Uma Descida ao Maelstrom – Edgar Allan Poe

By | 25/09/2021

Tínhamos atingido o cume do rochedo mais elevado. O velho, durante alguns minutos, pareceu-me demasiado esgotado para falar.

– Não há ainda muito tempo — disse ele por fim — tê-lo-ia guiado por aqui tão bem como o mais novo dos meus filhos. Mas, há três anos, aconteceu- me a aventura mais extraordinária que jamais suportou um ser mortal, ou pelo menos tão extraordinária que homem algum pôde sobreviver a ela para a contar, e as seis horas desesperantes que passei despedaçaram-me o corpo e a alma. Julgam-me muito velho, mas não o sou. Bastou um quarto de dia para me embranquecer os cabelos negros, ao ponto de tremer depois do mais pequeno esforço e ficar amedrontado por uma sombra. Saiba que mal posso olhar de cima deste pequeno promontório sem sentir vertigens.

O pequeno promontório à beira do qual se deitara tão negligentemente para repousar, de maneira que a parte mais pesada do seu corpo se inclinava e não estava livre de cair senão pelo ponto de apoio que tinha graças ao cotovelo na aresta aguda e escorregadia — o promontório, elevava-se aproximadamente a mil e quinhentos ou mil e seiscentos pés de um caos de rochedos abaixo de nós, imenso precipício de granito luzidio e negro. Por nada do mundo me teria aventurado a seis pés da borda. Na verdade, eu estava tão profundamente agitado pela situação perigosa do meu companheiro que me deixei cair a todo o comprimento no solo, encostando-me a alguns arbustos que estavam perto, não ousando sequer levantar os olhos para o céu. Esforçava-me em vão por me desembaraçar da ideia de que o furor do vento punha em perigo a própria base da montanha. Foi-me preciso tempo para raciocinar e encontrar a coragem de me sentar no meu banco e perscrutar o espaço.

– Não há de que ter medo — disse-me o guia — porque o trouxe aqui para lhe fazer ver à vontade o local do acontecimento de que lhe falava há pouco e lhe contar toda a história com o próprio cenário à sua frente.

“Nós estamos agora — prosseguiu com essa maneira minuciosa que o caracterizava — estamos agora mesmo na costa da Noruega, a 68 graus de latitude, na grande província de Nortland e no lúgubre distrito de Lofoden. A montanha cujo cume ocupamos chama-se Helseggen, a Nebulosa. Agora, levante-se um pouco; agarre-se aos arbustos se sentir vir a vertigem — isso mesmo — e olhe para além desta cintura de vapores que esconde o mar a nossos pés.”

Olhei apressadamente e vi uma vasta extensão de mar cuja cor de tinta me recordou imediatamente o quadro do geógrafo núbio e o seu “Mar Tenebroso” . Era um panorama mais espantosamente desolador do que o que seria dado a uma imaginação humana conceber. A direita e à esquerda, tão longe quanto a vista podia alcançar, alongavam-se, como as muralhas do mundo, as linhas de uma falésia terrivelmente negra e escarpada, cujo caráter sombrio era poderosamente reforçado pela ressaca que subia até à crista branca e lúgubre, uivando e mugindo eternamente. Mesmo em frente do promontório, no cume do qual nós estávamos colocados, a uma distância de seis milhas no mar, avistava-se uma ilha que parecia deserta, ou antes, adivinhava-se no amontoado enorme de escolhos em que estava envolvida. A duas milhas aproximadamente mais perto da terra, erguia-se um ilhéu mais pequeno, horrivelmente pedregoso e estéril, rodeado por grupos descontínuos de rochas negras.

O aspeto do oceano, na extensão compreendida entre a margem e a ilha mais afastada, tinha qualquer coisa de extraordinário. Nesse momento soprava do lado da terra uma brisa tão forte que um brigue, muito ao largo, estava à capa com as velas nos rizes e o seu casco desaparecia algumas vezes por completo. Contudo, nada havia que se assemelhasse a uma onda regular, mas somente, e a despeito do vento, a um marulhar de água, vivo e incómodo em todos os sentidos, e muito pouca espuma, exceto na vizinhança imediata dos rochedos.

– A ilha que vê lá em baixo — continuou o velho homem— é chamada pelos noruegueses Vurrgh. A que está a meio caminho é Moskoe. A que está a uma milha ao norte é Ambaaren. Lá em baixo são: Islesen, Hotholm, Keildhelm e Buckholm. Mais longe — entre Moskoe e Vurrgh — Otherholm, Flimen, Sandflesen e Stockholm. São estes os verdadeiros nomes destes lugares; mas não consigo compreender porque julguei necessário dizê-los a si. Ouve alguma coisa? Vê alguma mudança na água?

