Uma Raça Amaldiçoada – Elizabeth Gaskell

By | 23/09/2021

Temos nossos preconceitos na Inglaterra. Ou, se esta afirmação ofende qualquer um de meus leitores, eu a modificarei: “Temos muitos preconceitos na Inglaterra.”

Temos torturado judeus, queimado católicos e protestantes, para não falar de algumas bruxas e feiticeiros.

Satirizamos os puritanos e vestimos os homens com suas fardas preconceituosas.

Mas, afinal, não creio que fossemos tão maus quanto nossos amigos continentais. Com certeza, nossa posição insular nos manteve livres até certo ponto, das incursões de raças diferentes.

Eles foram expulsos de suas terras e buscaram por outras e tínhamos essa relutância em recebê-los, uma vez que, por longos séculos, sua presença mal era suportada, e a repugnância dos nativos de “sangue puro” para eles, era incalculável.

Ainda há um remanescente do povo miserável chamado Agotes nos vales dos Pirineus, em Landes, perto de Bourdeaux, e, estendendo-se pelo lado oeste da França, seu número se torna maior na Baixa Bretanha.

Porém, a origem destas famílias é uma palavra de vergonha para eles, apesar de que eles estejam protegidos pela lei, que os assegurou na igualdade de direitos no final do século passado.

Antes disso, eles viviam durante centenas de anos, isolados de todos aqueles que se gabavam de sangue puro e eles foram, durante todo esse tempo, oprimidos por cruéis leis locais.

Eles eram verdadeiramente o que eram chamados popularmente de “A Maldita Raça”.

Todos os traços distintos de sua origem, foram perdidos.

Mesmo no final daquele período que chamamos de Idade Média, este era um problema que ninguém podia resolver, mas os seus vestígios, que eram tênues e duvidosos, desapareceram um a um.

O motivo pelo qual eles foram amaldiçoados em primeira instância, e isolados de sua espécie, ninguém sabe.

Havia poucos relatos sobre eles e quem sabia, não queria relatar. Parece que os nomes que eles deram uns aos outros eram ignorados pela população, que falava deles sem mencionar seus nomes, apenas que eram Agotes, da mesma maneira que falamos dos animais pelos seus nomes genéricos, cão, gato e ovelha.

Suas casas ou cabanas eram sempre colocadas a alguma distância dos vilarejos, mais afastadas, perto do campo. Eles eram chamados para os serviços de carpinteiros, ladrilhadores ou fazedores de telhas, porque a população pura acreditava que estes serviços pareciam mais apropriados por esta infeliz raça, também estavam proibidos de ocupar terras, ou de portar armas.

Eles tinham algum direito de pastagem nas terras comuns e nas florestas, contudo, o número de animais era estritamente limitado pelas primeiras leis relacionadas aos Agotes.

Eles eram proibidos, por um ato na lei restrita, de possuir mais de vinte ovelhas, um porco, um carneiro e seis gansos. O porco devia ser engordado e morto para a alimentação de inverno, a lã das ovelhas serviria para vesti-los, mas, se as referidas ovelhas tivessem cordeiros, não se podia comê-los. Seu único privilégio era escolher as ovelhas mais fortes, em vez de manter as ovelhas velhas.

No Dia de São Martinho, as autoridades da comunidade se reuniam, e contavam o estoque de cada Agote.

Se o Agote tivesse mais que seu número nomeado pela lei, os animais eram confiscados, metade ia para a comunidade, a outra, para o chefe da comunidade.

Os pobres animais dos Agotes eram limitados quanto à quantidade de animais comuns que poderiam vaguear em busca de pastagem. Enquanto o rebanho dos habitantes da comunidade caminhava para cá e para lá em busca do pasto vistoso, sombra mais arejada ou água fresca para suportar os dias quentes, as ovelhas e os porcos dos Agotes tinham que aprender limites imaginários, e se desviassem estes limites, qualquer um poderia pegá-los e matá-los, reservando uma parte da melhor carne para seu próprio uso, e entregando graciosamente as partes inferiores, como vísceras, para seu dono original.

Qualquer dano feito pelas ovelhas era, no entanto, bastante avaliado, e o Agote não pagava mais por isso que qualquer outro homem faria.

Alguns Agotes deixaram suas pobres cabanas e se aventuraram nas cidades para prestar os serviços que lhe eram exigidos pelo seu ofício, mas, eles foram convidados, por todas as leis municipais, a ficarem parados e lembrarem de sua raça.

