Uma criança sonhou com uma estrela – Charles Dickens

By | 24/09/2021

Houve uma vez um garotinho, e ele passeava muito e pensava numa porção de coisas. Ele tinha uma irmã, também criança, sua constante companhia. Esses dois passavam o dia admirando-se de tudo. Admiravam- se da beleza das flores; admiravam-se da altura e do azul do céu; admiravam-se da profundidade da água cristalina; admiravam-se da bondade e do poder de Deus, que fez este adorável mundo.

Às vezes, perguntavam um ao outro: se todas as crianças da terra morressem, será que as flores, a água e o céu ficariam tristes? Eles acreditavam que sim. Pois, diziam eles, os brotos das plantas são os filhos das flores; os riachinhos brincalhões que dão cambalhotas colinas abaixo são os filhos da água; os pontinhos brilhantes e bem, bem, bem pequenininhos que brincam de esconde-esconde no céu a noite inteira, com certeza são os filhos das estrelas; e todos esses iriam ficar tristes e pesarosos por não verem mais seus amiguinhos de brincadeiras, os filhos das mulheres.

Havia uma estrela clara e brilhante que costumava aparecer no céu antes das outras, perto do pináculo da igreja, acima das sepulturas. Ela era maior, achavam eles, e mais bonita que todas as outras, e todas as noites eles esperavam por ela, de pé, de mãos dadas, junto à janela. Quem a visse primeiro, gritava: “Eu vi a estrela!”. E muitas vezes eles gritavam os dois ao mesmo tempo, já sabendo muito bem quando ela surgiria e onde. Assim, eles passaram a ser tão amigos da estrela que, antes de se deitarem para dormir, sempre olhavam mais uma vez para fora, para dar boa noite à estrela; e, quando se viravam para o outro lado na cama, de praxe diziam: “Que Deus abençoe a estrela!”.

Mas, quando era ainda muito criança – ah, muito, muito criança! –, a irmãzinha descaiu e ficou tão fraca que não podia mais ficar de pé junto à janela à noite; e então o garotinho olhava para fora, muito triste, sozinho e, quando enxergava a estrela, ele se virava e dizia ao rostinho pálido e paciente na cama: “Eu vi a estrela!”, e então um sorriso surgia no rostinho, e uma voz fraquinha e sumida dizia: “Que Deus abençoe o meu irmão e a estrela!”.

E então chegou rápida demais aquela noite, quando o menino olhou para fora sozinho; quando não havia mais o rostinho na cama; quando havia uma sepulturazinha no meio das sepulturas que antes não estava lá; e quando a estrela derramou longos raios sobre o menino enquanto ele a enxergava em meio às lágrimas.

Agora, esses raios eram tão brilhantes e pareciam traçar um caminho tão cintilante desde a terra até o céu que, quando o garotinho foi dormir em sua cama solitária, ele sonhou com a estrela; e sonhou que, de onde ele estava deitado, via um séquito de pessoas subindo aquela estrada cintilante, levadas por anjos. E a estrela, abrindo-se, mostrou a ele um grande mundo de luz, onde muitos outros anjos como aqueles estavam esperando para recebê-las.

Todos aqueles anjos, os que estavam aguardando as pessoas, voltavam seus olhares luminosos para aquela gente que estava sendo carregada para dentro da estrela; e alguns saíam das longas fileiras em que estavam e caíam sobre o pescoço das pessoas e beijavam-nas com ternura e iam embora com elas, andando por avenidas de luz, e estavam tão felizes em sua companhia que, deitado em sua cama, o garotinho chorou de alegria.

Mas muitos daqueles anjos não foram junto com as pessoas, e, entre estes, um que ele conhecia. O rostinho paciente que por algum tempo esteve na cama estava glorificado e radiante, e desse modo o coração do garotinho descobriu sua irmã no meio daquela enorme multidão.