Nós estávamos já há cerca de dez minutos no cimo de Helseggen, onde subíramos a partir do interior de Lofoden, de forma que não podíamos avistar o mar, e eis que ele nos aparecera de repente do cume mais elevado. Enquanto o velho falava, tive a perceção de um ruído mais forte, que ia crescendo como o mugido de uma imensa manada de búfalos numa pradaria da América, e nesse mesmo momento vi o que os marinheiros chamam o caráter ondulante do mar tornar-se rapidamente numa corrente que se deslocava para leste. Enquanto eu olhava, esta corrente adquiriu uma prodigiosa rapidez. Aumentava de velocidade de um momento para o outro com uma impetuosidade incrível. Em cinco minutos todo o mar, até Vurrgh, foi fustigado por uma fúria indomável; mas era entre Moskoe e a costa que principalmente a borrasca dominava. Ali, o vasto leito das águas, sulcado por mil correntes contrárias, rebentava repentinamente em convulsões frenéticas, ofegando, borbulhando, assobiando, voltando-se em gigantescos e inumeráveis turbilhões, rodopiando e precipitando-se totalmente para leste, com uma rapidez que não se manifesta nem nas cataratas.

Passados alguns minutos, o panorama sofreu uma outra mudança radical. A superfície geral tornou-se um pouco mais uniforme, e os turbilhões desapareceram um a um, enquanto prodigiosas manchas de espuma apareceram onde eu não vira nenhuma até então. Depois estas manchas alongaram-se até uma grande distância e, combinando-se entre elas, adotaram o movimento giratório dos turbilhões acalmados e pareceram formar o gérmen de um vórtice mais vasto. De repente, muito de repente, este apareceu e tomou uma forma distinta e definida, num círculo de mais de uma milha de diâmetro. O extremo do turbilhão estava marcado por uma cintura de espuma luminosa, mas nem uma parcela deslizava para a garganta do terrível funil, cujo interior, tão longe quanto o olhar podia avistar, tinha uma parte líquida, lisa, brilhante e de um negro de azeviche, formando com o horizonte um ângulo de cerca de 45 graus, rodando sobre si próprio sob a influência de um movimento ensurdecedor e projetando para o ar uma voz medonha, meio grito, meio rugido, tal como nem as cataratas do Niágara nas suas convulsões jamais enviaram para os céus.

A montanha tremia mesmo na base e o rochedo mexia-se. Deitei-me de bruços, e num excesso de agitação nervosa, encostei-me à relva rala.

– Isto — disse-me por fim o velhote — não pode ser outra coisa senão o turbilhão do Maelstrom. Chamam-lhe algumas vezes assim, mas nós, os noruegueses, chamamos-lhe o Moskoe-Strom, por causa da ilha de Moskoe, que está situada a meio caminho.

As descrições vulgares deste turbilhão não me tinham de maneira alguma preparado para o que eu via. A de Jonas Ramus, que é talvez mais pormenorizada do que nenhuma outra, não dá a mais ligeira ideia da magnificência e do horror do quadro — nem a estranha e encantadora sensação de novidade que confunde o espectador. Eu não sei precisamente qual o ponto de vista, nem a que horas o viu o escritor em causa, mas não pôde ser nem do cume de Helseggen, nem durante uma tempestade. Há contudo algumas passagens da sua descrição que podem ser citadas pelos pormenores, se bem que sejam muito insuficientes para dar uma ideia do espetáculo.

“Entre Lofoden e Moskoe — diz ele — a profundidade da água é de trinta e seis a quarenta braças, mas do outro lado, do lado de Ver (quer dizer, Vurrgh), esta profundeza diminui a ponto de um navio não poder procurar aí uma passagem sem correr o perigo de se despedaçar sobre as rochas, o que pode acontecer com o tempo mais calmo. Quando vem a maré, a corrente lança-se no espaço compreendido entre Lofoden e Moskoe com uma tumultuosa rapidez, mas o rugido do seu terrível refluxo é apenas igualado com dificuldade pelas mais altas e terríveis cataratas. Ouve-se o barulho a várias léguas, e os turbilhões ou torrentes cavadas são de uma tal extensão e de uma tal profundidade que se um navio entrar na zona da sua atração é inevitavelmente absorvido e arrastado para o fundo, sendo ali feito em pedaços de encontro aos rochedos. E quando a corrente enfraquece, os destroços são trazidos à superfície. Mas estes intervalos de tranquilidade não surgem senão entre o refluxo e o fluxo, quando o tempo está calmo, e duram apenas um quarto de hora; depois a violência da corrente recomeça gradualmente.

“Quando se agita ao máximo e quando a sua força é aumentada por uma tempestade, é perigoso aproximar-se mesmo a uma milha de distância. Barcaças, iates e navios são arrastados por se não acautelarem antes de se encontrarem ao alcance da sua esfera de atração. Acontece muito frequentemente que as baleias vêm demasiado perto da corrente e são dominadas pela sua violência; e é impossível descrever os seus uivos e rugidos perante a inutilidade dos esforços para se libertarem.