Em todas as cidades, vilarejos e os grandes distritos, que se estendiam por ambos os lados dos Pirineus, em toda aquela parte da Espanha, os Agotes eram proibidos de comprar ou vender qualquer coisa comestível, de andar no meio das ruas, e passar pelos portões da vila antes do nascer do sol ou de ser encontrado após o pôr-do-sol nas muralhas da cidade.

Mas, ainda assim, como os Agotes eram homens bonitos, e, embora tivessem certas marcas naturais de sua casta, das quais falarei mais adiante, não eram facilmente distinguidos por outros homens, por isso, eles eram obrigados a usar alguma peculiaridade característica para serem distinguidos dos demais, e, no maior número de cidades, foi decretado que o sinal externo de um Agote devia ser um pedaço de pano vermelho, costurado na frente de sua veste. Em outras cidades, a marca de Agote era o pé de um pato ou de um ganso, pendurado sobre seu ombro esquerdo, de modo a ser visto por qualquer um que os encontrasse.

Após algum tempo, um emblema conveniente foi adotado, era um pedaço de pano amarelo cortado em forma de pé de pato. Se algum Agote fosse encontrado em qualquer cidade ou vila sem seu crachá, ele teria que pagar uma multa de cinco libras francesas, e perderia a sua veste.

Esperava-se que um Agote ficasse longe de qualquer transeunte, por medo de que suas roupas fossem arrancadas, então, que ficasse parado em algum canto ou em algum lugar, esperando a sua vez de caminhar e trabalhar.

Se os Agotes tinham sede durante os dias que passavam nas cidades, onde sua presença mal era aceita, eles não tinham meios de saciar sua sede, já que estavam proibidos de entrar nas tabernas. Até a água que jorrava da fonte comum era proibida para eles. Longe da vila, havia a fonte Agote, e não lhes era permitido beber de nenhuma outra água, senão essa.

Uma mulher Agote que tivesse que fazer compras na cidade, poderia ser açoitada, se fosse comprar algo nos dias da semana, exceto numa segunda-feira, este era o dia em que todas as outras pessoas, que não precisavam da urgência em ir obter algo necessário, ficavam em suas casas por medo de entrar em contato com a maldita raça.

No País Basco, os preconceitos e por algum tempo, as leis, foram mais violentas contra eles do que qualquer outro lugar que eu mencionara até agora.

O Agote basco não estava autorizado a possuir ovelhas. Ele poderia manter um porco, mas seu porco não tinha direito de pastoreio. Ele podia cortar e carregar capim para o asno, que era o único outro animal que lhe era permitido possuir, e este asno era permitido, porque sua existência era uma vantagem para o opressor da raça pura, que constantemente se valia da habilidade de trabalho braçal de um Agote, e estava contente em ver um Agote trabalhar nos piores serviços e suas ferramentas facilmente transportadas de um lugar para outro pelo asno.

A raça foi repelida pelo Estado.

Sob os pequenos governos locais, eles não podiam ocupar nenhum cargo, e não eram tolerados pela Igreja, embora fossem bons católicos e frequentadores zelosos da missa. Eles só podiam entrar nas igrejas por uma pequena porta separada para eles, pela qual, ninguém da raça pura jamais passou. Esta porta era baixa, de modo a obrigá-los a fazer uma reverência. Ocasionalmente, ela era cercada por esculturas, que invariavelmente representavam um ramo de carvalho com uma pomba, acima dele.

Quando uma vez estavam na igreja, não podiam ir para a água benta usada por outros. Eles tinham uma pia de água benta própria. Não era permitido participar do pão consagrado quando este era entregue aos crentes da raça pura. Os Agotes ficavam à distância, perto da porta. Havia certos limites, linhas imaginárias nos corredores que eles não podiam ultrapassar.

Em uma ou duas das aldeias mais tolerantes dos Pirineus, o pão abençoado era oferecido aos Agotes. O sacerdote ficava de um lado da linha limite, dando os pedaços de pão com um longo garfo, feito de madeira, para cada pessoa, sucessivamente.

Quando um Agote morria, ele era enterrado à parte, em um terreno de sepultamento no lado norte do cemitério.

Sob tais leis e prescrições, como descrevi, não é de se admirar que um Agote fosse geralmente, pobre demais para ter bens para seus filhos herdarem. A única posse, que todos que não eram de sua própria raça se recusavam a tocar, eram seus móveis. Isso era manchado, contagioso, imundo para os puros.

Durante, pelo menos três séculos, os usos e opiniões em relação a esta raça oprimida fora extremamente desumana, e não é de se surpreender que lemos sobre explosões ocasionais de violência ferozes de sua parte.

Na costa dos Pirenéus, por exemplo, faz cerca de cem anos que os Agotes de Rehouilhes se levantaram contra os habitantes da cidade vizinha de Lourdes, e ganham a batalha, por seus poderes mágicos, como diziam.

