

Enquanto estas discussões continuavam, o objeto delas avançava progressivamente, dilatando-se de um modo visível e aumentando de esplendor. À sua aproximação toda a humanidade empalideceu. Suspenderam-se todos os trabalhos terrestres.

Houve uma fase assinalada no curso do sentimento geral; foi quando o cometa atingiu finalmente uma grandeza que ultrapassava a de qualquer outra aparição de que houvesse memória. O mundo então, privado da última esperança (de que os astrónomos podiam ter-se enganado), sentiu toda a certeza da desgraça. O terror tinha perdido o seu caráter quimérico: os corações mais valentes da nossa raça palpitavam de medo e poucos dias bastaram para converter essas primeiras provações em receios mais intoleráveis ainda.

Não podíamos já aplicar ao meteoro estrangeiro as noções ordinárias. Os seus atributos históricos haviam desaparecido; o seu aspeto terrível oprimia-nos pela novidade da emoção. Víamo-lo não já como um fenómeno astronómico no céu, mas como um pesadelo que nos esmagava o coração, como uma sombra medonha pairando sobre as nossas cabeças. A sua forma agora era a de um manto gigantesco de chamas vermelhas, sempre estendido sobre a terra em todas as direções.

Passou mais um dia; os homens respiraram melhor. Era evidente que estávamos já sob a influência do cometa e vivíamos ainda! Gozávamos até de uma elasticidade de membros e de uma vivacidade de espírito anormais. A excessiva tenuidade do objeto terrível era manifesta, porque através dele víamos distintamente todos os corpos celestes. Ao mesmo tempo a vegetação prodigiosamente alterada aumentava a nossa fé nas palavras dos sábios, que haviam predito aquela circunstância. Os vegetais ostentavam repentinamente uma superabundância de folhagem desconhecida até então.

Passou-se outro dia. O flagelo não estava absolutamente sobre nós, mas já se conhecia que o núcleo era a primeira parte do cometa que devia tocar-nos. Os homens sofreram então uma alteração nova: a primeira sensação de dor foi o rebate terrível das lamentações e do horror geral. Esse primeiro sentimento de dor consistia numa constrição cruel do peito e dos pulmões, e numa secura de pele insuportável. Não se podia negar que a nossa atmosfera estava radicalmente atacada; a composição da atmosfera e as modificações a que podia estar sujeita foram desde logo os pontos de discussão. O resultado do exame foi um estremecimento elétrico de terror intraduzível através do coração universal do homem.

Sabia-se, desde longo tempo, que o ar que nos envolvia era composto de vinte e uma partes de oxigénio e setenta e nove de azoto. O oxigénio, princípio da combustão e veículo do calor, era absolutamente necessário à manutenção da vida animal e representava o agente mais poderoso e mais enérgico da natureza. O azoto, ao contrário, era impróprio para sustentar a vida ou a combustão animal. Do aumento anormal do oxigénio devia resultar a elevação da vitalidade que nós tínhamos já experimentado. Era a ideia dessa ampliação continuada e levada ao extremo que criava o terror. O que devia resultar da extração total do azoto? Uma combustão irresistível, devoradora, omnipotente, imediata! O cumprimento terrível e exato das profecias flamejantes do Livro Santo.

É necessário relatar-te, Charmion, o desespero frenético que se apoderou então dos homens? A tenuidade da matéria do cometa, que fora primeiro a nossa esperança, era agora o nosso desespero. Na sua natureza impalpável e gasosa, percebíamos claramente a consumação do destino.

Passou-se ainda um dia, mas esse dia levou consigo a última sombra de esperança! A rápida modificação do ar sufocava-nos; o sangue revolvia-se-nos tumultuosamente nas veias. Os homens arrebatados num delírio furioso erguiam os braços inteiriçados para o céu ameaçador, soltando gritos lancinantes.

Contudo, o núcleo exterminador estava agora sobre nós! Mesmo aqui, no céu, não posso falar disso sem tremer! Serei breve, breve como a catástrofe. Durante um momento não se viu mais que uma luz estranha, lúgubre, que nos envolvia por todos os lados. Depois (prostrámo-nos, Charmion, ante a suprema majestade do Deus todo poderoso!), depois ouviu-se um som estrepitoso que ecoou por toda a terra, tremendo, penetrante, como se houvesse saído da própria boca do Criador! E toda a massa de éter que nos cercava flamejou, de repente, numa labareda intensa cuja luz maravilhosa e devorante calor não têm nome, nem mesmo entre os anjos, no céu, onde a ciência é pura!
Assim acabou o mundo.

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