“Uma vez, um urso, ao tentar passar a nado o estreito entre Lofoden e Moskoe, foi arrastado pela corrente e levado para o fundo. Rugia tão horrorosamente que se ouvia na margem. Enormes troncos de pinheiros engolidos pela corrente reapareciam quebrados, despedaçados e a tal ponto que dir-se-ia que lhes tinham arrancado a casca. Isso demonstra claramente que o fundo é constituído por rochas pontiagudas sobre as quais eles rolaram. Esta corrente é regulada pelo fluxo e refluxo do mar, que se observa de seis em seis horas. No ano de 1645, no domingo da Sexagésima, muito cedo, pela manhã, precipitou-se o turbilhão com um tal estrondo e uma tal impetuosidade que pedras foram arrancadas às casas da encosta…”

No que se refere à profundidade da água, não compreendo como puderam avaliá-la na proximidade imediata do turbilhão. As quarenta braças devem referir-se somente nas partes do canal mais próximas da margem, quer de Moskoe, quer de Lofoden. A profundidade no centro do Moskoe-Strom deve ser incomensuravelmente maior, e basta, para adquirir a certeza, dar uma vista de olhos pelo abismo do turbilhão, quando se está no cume mais elevado de Helseggen. Ao relancear o olhar pelo cimo deste pico no Phlégéthon uivante, não pude deixar de sorrir da simplicidade com a qual o bom Jonas Ramus conta, como coisas difíceis de acreditar, as suas anedotas de ursos e de baleias, porque me parecia que era coisa evidente que o maior navio, se chegasse ao alcance desta mortal atração, devia resistir a ele tanto quanto uma pena a um sopro de vento e desaparecer imediatamente como por encanto.

As explicações que se têm dado ao fenómeno — de que recordo algumas que me pareciam suficientemente plausíveis à leitura — tinham agora um aspeto muito diferente e muito pouco satisfatório. A explicação geralmente dada era que, como os três turbilhões das ilhas Feroé, este “não tinha outra coisa senão o choque das vagas, subindo e descendo como o fluxo e o refluxo, ao longo de um banco de rochas que contém as águas e as lança como uma catarata; e que assim, quanto mais a maré sobe, mais profunda é a queda, e que o resultado natural é um turbilhão ou vórtice, cujo prodigioso poder de sucção é suficientemente demonstrado pelos mais pequenos exemplos” . Tais são as palavras da Enciclopédia Britânica. Kircher e outros imaginam que no meio do canal de Maelstrom está um abismo que atravessa o globo e termina em alguma região muito afastada; o golfo de Bótnia foi mesmo designado uma vez, um pouco levianamente. Esta opinião bastante pueril era aquela à qual, enquanto eu contemplava o lugar, a minha imaginação dava da melhor vontade a sua adesão.

E quando a manifestei ao guia, fiquei bastante surpreendido depois de o ouvir dizer que, se bem que fosse a opinião quase geral dos noruegueses a esse respeito, não era todavia a sua. Quanto a esta ideia, confessou que era incapaz de a compreender, e acabei por estar de acordo com ele, porque, por muito convincente que parecesse no papel, tornara-se absolutamente incompreensível e absurda lace ao estrondear do abismo.

– Agora que viu bem o turbilhão — disse o velho — se quer que nos coloquemos por detrás desta rocha, ao abrigo do vento, de maneira que amorteça o barulho da água, vou contar-lhe uma história que o convencerá de que devo saber alguma coisa disso, do Moskoe-Strom!

“Eu e os meus dois irmãos possuíamos outrora um barco aparelhado em goleta, de setenta toneladas mais ou menos, com o qual pescávamos perto de Vurrgh. Todos os violentos remoinhos do mar dão boa pesca, contanto que se apanhe um tempo oportuno e que se tenha a coragem de tentar a aventura. Mas entre todos os da costa, só nós os três íamos com regularidade às ilhas, como lhe disse. Os pescadores vulgares vão em muito maior quantidade para o sul. Pode apanhar-se o peixe a qualquer hora, sem correr grande risco, e, naturalmente, esses sítios são preferidos; mas os pesqueiros, por aqui, entre os rochedos, dão não só o peixe da melhor qualidade, mas também em maior abundância. Tão bem que apanhávamos muitas vezes, num só dia, o que os tímidos no ofício não poderiam alcançar numa semana. Resumindo, nós fazíamos disso uma espécie de negócio desesperado — o risco da vida substituía o trabalho e a coragem ocupava o lugar principal.