O povo de Lourdes foi conquistado e assassinado, e suas cabeças horríveis e sangrentas serviram aos triunfantes Agotes como bolas para as crianças brincarem.

Os parlamentos locais começaram nesta época, a perceber o quão opressivo era o modo de proibição dos Agotes, e estavam repensando e inclinados a impor uma punição não muito severa. Assim, o decreto do parlamento de Toulouse condenou apenas os principais Agotes envolvidos nesta batalha, e que, doravante e para sempre, nenhum Agote seria autorizado a entrar na cidade de Lourdes por qualquer portão, a não ser aquele que fosse chamado.

Eles deveriam apenas ser autorizados a caminhar sob as calhas de chuva, e nem sentar, comer ou beber na cidade.

Se não cumprissem essas regras, o parlamento decretou, no espírito de Shylock, que os desobedientes Agotes deveriam ter duas tiras de carne de seu corpo, pesando não mais que duas onças por peça, cortadas de cada lado de costas.

Nos séculos XIV, XV e XVI, não era considerado crime matar um Agote.

Um “ninho de Agotes”, como dizem os antigos relatos, se reunira em um castelo abandonado de Mauvezin, por volta do século XVI, e, certamente, eles eram vizinhos pouco agradáveis, pois, pareciam gozar da reputação de mágicos, e, por alguns segredos que lhes eram conhecidos, todo gemido que era ouvido nas florestas vizinhas, era considerado bruxaria que vinha desses homens do castelo.

Isso acendeu um medo nas pessoas de raça pura, que não podiam cortar um galho seco para lenha, sem ouvir um som estranho preenchendo o ar, nem beber água, acreditando que estava envenenada, porque os Agotes persistiam em encher seus jarros no mesmo riacho que a raça pura.

Somado a estas queixas, os vários furtos perpetuamente ocorridos no bairro, fizeram os habitantes das cidades e vilarejos adjacentes acreditarem ter motivo o suficiente para assassinar todos os Agotes que viviam no castelo de Mauvezin. Mas os Agotes estavam protegidos, porque no castelo era cercado por um fosso, e acessível apenas por uma ponte levadiça, além disso, os Agotes eram ferozes e vigilantes.

Um dos puros, no entanto, aceitou ganhar a confiança dos Agotes que viviam no castelo, e para isso, ele fingiu estar ferido perto do castelo, e ao retornarem para seu reduto, os Agotes o perceberam e o acolheram, o ajudando a restituir a sua saúde e fizeram dele um amigo.

Um dia, quando todos eles estavam distraídos, seu amigo traiçoeiro deixou a festa fingindo ter sede, e abaixou a ponte, e assim, cortando os meios de fuga em segurança dos Agotes.

Ele subiu para a parte mais alta do castelo, soprou uma trombeta, e a raça pura, que estava esperando pelo sinal, invadiu o castelo e matou todos.

Por este assassinato nenhuma punição foi decretada no parlamento de Toulouse, ou em qualquer lugar.

Qualquer casamento com a raça pura era estritamente proibido. Havia livros guardados em todas as comunidades com os nomes e endereços de todas as habitações dos conceituados Agotes. Essas pessoas infelizes não tinham esperança de se misturarem com o resto da população.

Se houvesse um casamento Agote, o casal seria serenado com canções satíricas.

No entanto, eles também tinham trovadores, e muitos de seus romances ainda são atuais na Bretanha, mas eles não tentaram fazer qualquer represália de sátira ou abuso para afrontar os opressores.

A disposição deles era amigável e sua inteligência grande. Essas qualidades, quanto seu grande amor pelo trabalho braçal tornava suas vidas toleráveis.

Finalmente, eles começaram a reivindicar seus direitos para que pudessem receber alguma proteção das leis, e, no final do século XVII, o poder judicial tomou o seu lado. Mas eles ganharam pouco com isso.

A lei não podia prevalecer contra os costumes, e, nos dez ou vinte anos que antecederam a primeira revolução francesa, o preconceito na França contra os Agotes era de uma repulsa feroz e horrenda.

No início do século XVI, os Agotes de Navarra queixaram-se ao Papa, que foram excluídos da comunhão dos homens e amaldiçoados pela Igreja, porque seus antepassados deram ajuda ao certo Conde Raymond de Toulouse, em sua revolta contra a Santa Fé.