O anjo de sua irmã demorou-se perto da entrada da estrela e perguntou ao líder daqueles que carregavam as pessoas lá para cima: “O meu irmão veio?”. E ele respondeu: “Não”.

Ela já estava se virando, esperançosa, quando o garotinho abriu os braços e gritou: “Mana, eu estou aqui! Pode me levar!”, e ela fixou seu olhar luminoso sobre ele e fez-se noite; e a estrela estava brilhando dentro do quarto, derramando seus longos raios sobre ele, bem como ele havia enxergado em meio às lágrimas.

Daquela hora em diante, o garotinho olhava para a estrela como se estivesse olhando para o lar aonde ele iria quando sua hora chegasse; e pensava que não só a terra era o seu lugar, mas a estrela também, porque o anjo de sua irmã fora para lá antes dele.

Houve o nascimento de um bebê que veio para ser o irmão do garotinho; e quando esse irmão era ainda muito pequeninho, tanto que ainda não havia dito uma palavra sequer, ele estirou o seu corpinho minúsculo na cama e morreu.

De novo, o garotinho sonhou com a estrela que se abria, com a companhia dos anjos, com o séquito de pessoas e com as fileiras de anjos de olhares luminosos voltados para os rostos daquelas pessoas.

Perguntou o anjo de sua irmã ao líder: “O meu irmão veio?”. E ele respondeu: “Aquele não, mas veio um outro”.

Quando o garotinho viu o anjo de seu irmão nos braços de sua irmãzinha, ele gritou: “Mana, eu estou aqui! Pode me levar!”. E ela se virou e sorriu para ele, e a estrela estava brilhando.

Ele cresceu e se tornou um rapaz, e estava ocupado com seus livros quando um velho empregado da casa aproximou-se e disse: “A senhora sua mãe acaba de falecer. Venho trazer a bênção dela para o seu querido filho”. De novo, à noite, ele viu a estrela e todos os seus antigos acompanhantes. Perguntou o anjo da irmãzinha ao líder: “O meu irmão veio?”. E ele respondeu: “A senhora sua mãe!”.

Um poderoso grito de alegria atravessou a estrela de ponta a ponta, pois a mãe reencontrou-se com dois de seus filhos. E ele abriu os braços e gritou: “Mãe, mana e mano, eu estou aqui! Podem me levar!”. E eles responderam: “Ainda não!”, e a estrela estava brilhando.

Ele amadureceu e se tornou um homem, e seu cabelo estava ficando grisalho, e ele estava sentado próximo à lareira, o coração pesado de tanta dor e o rosto úmido de lágrimas, quando a estrela se abriu mais uma vez.

Perguntou o anjo de sua irmã para o líder: “O meu irmão veio?”. E ele respondeu: “Não, foi a filha dele, que ainda nem havia casado!”.

E o homem que fora antes o garotinho viu a filha, recém-falecida, uma criatura celestial no meio daqueles três, e disse: “A cabeça da minha filha está no peito de minha irmã, e o braço de minha filha enlaça o pescoço de minha mãe, e aos pés de minha filha está aquele bebê dos velhos tempos, e eu consigo suportar a perda de minha filha. Deus seja louvado!”. E a estrela estava brilhando.

Assim, o garotinho envelheceu, e o seu rosto, que um dia fora lisinho, estava enrugado, os seus passos agora eram lentos e trôpegos, e suas costas, encurvadas. E uma noite, ao acomodar-se para dormir, seus filhos ao redor da cama, ele gritou, como havia gritado muito tempo atrás: “Eu vi a estrela!”.

Eles sussurraram uns aos outros: “Ele está morrendo”.

E ele disse: “Estou, sim. Minha vida de adulto está caindo de mim como se fosse uma roupa, e eu estou indo em direção à estrela como um garotinho. E, meu Pai do Céu, agora eu vos agradeço por ela se ter aberto tantas vezes para receber dentro de si os meus entes queridos, que estão me aguardando!”.

E a estrela estava brilhando; e ela brilha sobre o seu túmulo.

104 Views