“Abrigávamos o nosso barco de pesca numa enseada a cinco milhas da costa acima desta, e era nosso costume, quando estava bom tempo, para aproveitar a trégua de quinze minutos, lançarmo-nos através do canal de Moskoe- Strom, mesmo por cima do buraco, e ir lançar a âncora em qualquer parte na proximidade de Otterholm ou de Sandflesen onde os remoinhos não são tão violentos como noutras partes. Ali esperávamos vulgarmente quase até à hora da acalmia das águas. Nós não nos aventurávamos jamais nesta espécie de expedição sem um vento de popa para a ida e vinda — e raramente nos enganávamos sobre esse ponto. Duas vezes, em seis anos, fomos obrigados a passar a noite à âncora, em consequência de uma acalmia absoluta, o que é um caso bem raro nestas paragens. E, uma outra vez, ficámos em terra perto de uma semana, esfomeados até mais não, devido à ventania que começou a soprar, pouco depois da nossa chegada, e tornou o canal demasiado tempestuoso para pensar em atravessá-lo. Nessa ocasião, teríamos sido arrastados pelo vento a despeito de tudo (porque os turbilhões balançavam-nos para aqui e para acolá, com uma tal violência, que por fim tivemos de largar, ao vermos a âncora partir- se) se não tivéssemos derivado para uma dessas inumeráveis correntes que se formam, aqui hoje e amanhã noutra parte, e que nos conduz para Flimen, aonde, por felicidade, nós pudéssemos fundear.

“Não direi a vigésima parte dos perigos que passámos nas pescarias era uma má paragem, mesmo com bom tempo — mas encontrávamos sempre meio de desafiar o Moskoe-Strom sem acidente. Por vezes, contudo, o coração quase me saltava da boca quando estávamos um minuto adiantados ou atrasados em relação à acalmia. Algumas vezes, o vento não era tão forte como nós esperávamos ao colocar a vela, e então íamos menos depressa do que teríamos querido, enquanto a corrente tornava o barco mais difícil de governar.

“O meu irmão mais velho tinha um filho de dezoito anos, e eu tinha para me ajudar dois grandes rapagões. Ainda que tivessem sido um grande auxílio em semelhantes casos, quer pegando os remos, quer pescando na popa, na verdade, se bem que nós consentíssemos em arriscar a nossa vida, não tínhamos a coragem de deixar os nossos filhos afrontar o perigo, porque, pensando bem, estas expedições eram muitíssimo perigosas. É a pura verdade.

“Há já três anos menos alguns dias que aconteceu o que vou contar. Estávamos a 10 de julho de 18…, um dia que as pessoas desta terra não mais esquecerão — porque foi um dia em que soprou a mais horrível tempestade que jamais caiu da calote dos céus. No entanto, toda a manhã e mesmo muito antes da tarde, tivemos uma agradável brisa que vinha do sudoeste, o sol estava soberbo, tão bom que o mais velho lobo-do-mar não teria podido prever o que ia acontecer.

“Tínhamos passado os três, os meus dois irmãos e eu, através das ilhas, cerca das duas horas da tarde, e logo carregámos o barco de muito bom peixe, que — já tínhamos os três notado — era abundante nesse dia como nunca tínhamos visto. Eram precisamente sete horas no meu relógio quando levantámos a âncora para voltar às nossas casas, de forma a percorrer a parte mais perigosa do Strom no intervalo em que as águas estavam tranquilas, o qual, conforme nós sabíamos, seria às oito horas.

“Partimos com uma boa brisa a estibordo, e durante algum tempo, seguimos muito em círculo, sem pensar sequer no mais pequeno perigo, porque na realidade não víamos o mais pequeno motivo para apreensões.

“De repente, fomos apanhados por um pé de vento que vinha de Helseggen. Fora na verdade espantoso — uma coisa que nunca nos acontecera – e começava a estar um pouco inquieto, sem saber exatamente porquê. Fomos envolvidos pelo vento, e como não pudemos mais cortar os remoinhos estive a ponto de propor o regresso ao ancoradouro, quando, ao olhar para trás, vimos todo o horizonte envolvido numa nuvem estranha, cor de cobre, que subia com uma espantosa velocidade.

“Ao mesmo tempo, a brisa que até há pouco nos empurrava de estibordo amainou, e surpreendidos então por uma acalmia absoluta, vogámos à mercê de todas as correntes. Mas esta situação não durou o tempo suficiente para nos deixar refletir. Em menos de um minuto, a tempestade achava-se por cima de nós — e também um minuto depois, o céu estava por completo carregado, tornando-se de repente tão negro e com um nevoeiro tão cerrado que não nos podíamos já ver uns aos outros.

“Tentar descrever semelhante ventania seria loucura. O mais velho marinheiro da Noruega nunca vira coisa semelhante. Tínhamos amainado as velas antes que o golpe de vento nos surpreendesse, mas, após a primeira rajada, os nossos dois mastros tombaram por cima das bordas como se tivessem sido serrados pela base — o mastro grande arrastou consigo o meu irmão mais novo que, por prudência, se encontrava encostado a ele.