Eles pediram a sua santidade para não jogar sobre eles os pecados de seus pais. O Papa enviou, no dia 13 de maio de 1500, quinze pedidos de Agotes para serem bem tratados e admitidos aos mesmos privilégios que outros homens. O Papa encarregou Don Juan de Santa Maria de Pampeluna em zelar pela execução destes pedidos. Todavia, Don Juan foi lento em sua missão, e os pobres Agotes espanhóis ficaram impacientes, e resolveram tentar o poder secular. Assim, eles se apresentaram às Cortes de Navarra.

Primeiro, foi declarado que seus ancestrais não tinham relação com Raymond Conde de Toulouse, ou com qualquer personagem cavalheiresco, e que eles eram de fato, descendentes de Gehazi, servo de Eliseu (segundo livro de Reis, quinto capítulo, vigésimo sétimo verso), que fora amaldiçoado por seu mestre por sua fraude contra Naaman, e condenado, ele e seus descendentes, a serem leprosos para sempre.

O que pode ser mais claro?

Agotes não eram leprosos, por assim dizer?

Se respondermos que existem dois tipos de lepra, uma perceptível e outra imperceptível, até mesmo para a pessoa que sofre com isso?

Além disso, era conversa rotineira, que o local onde um Agote pisasse, a grama murchava, provando o calor antinatural de seu corpo. Muitas testemunhas credíveis e confiáveis também afirmaram que, se um Agote segurasse uma maçã recém-colhida na mão, ela secaria.

Falava-se também que eles nasciam com caudas, embora os pais fossem astutos o suficiente para cortá-las imediatamente.

Você duvida disso? Se não é verdade… Por que as crianças da raça pura se deleitavam em costurar caudas com lãs de ovelhas ao vestido de qualquer Agote que está tão absorvido em seu trabalho ao ponto de não percebê-las?

Seu cheiro corporal era tão horrível e detestável, que mostrava que eles deviam ser hereges de alguma descrição vil e perniciosa.

Estes foram os argumentos pelos quais foram jogados contra os Agotes, em uma posição pior que nunca, no que diz respeito aos seus direitos como cidadãos.

O Papa insistiu que eles receberiam todos os seus privilégios eclesiásticos. Os padres espanhóis nada disseram, mas explicitamente recusaram-se a permitir que os Agotes se misturassem com o resto dos fiéis, mortos ou vivos.

A maldita raça obteve leis ao seu favor pelas mãos do Imperador Carlos V, no entanto, não havia ninguém para levar a efeito tais leis.

Como uma espécie de vingança por sua falta de submissão, e por impertinência em ousar reclamar, suas ferramentas foram retiradas pelas autoridades locais, e sem trabalho, as famílias morreram de fome, porque não era mais permitido pescar.

Eles não podiam emigrar. Nem mesmo para remover suas pobres habitações de lama, de um ponto a outro, porque isso incentivava raiva e desconfiança na raça pura.

O governo espanhol ordenou aos registradores que procurassem todos os Agotes, e os expulsassem antes de dois meses, sob pena de ter cinquenta ducados para pagar por cada Agote que permanecesse na Espanha no vencimento daquele tempo.

Os habitantes das aldeias se levantaram e açoitaram qualquer raça miserável que pudesse estar em seu bairro, mas os franceses estavam de guarda contra essa invasão forçada e se recusaram a permitir que entrassem na França.

Eles foram caçados nos inóspitos Pirineus, e ali morreram de fome, ou se tornaram presas de animais selvagens. Foram obrigados a usar tanto luvas, quanto sapatos quando assim eram postos em fuga, caso contrário, as pedras e as ervas que pisavam, teriam se tornado, segundo a crença popular, venenosas.

E durante todo esse tempo, não havia nada de notável ou nojento na aparência externa desse infeliz povo.

Não havia nada neles que pudesse dar a impressão de serem leprosos, termo mais natural para dar nome a repulsa em que eram mantidos.

Eles foram repetidamente examinados por médicos eruditos, cujas experiências, embora singulares e rudes, pareciam ser feitas em um espírito de humanidade.

Por exemplo, os cirurgiões do rei de Navarra, sangraram vinte e dois Agotes, a fim de examinar e analisar seu sangue. Eles eram pessoas jovens e saudáveis, de ambos os sexos, e os médicos pareciam esperar que pudessem extrair algum novo sal de seu sangue que ser responsável pelo maravilhoso calor de seus corpos. Porém, seu sangue era exatamente como o de outras pessoas.

Alguns médicos nos deixaram uma descrição da aparência geral dessa infeliz raça, em uma época em que eles eram mais numerosos e menos misturados do que são agora.

As famílias existentes no Sul e Oeste da França, que hoje em dia têm fama de serem descendentes de Agotes, são, como seus antepassados, de estatura alta, em grande parte, de postura firme, justa, mas rudes na aparência, com olhos cinzentos e azuis, nos quais alguns observadores veem uma aparência pesada. Seus lábios são grossos, mas bem formados. Alguns dos relatos dão o nome para a sua triste expressão, que tem um semblante de surpresa e desconfiança.