“O nosso barco assemelhava-se muito a um levíssimo brinquedo que tivesse deslizado para o mar. Possuía uma ponte com uma só escotilha à frente e nós tínhamos por costume fechá-la seguramente ao atravessar o Strom, boa precaução num mar como aquele. E nas circunstâncias presentes, teríamos soçobrado logo ao primeiro golpe de mar, porque durante alguns instantes ficámos literalmente metidos na água. Como é que o meu irmão mais velho escapou à morte? Não posso dizê-lo, nunca o poderei explicar. Pela minha parte, logo que deixei o traquete, lancei-me pela ponte, de bruços, com os pés encostados a uma estreita plataforma da vante, e as mãos agarradas a uma argola, perto da base do mastro da mezena. O puro instinto fizera-me agir assim – era indubitavelmente o que tinha de melhor a fazer — porque estava demasiado aturdido para pensar.

“Durante alguns minutos, ficámos por completo inundados, como lhe dizia, e retive a respiração todo esse tempo e agarrei-me à argola.

“Quando senti que não podia ficar assim por muito tempo sem ficar sufocado, ajoelhei-me segurando-me sempre com as mãos. Então, o nosso barquinho, deu uma sacudidela tal como um cão que sai da água e ergueu-se em parte para fora do mar. Esforçava-me então para reagir o melhor possível contra o espanto que me invadira e recobrar suficientemente a serenidade, para ver o que tinha a fazer, quando senti que alguém me agarrava o braço.

“Era o meu irmão mais velho, e o meu coração regozijou-se porque julgava que ele caíra pela borda; mas, um momento depois, toda esta alegria transformou-se em horror quando chegou a boca ao meu ouvido e gritou estas simples palavras: “Moskoe-Strom!”

“Ninguém poderá saber jamais o que foram nesses instantes os meus pensamentos. Tremia da cabeça aos pés, como se tivesse um violento acesso de febre. Compreendia suficientemente o que ele queria dizer, sabia bem o que ele desejava que eu compreendesse! Com o vento que nos empurrava, agora iríamos ter ao turbilhão do Strom e nada nos podia salvar.

“Você compreendeu que ao atravessar o canal de Strom nós seguíamos sempre o nosso caminho, por cima do turbilhão, mesmo no tempo calmo, e mesmo assim tínhamos o cuidado de observar o fluxo da maré. Mas, agora, corríamos direitos para o abismo e com uma tempestade daquelas! “Certamente, pensei eu, chegaremos lá no momento da acalmia, e havia ainda uma pequena esperança.” Via perfeitamente que estávamos condenados, mesmo que estivéssemos a bordo do maior navio de guerra. Nesse momento, o primeiro furor da tempestade passara, ou talvez não a sentíssemos porque fugíamos à frente da tempestade mas em todo o caso, o mar, que o vento tinha primeiro açoutado, agora chão e com escuma, erguia-se em verdadeiras montanhas. Uma modificação singular se realizara também no céu. À nossa volta, em todas as direções, estava negro como breu, mas, quase por cima de nós, havia uma abertura circular — um céu claro, claro como nunca o vira, de um azul brilhante e escuro — e através dessa clareira resplandecia a Lua cheia que iluminava tudo à nossa volta com perfeita nitidez. Deus do Céu! Que cena!

“Por uma ou duas vezes tentei falar ao meu irmão, mas o estrondo, sem que eu soubesse explicar como, aumentara a tal ponto que não consegui que ele ouvisse uma única palavra, se bem que lhe gritasse ao ouvido com toda a força dos meus pulmões. De repente ele sacudiu a cabeça, ficou de uma palidez cadavérica e levantou um dos dedos como para me dizer: “Escuta!”

“Primeiro, não compreendi o que queria dizer, mas em breve um espantoso pensamento me esclareceu. Tirei o meu relógio do bolso. Não trabalhava. Olhei para o mostrador à claridade do luar e chorei amargamente deitando-o para longe, para o mar. Ele parara às sete horas! Tínhamos deixado passar o fluxo da maré e o turbilhão estava em plena fúria.

“Quando um navio é bem construído, devidamente equipado e não muito carregado, as ondas, com o vento forte e quando ele está ao largo, parecem passar sempre por baixo da quilha, o que parece também estranho a quem não seja marinheiro e que se chama em linguagem de bordo cavalgar (riding). Isso ia ajudar, e nós trepámos apressadamente para a onda; mas subitamente um mar alteroso vinha apanhar-nos e atirava-nos para cima, como para nos empurrar para o céu. Nunca teria acreditado que uma onda pudesse subir tão alto. Depois descíamos fazendo uma curva, uma escorregadela, como se caíssemos em sonho de uma alta e imensa montanha. Mas do alto da onda deitara um rápido olhar à minha volta e bastou este olhar. Vi num segundo exatamente a nossa posição. O turbilhão do Moskoe-Strom, que estava a cerca de um quarto de milha à nossa frente, assemelhava-se pouco ao Moskoe-Strom de todos os dias: apresentava um aspeto muito mais imponente. Se não soubéssemos onde estávamos e o que tínhamos a esperar, não teria reconhecido o lugar. Tal como o vi, fechei involuntariamente os olhos, horrorizado: as minhas pálpebras colaram- se num espasmo.

“Dois minutos depois, sentimos de repente a onda acalmar, e fomos envolvidos pela espuma. O barco deu uma volta brusca a bombordo e partiu em nova direção como um raio. No mesmo instante, o rugido da água perdeu-se numa espécie de clamor agudo — um tal som que pode concebê-lo imaginando as válvulas de vários milhares de barcos a largarem ao mesmo tempo o vapor das caldeiras. Estávamos então na cintura encrespada que circula sempre o turbilhão; e acreditava, como é natural, que num segundo íamos mergulhar no abismo, cujo fundo não conseguíamos ver distintamente por causa da prodigiosa velocidade com a qual éramos arrastados para lá.

“O barco não parecia mergulhado na água, mas tocar-lhe levemente, como a bolha de ar que rodopia sobre a superfície da onda. Tínhamos o turbilhão a estibordo, e a bombordo erguia-se o vasto oceano donde tínhamos vindo. Elevava-se como um muro gigantesco, entrepondo-se entre nós e o horizonte. Isto pode parecer estranho; mas quando ficámos mesmo sobre a garganta do abismo, senti mais sangue-frio do que quando nos aproximávamos. Tendo perdido qualquer sombra de esperança fui libertado de uma grande parte deste terror que me tinha primeiro invadido. Suponho que era o desespero que me retesava os nervos. Tomará isto talvez por uma fanfarronice, mas o que lhe disse é a verdade: comecei a pensar que coisa magnífica era morrer de semelhante forma, e quanto eu era tolo por me ocupar do vulgar interesse pela minha salvação individual em face de uma tão prodigiosa manifestação de Deus. Creio que corei de vergonha quando esta ideia surgiu no meu espírito. Instantes depois, apoderou-se de mim uma curiosidade ardente relativa ao próprio turbilhão. Senti positivamente o desejo de explorar as suas profundezas mesmo à custa do sacrifício que ia fazer; o meu principal desgosto era pensar que jamais poderia contar aos meus velhos camaradas os mistérios que ia conhecer. Eram esses, sem dúvida, estranhos pensamentos para ocupar o espírito de um homem em semelhante extremo — e tive muitas vezes a ideia, desde então, de que as evoluções em volta do vórtice tinham-me aturdido a cabeça.

“Houve uma outra circunstância que contribuiu para me tornar mais seguro de mim: a calma do vento que não podia atingir-nos mais na nossa situação atual — porque, como pode julgar por si, o círculo de espuma está consideravelmente abaixo do nível do oceano, e este último dominava-nos agora, como a crista de uma alta e negra montanha. Se nunca se encontrou no mar durante uma grande tempestade não pode fazer uma ideia da perturbação de espírito ocasionada pela ação simultânea do vento e do bater das vagas. Isto cega-o, atordoa-o, estrangula-o e tira-lhe toda a faculdade de ação ou de reflexão. Mas nós estávamos agora aliviados de todos os embaraços — como esses miseráveis condenados à morte a quem se concedem na prisão alguns pequenos favores que se lhes recusaram enquanto a sentença lhes não fora pronunciada.

“Quantas vezes demos a volta a este círculo é-me impossível dizê-lo. Nós corremos em volta, aproximávamo-nos cada vez mais do centro do turbilhão e sempre mais perto, cada vez mais perto do seu espantoso interior.

“Durante todo esse tempo não largara a argola. O meu irmão estava atrás segurando-se a uma pequena barrica vazia, solidamente amarrada sob a torre de vigia, por detrás da bitácula; era o único objeto de bordo que não fora varrido quando o golpe de vento nos surpreendera.

“Quando nos aproximávamos da borda do poço movediço, ele largou o barril e procurava agarrar a argola que, na agonia do terror, se esforçava por arrancar das minhas mãos e que não era bastante larga para nos dar a segurança suficiente aos dois.

“Nunca senti um desgosto tão profundo, como o que tive ao vê-lo tentar semelhante ação, se bem que visse que o terror o tornara num louco furioso.

“Todavia, não tentei disputar-lhe o lugar. Sabia bem que importava muito pouco a quem pertenceria a argola; dei-lha e fui eu para o barril, para a ré. Não fora muito difícil praticar essa manobra; porque o barco agora corria em volta com bastante aprumo e muito direito sobre a quilha, empurrado algumas vezes aqui e acolá pelas imensas ondas e o cachoar do turbilhão. Mal me acomodara na minha nova posição, tivemos uma violenta sacudidela a estibordo e fomos de frente para o abismo. Murmurei uma rápida oração a Deus, e pensei que tudo estava terminado.