“Eles não são alegres como as outras pessoas!”

O Doutor Guyon, o médico do século passado que deixou o relatório mais claro sobre a saúde dos Agotes, falava da velhice vigorosa que eles atingiam.

Em uma família, ele encontrou um homem de setenta e quatro anos, e uma mulher, colhendo cerejas com a mesma idade do homem, e outra mulher, de oitenta e três anos, que estava deitada na grama, tendo seus cabelos penteados por seus bisnetos.

O Doutor Guyon e outros cirurgiões examinaram o assunto sobre o cheiro horrivelmente infeccioso que os Agotes deixavam para trás, e sobre tudo que tocavam, contudo, eles não podiam perceber nada de anormal neles.

Eles também examinaram suas orelhas, que, de acordo com a crença comum, uma crença existente até hoje, tinham uma forma diferente das de outras pessoas, sendo redondas e ranhosas, sem o lóbulo de carne no qual o anel da orelha está inserido.

Assim, decidiram que a maioria dos Agotes que examinaram tinha as orelhas desta forma redonda realmente, mas acrescentaram, seriamente, que não entendiam a razão para que isto os excluísse da boa vontade dos homens, e do poder de ocupar cargos na Igreja e no Estado.

Eles registraram que as crianças puras das cidades corriam e riam atrás de qualquer Agote que fosse obrigado a ir às ruas para fazer compras, em alusão a esta peculiaridade da forma da orelha, que tinha algumas semelhanças com as orelhas das ovelhas, enquanto eram cortadas pelos pastores deste distrito.

O Doutor Guyon nomeou o caso de uma bela menina Agote, que cantou com muita doçura, e rezou para que lhe fosse permitido cantar cânticos em um piano. O pianista, mais músico que intolerante, permitiu que ela cantasse, no entanto, a congregação de fieis, indignada com a sua atitude, descobrindo de onde procedia aquela voz clara e fresca, correu e perseguiu a menina, dizendo-lhe:

“Lembre-se de suas orelhas imundas!”

A menina não cometeu o sacrilégio de cantar louvores a Deus com a raça pura novamente.

Entretanto, este relatório médico do Doutor Guyon, trazendo fatos e argumentos para confirmar sua opinião de que não havia razão física para que os Agotes não fossem recebidos em igualdade social pelo resto do mundo, foi ignorado, assim como os decretos legais promulgados dois séculos antes.

Os franceses provaram a verdade do ditado em Hudibras.

“Aquele que está convencido contra a sua vontade ainda é da mesma opinião.”

E, de fato, a convicção do Doutor Guyon de que eles deveriam receber os Agotes como criaturas companheiras, só os tornaram mais raivosos ao declarar que não o fariam.

Uma ou duas pequenas ocorrências foram registradas, e mostraram que a amargura da repugnância aos Agotes estava em plena força na época que antecedeu a primeira revolução francesa.

Havia um bispo de Lourdes, irmão do Senhor dono do castelo vizinho, ele era bem-educado para a época, um homem viajado, sensato e moderado em todos os aspectos, exceto por sua aversão aos Agotes. Ele os insultava do próprio altar, clamando-lhes impuros, enquanto estavam de longe:

– Oh! Vós Agotes, malditos para sempre!

Um dia, um Agote meio cego tropeçou e tocou o incensário diante deste bispo de Lourdes. Ele foi imediatamente expulso da igreja, e proibido de voltar a entrar nela.

Não se sabe como explicar como o próprio irmão deste bispo fanático, o Senhor da aldeia, casara com uma garota Agote, mas assim foi, e o bispo providenciou um processo legal contra o irmão, e mandou tirar-lhe suas propriedades, devido ao seu casamento, o que o reduziu à condição de Agote, porque a antiga lei ainda estava em vigor.

Os descendentes deste Senhor de Lourdes são simples camponeses agora, trabalhando nas terras que pertenciam ao seu avô.
Este preconceito contra os casamentos mistos continuou prevalecendo até muito recentemente. A tradição da descendência Agote perdurou entre o povo, muito depois que as leis contra a maldita raça, foram abolidas.

Uma moça bretã, tendo dois pretendentes, cada um de renomada descendência Agote, convocou um escrivão para examinar suas linhagens, e ver qual dos dois tinha menos Agote em seu sangue, e àquele menos Agote, ela deu a sua mão.

Na Bretanha, o preconceito fora mais rancoroso que em qualquer outro lugar.