“Como eu sofresse o efeito doloroso da náusea da descida, agarrei-me instintivamente ao barril com mais força e fechei os olhos. Durante alguns segundos não ousei abri-los, esperando uma destruição instantânea e admirando- me de não estar nas angústias supremas da imersão. Mas os segundos decorriam; vivia ainda. A sensação da queda cessara, e o movimento do navio assemelhava- se muito ao que era já, quando fôramos levados na cintura de espuma, com a diferença de que o barco estava mais inclinado. Encorajei-me de novo e olhei uma vez mais para o que me rodeava.

“Jamais esquecerei as sensações de medo, de horror e admiração que senti ao olhar à minha volta. O barco parecia suspenso como por magia, a meio caminho da sua queda, na superfície interior de um funil de uma vasta circunferência, de uma profundidade prodigiosa, e cujas paredes admiravelmente polidas poderiam parecer de ébano, se não fosse a surpreendente velocidade com a qual elas piruetavam e a brilhante e horrível claridade que elas repercutiam sob os raios da lua que, desde o buraco circular que já descrevi, deixava cair um rio de ouro e de esplendor ao longo das paredes negras e penetrava até à mais íntima profundeza do abismo.

“Primeiro, eu estava demasiado perturbado para observar fosse o que fosse com alguma exatidão. A explosão geral desta magnificência aterradora era tudo o que se podia ver. Contudo, quando vim um pouco a mim, o meu olhar dirigiu-se instintivamente para o fundo. Nessa direção, podia alongar o olhar sem obstáculo por causa da posição do nosso barco, que estava suspenso sobre a superfície inclinada do abismo; corria sempre sobre a quilha, isto é, a sua ponte formava um plano paralelo ao da água que fazia como um talude inclinado a 45 graus, de forma que parecia sustentarmo-nos sobre um lado. Não podia deixar de reparar, contudo, que não tinha mais dificuldade em me manter com as mãos e pés nesta posição do que se estivéssemos em plano horizontal, e isso acontecia, suponho, devido à velocidade com que nós girávamos.

“Os raios da lua pareciam procurar o fim do fundo do abismo; no entanto, não podia distinguir nitidamente, por causa de um espesso nevoeiro que envolvia tudo e sobre o qual pairava um magnífico arco-íris semelhante a esse ponto estreito e vacilante que os muçulmanos afirmam ser a passagem entre o Tempo e a Eternidade. Este nevoeiro, ou esta espuma, era sem dúvida ocasionado pelo choque das grandes paredes do funil; quanto ao rugido que subia desse nevoeiro para o céu, não tentarei descrevê-lo.

“A nossa primeira escorregadela para o abismo, a partir do círculo de espuma, tinha-nos levado para uma grande distância da vertente; mas posteriormente a nossa descida não se efetuou tão rapidamente, ao aproximarmo-nos. Nós navegámos sempre em círculos, que por vezes nos projetavam para cima centenas de jardas e outras vezes faziam-nos descrever uma volta completa, em torno do turbilhão. A cada volta, aproximávamo-nos do abismo, lentamente, é certo, mas de uma maneira muito sensível. Olhei em redor, sobre o vasto deserto de ébano que nos retinha, e apercebi-me que o nosso barco não era o único objeto que caíra nas garras do turbilhão. Por cima e por baixo de nós viam-se destroços de barcos, grandes pedaços de madeira, troncos de árvores, bem como um bom número de artigos mais pequenos, tais como peças de mobiliário, malas partidas, barris e aduelas. Já descrevi a curiosidade sobrenatural que substituíra os meus primeiros terrores. Parecia-me que ela aumentava à medida que me aproximava do meu espantoso destino. Comecei então a espiar com um estranho interesse os numerosos objetos que flutuavam junto de nós. Era preciso que eu estivesse a delirar, porque encontrava mesmo uma espécie de divertimento a calcular as velocidades relativas na descida para o turbilhão de espuma.

“Este pinheiro, surpreendi-me uma vez a dizer, será a primeira coisa que dará o terrível mergulho e que desaparecerá; e fiquei muito desapontado de ver que um barco da marinha mercante holandesa tomara a dianteira e se afundara primeiro. O decorrer do tempo, depois de ter feito conjeturas desta natureza, e de me ter sempre enganado, este facto — o facto do meu invariável erro — lançou- me numa ordem de reflexões que fizeram de novo tremer os meus membros e bater o meu coração ainda mais apressadamente.

“Não era um novo terror que me afetava assim, mas o nascer de uma esperança bem mais emocionante. Esta esperança surgia em parte da memória, em parte também da observação presente. Recordei a imensa variedade de destroços que juncavam a costa de Lofoden e que todos eram absorvidos e reenviados para o Moskoe-Strom. Estes artigos, na maioria, eram desfeitos da maneira mais extraordinária — despedaçados, esfolados, a ponto de terem o aspeto de estarem cheios de pontas e lascas. Mas recordava-me distintamente então de que havia alguns que não estavam desfigurados por completo. Não podia agora reparar nesta diferença supondo que os fragmentos esfolados fossem os únicos que tivessem sido completamente absorvidos; os outros, ao entrarem no turbilhão num período bastante avançado da maré, ou depois de terem entrado ali, bastante lentamente, para não atingir o fundo antes do fluxo ou do refluxo, conforme os casos. Admiti como possível, nos dois casos, que tivessem subido rodopiando de novo até ao nível do oceano sem sofrer a sorte dos que tinham sido arrastados mais cedo ou absorvidos mais rapidamente. Fiz também três observações importantes: a primeira, que, regra geral, quanto mais pesado é o corpo, mais rápida é a descida; a segunda, que duas massas tendo um comprimento igual, uma esférica e a outra seja qual for a forma, é maior a velocidade de descida para a esférica; a terceira, que tendo duas massas de um volume igual, uma cilíndrica e a outra seja de qual for a forma, a cilíndrica era absorvida mais lentamente.

“Desde o meu salvamento, tive a este respeito algumas conversas com um velho mestre-escola do distrito, e foi ele que me ensinou o emprego das palavras cilindro e esfera. Explicou-me — mas esqueci a explicação — que aquilo que eu observava era a consequência natural da forma dos destroços flutuantes e demonstrou-me como um cilindro girando num turbilhão, apresentava mais resistência à sucção e era atraído com mais dificuldade do que um corpo de outra forma qualquer e de um volume igual.

“Não hesitei por muito tempo sobre o que tinha a fazer. Resolvi agarrar- me com confiança à barrica a que me conservara sempre abraçado, desatar o cabo que a retinha à bitácula, e atirar-me com ela ao mar. Esforcei-me, por sinais, por despertar a atenção do meu irmão sobre os barris flutuantes, ao pé dos quais nós passávamos e fiz tudo o que pude para lhe fazer compreender o que ia tentar. Julguei, passado algum tempo, que ele adivinhara o meu desígnio; mas tivesse-o ou não compreendido, sacudiu a cabeça com desespero e recusou abandonar o lugar junto da argola. Era-me impossível agarrá-lo; a conjuntura não permitia demoras. Assim, com uma amarga angústia, abandonei-o ao seu destino; amarrei-me à barrica com o cabo que a amarrara à torre de vigia e, sem hesitar nem mais um momento, precipitei-me com ela para o mar.

“O resultado foi precisamente a que eu esperava. Como sou eu próprio que lhe conto esta história, como vê, escapei — e como já conhece a maneira que empreguei para me salvar, pode desde já prever tudo o que teria para lhe dizer — abreviarei a minha história e irei direito à conclusão.

“Decorrera cerca de uma hora desde que abandonara o barco quando ele, depois de ter descido a uma grande distância deu, uma após outra, três ou quatro voltas precipitadas e, arrastando o meu bem-amado irmão, mergulhou de proa, rapidamente e para sempre, no caos da espuma.

“O barril ao qual eu estava amarrado vogava já quase até metade da distância que separava o fundo do abismo do sítio de onde me precipitara pela borda, quando ocorreu uma grande mudança no turbilhão. A vertente das paredes do vasto funil tomou-se cada vez menos escarpada. As evoluções do turbilhão tomaram-se gradualmente menos rápidas. Pouco a pouco a espuma e o arco-íris desapareceram, e o fundo do abismo pareceu elevar-se lentamente.

“O céu tornou-se claro, o vento abrandou, e a Lua cheia desapareceu radiosamente a oeste, quando me encontrei à superfície do oceano, mesmo em frente da costa de Lofoden, e por cima do lugar onde antes estava o turbilhão de Moskoe-Strom. Era a hora da acalmia, mas o mar elevava-se ainda em vagas enormes, em consequência da tempestade. Fui levado violentamente para o canal de Strom e lançado em poucos minutos à costa, entre os pescadores. Um barco apanhou-me, esgotado de fadiga, e, embora o perigo tivesse desaparecido, a recordação destes horrores tinham-me tomado mudo. Os que me levaram para bordo eram meus velhos camaradas do mar e companheiros de todos os dias, mas não me reconheceram, como não teriam reconhecido um homem que viesse do mundo dos espíritos. Os meus cabelos, que na véspera eram de um negro de asas de corvo, estavam tão brancos como os vê agora. Disseram-me também que toda a expressão da minha fisionomia estava mudada. Contei-lhes a minha história — não quiseram acreditar. Conto-lha agora a si, mas mal me atrevo a esperar que o senhor acredite mais em mim que os pescadores de Lofoden.”

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