A Senhora Emile Souvestre registrou provas do ódio que lhes foi transmitida na Bretanha tão recentemente quanto em 1835.

Pouco tempo antes, um padeiro em Hennebon, tendo casado com uma garota de ascendência Agote, perdeu todas as suas posses. Também, se soube que o padrinho e a madrinha de uma criança Agote, se tornaram Agotes pelas leis bretãs. Sabia-se também que isso ocorria, a menos que, de fato, o pobre bebezinho morresse antes de atingir certo número de dias.

Eles tinham que comer a carne que os açougueiros julgavam insalubres, mas, por alguma razão desconhecida, eles eram considerados como tendo direito a cada pão cortado virado de cabeça para baixo, com seu lado cortado em direção à porta, e podiam entrar em qualquer casa em que vissem um pão nesta posição, e levá-lo com eles.

Há cerca de trinta anos, havia o esqueleto de uma mão pendurada como oferenda em uma igreja bretã, perto de Quimperle, e a tradição dizia que era a mão de um rico Agote, que ousara tirar a água benta da pia dos puros de sangue, algum tempo atrás, no início do reinado de Luís XVI.

Testemunhado por um velho soldado na primeira vez que o Agote pegou a água benta, o homem esperou e na próxima vez que o ofensor se aproximou da pia de água benta, cortou sua mão e a pendurou, ainda pingando sangue, como uma oferenda ao santo padroeiro da igreja.

Os pobres Agotes na Bretanha fizeram uma petição contra seu nome, e imploraram para serem distinguidos com a denominação de “Malandros”.

Para os ouvidos ingleses um é muito parecido com o outro, pois, nenhum dos dois transmite qualquer significado, mas, até hoje, os descendentes dos Agotes não gostam de ter este nome aplicado a eles, preferindo o de Malandros.

Os Agotes franceses tentaram destruir todos os registros de sua descendência, nos túmulos de seus ancestrais.
Mas, mesmo que os escritos desaparecessem, a tradição permaneceu, e aponta tal e, tal família como Agote ou Malandro, de acordo com os antigos termos de repulsa.

Há várias maneiras pelas quais os homens cultos tentam explicar a repugnância universal em que esta raça forte e poderosa é mantida.

Alguns dizem que a antipatia começou no aparecimento da lepra, quando era uma doença terrivelmente comum, e que os Agotes eram mais responsáveis que qualquer outro povo por essa doença de pele, não precisamente a lepra, mas que se assemelha a ela em alguns de seus sintomas, como a brancura morta da tez, e inchaços do rosto e das extremidades.

Havia também alguma semelhança com o antigo costume judeu em relação aos leprosos.

A lepra não era propriamente uma queixa infecciosa, apesar do horror em tocar os móveis dos Agote, e seus tecidos, como ainda era mantido esse costume de repulsa em alguns lugares.

A desordem era hereditária, portanto, os médicos se preocuparam em explicar a origem Agótica, usando a razoabilidade e a justiça para impedir quaisquer casamentos mistos, pelos quais a terrível tendência às queixas leprosas poderia ser espalhada por toda parte.

Outra autoridade dizia que, embora os Agotes fossem homens de boa aparência, trabalhadores, ainda assim, carregam em seus rostos, e mostravam em suas ações, razões para serem detestados.

Seu olhar tinha um ar rancoroso, cruel e enganador, acima de todos os outros homens, assim a raça pura afirmava.

Todas as qualidades inversas derivavam de seu ancestral Gehazi, o servo de Eliseu, com sua tendência à lepra.

Novamente, diz-se que eles são descendentes dos godos arianos, que foram autorizados a viver em certos lugares da Guiana e Languedoc, após sua derrota pelo rei Clovis, com a condição de que abjurassem sua heresia e se mantivessem separados de todos os outros homens para sempre. E ssa foi a principal razão alegada em apoio a esta suposição de uma descendência gótica.

Também pensou-se que eles eram sarracenos, vindos da Síria. Em confirmação desta ideia, estava a crença de que todos os Agotes estavam possuídos por um cheiro horrível.

Se afirmou que eles podiam ser lombardos, porque eles também eram uma raça pouco legendária, ou reputada entre os italianos.

A carta do Papa Estêvão para Carlos Magno, dissuadindo-o de se casar com Bertha, filha de Didier, rei da Lombardia foi usada como prova dessa alegação.

Os lombardos gabavam-se da descendência oriental, e eram ruidosos. Os Agotes eram ruidosos, portanto, devem ser de ascendência oriental também.

O que poderia ser mais claro que isso?

Além disso, havia a prova a ser derivada do nome Agote, que aqueles que mantinham a opinião de sua descendência sarracena, porque os sarracenos perseguiam os godos para fora da Espanha. Além disso, os sarracenos eram originalmente mulçumanos, e como tal, obrigados a tomar banho sete vezes ao dia.

Na Bretanha, a ideia comum era que eles eram de ascendência judaica.

O cheiro desagradável deles foi novamente pressionado como uma prova. Os judeus eram bem conhecidos, tinham esta enfermidade física, que podia ser curada banhando-se em uma certa fonte no Egito, que estava muito longe da Bretanha, ou ungindo-se com o sangue de uma criança cristã.

O sangue jorrava do corpo de cada Agote na Sexta-feira Santa. Não é de se admirar, se eles eram de ascendência judaica. Era a única forma de prestar contas de um fato tão portentoso.

Novamente, os Agotes eram carpinteiros primorosos, o que dava aos bretões todas as razões para acreditarem que seus antepassados eram os próprios judeus que fizeram a cruz de Cristo.

Quando houve a primeira maré de emigração da Bretanha para a América, os Agotes oprimidos lotaram os portos, procurando ir para algum país novo, onde sua raça poderia ser desconhecida.

Ali estava outra prova de sua descendência de Abraão e seu povo nômade, e, os quarenta anos de andança no deserto e o próprio judeu errante, foram pressionados para provar que os Agotes derivavam sua inquietação e amor à mudança, de seus ancestrais, os judeus.

Os judeus também praticavam artes-mágicas, e os Agotes vendiam sacos de vento para os marinheiros bretões, e ervas mágicas chamadas de “Boa Fortuna”.

É verdade que, em todos os primeiros atos do século XIV, as mesmas leis se aplicam aos judeus e aos Agotes, e as denominações parecem ser usadas indiscriminadamente, mas, suas justas complexidades, sua notável devoção a todas as cerimônias da Igreja Católica, e muitas outras circunstâncias, conspiram para proibir que eles eram de descendência hebraica realmente.

Outra ideia muito plausível é que eles eram descendentes de indivíduos infelizes loucos, o que até hoje não é uma desordem incomum nos desfiladeiros e vales dos Pirineus.

Embora algumas vezes, se a velha tradição é para creditar, sua doença no cérebro tomou a forma de um delírio violento, um desejo irracional de luta, que os atacava em luas novas e cheias.

Então, os operários Agotes largavam as suas ferramentas, e se apressavam para sair de seu trabalho para derramar tal loucura em lutas corporais. O movimento perpétuo era necessário para aliviar a agonia da fúria que se abateu sobre os Agotes em tais momentos.

Neste desejo de movimento rápido, as brigas entre os Agotes assemelhava-se à tarantela napolitana, enquanto nos atos loucos que realizavam durante tais ataques, eles não eram diferentes do Berserker do Norte.

Especialmente em Bearne, aqueles que sofriam desta loucura eram temidos pela raça pura. Eles, da raça pura, quando saíam para cortar seus troncos de madeira nas grandes florestas que se encontravam ao redor da base dos Pirineus, temiam acima de tudo, chegar muito perto dos períodos em que essa loucura se apoderava do povo oprimido e amaldiçoado, porque era a vez dos opressores voarem sobre os da raça pura.

Um homem vivia na memória de alguns, que se casara com uma mulher Agote. Ele costumava, ao ver os primeiros sintomas da fúria Agote da esposa, trancá-la em um quarto, até que a lua tivesse alterado sua forma no céu. Se ele não tivesse tomado tais medidas, como diziam os habitantes mais velhos, não havia como saber o que poderia acontecer.

Desde o século XIII até o final do século XIX, existiam fatos suficientes para provar o repúdio universal em que esta infeliz raça foi mantida, seja nos distritos dos Pirineus, na Bretanha ou nas Astúrias.

A grande revolução francesa trouxe algum bem para a agitação do povo, os mais inteligentes entre eles tentaram superar o preconceito contra os Agotes.

Em 1780, houve uma famosa causa julgada em Biarritz relacionada aos direitos e privilégios de Agote.

Havia um moleiro rico, Etienne Arnauld da raça Agote como era descrito no documento legal. Ele casou-se com uma herdeira, uma Agote de Biarritz, e o recém-casado casal não viu razão para ficar na porta da igreja, ou não ocupar algum cargo civil na comunidade, da qual ele era o principal habitante.

Assim, ele solicitou à lei que ele e sua esposa pudessem sentar-se perto do altar da igreja como qualquer cidadão, e que ele fosse liberado de suas deficiências civis. Este rico moleiro, Etienne Arnauld, perseguiu seus direitos com algum vigor contra o padre de Labourd, o dignitário do bairro.

Em seguida, os habitantes de Biarritz reuniram-se ao ar livre, no dia 8 de maio, ao número de cento e cinquenta pessoas, e aprovaram a conduta do padre ao rejeitar o pedido de Arnauld. Fizeram uma assinatura e deram todo o poder aos seus advogados para defender a causa da raça pura contra Etienne Arnauld.

“Aquele estranho!” como diziam.

E tendo casado com uma garota de sangue Agote, também deveria ser expulso dos lugares santos.

Este processo foi levado a cabo em todos os tribunais locais, e terminou com um apelo na mais alta corte de Paris, onde uma decisão foi proferida contra superstições bascas, e Etienne Arnauld tinha então, o direito de entrar na igreja.

Naturalmente, os habitantes de Biarritz ficaram furiosos por perderem a causa e, quatro anos depois, um carpinteiro, chamado Miguel Legaret, suspeito de descendência Agote, tendo entrado na igreja com as outras pessoas, foi arrastado pelo padre, com a ajuda de dois ajudantes, para fora da igreja.

Legaret se defendeu com uma faca afiada na época, e depois voltou ao seu juízo. No final, o padre e seus dois cúmplices foram condenados a uma confissão pública de penitência, a ser proferida de joelhos na porta da igreja, logo após a missa.

Eles apelaram ao parlamento de Bourdeaux contra esta decisão, mas não tiveram melhor sucesso que os oponentes do moleiro Arnauld.

Legaret foi confirmado em seu direito de estar na igreja paroquial.

Um Agote vivo tinha direitos iguais aos de outros homens na cidade de Biarritz, mas, um Agote morto era uma coisa diferente.

Os habitantes de sangue puro lutavam longa e duramente para serem sepultados longe da raça abominável.

Os Agotes eram igualmente persistentes em afirmar que apenas queriam um sepultamento comum.

Mais uma vez, os textos do Antigo Testamento foram referidos, e o sangue puro citado triunfantemente o precedente de Azarias, o leproso (vigésimo sexto capítulo do segundo livro de Crônicas), que foi enterrado no campo dos Sepulcros dos Reis, não nos sepulcros propriamente ditos.

Os Agotes alegaram que eles eram saudáveis e capazes, sem nenhuma mancha de lepra perto deles. Eles foram recebidos pelo forte argumento tão difícil de ser refutado, que citei antes.

A lepra era de dois tipos, perceptível e imperceptível. Se os Agotes sofriam deste último tipo, quem poderia dizer se estavam livres dela ou não? Essa decisão seria deixada ao julgamento de outros.

Uma resistente família Agote manteve um processo, reivindicando o privilégio da sepultura comum, por quarenta e dois anos, embora o padre de Biarritz tivesse que pagar cem libras por cada Agote não enterrado no lugar certo.

Os habitantes indenizaram o homem por todas essas multas.

O Senhor de Romagne, Bispo de Tarbes, que morreu em 1768, foi o primeiro a permitir que um Agote ocupasse qualquer cargo na Igreja.

Com certeza, alguns estavam tão sem espírito, que rejeitaram o cargo quando este lhes foi oferecido, porque, ao reivindicarem sua igualdade, tiveram que pagar os mesmos impostos que outros homens. O cobrador também tinha o direito de reivindicar um pedaço de pão, em cada moradia Agote.

Mesmo no século presente, foi necessário em algumas igrejas que o arquiduque do distrito, seguido por todo o seu clero, passasse para fora da pequena porta, anteriormente apropriada aos Agotes, a fim de abrandar a superstição que, mesmo ultimamente, fez com que o povo se recusasse a se misturar com eles na casa de Deus.

Uma vez, um Agote pregou à congregação em Larroque um truque sugerido pelo que acabo de dizer.

Ele trancou a grande porta da igreja, enquanto a maior parte dos habitantes ajudava na missa lá dentro, colocou cascalho na fechadura, para evitar o uso de qualquer chave, e teve o prazer de ver o orgulhoso povo de sangue puro andando com a cabeça dobrada, através da pequena porta baixa usada pelos abomináveis Agotes.

Estamos naturalmente chocados ao descobrir, a partir de fatos como estes, o rancor sem causa com que pessoas inocentes e que foram tão recentemente perseguidas.

A moral da história da “Uma raça Amaldiçoada” talvez seja mais bem transmitida nas palavras de um epitáfio sobre a Senhora Mary Hand, que está enterrada no adro da igreja de Stratford-on-Avon:

“Que falhas viram em mim, rezem para que se afaste. E olhem para suas casas, há algo a ser feito.”

Fim.

68 Views