O julgamento por assassinato – Charles Dickens

By | 23/09/2021

Sempre percebi uma persistente carência de coragem, mesmo entre pessoas de cultura e inteligência superiores, para dar a conhecer suas próprias experiências psicológicas quando estas têm características estranhas. Quase todas as pessoas temem que aquilo que pudessem narrar nesse âmbito não encontraria paralelo ou eco na experiência do ouvinte e poderia levar ao descrédito ou ser objeto de caçoada. Um viajante confiável, que tivesse visto alguma extraordinária criatura parecida com uma serpente marinha, não teria receio de mencioná-la, mas esse mesmo viajante, se tivesse sido tomado por algum pressentimento invulgar, um impulso, um devaneio, uma (assim chamada) visão, sonho ou outra impressão mental marcante, teria hesitado de forma considerável antes de revelá-la. A essa reticência atribuo, em grande parte, a obscuridade que envolve tais assuntos. De hábito, não comunicamos nossas experiências com essas coisas subjetivas como o fazemos com nossas experiências de criação objetiva. A consequência é que o estoque geral de experiências desse tipo parece excepcional, e de fato o é, no sentido de serem miseravelmente imperfeitas.

Neste meu relato não há a mais leve intenção de montar, opor ou apoiar uma teoria, seja ela qual for. Conheço a história do livreiro de Berlim. Estudei o caso da esposa de um falecido astrônomo real, segundo a narrativa de Sir David Brewster, e acompanhei os mínimos detalhes de um ainda mais notável caso de ilusão espectral acontecido no meu círculo de amigos íntimos. É necessário esclarecer que, quanto ao último caso, a atingida (uma senhora) não tinha nenhum parentesco, mesmo que distante, comigo. Uma suposição errônea nessa direção poderia sugerir uma explicação de parte do meu próprio caso – mas apenas de parte –, o que seria totalmente infundado. O meu caso não se pode vincular a nenhuma particularidade minha, herdada, que eu tivesse desenvolvido; também nunca antes tive uma experiência como essa, tampouco remotamente similar a essa; e mesmo depois, nunca mais tive uma experiência como essa e nem remotamente similar a ela.

Não importa se foi há muito tempo ou se foi agora há pouco, um certo assassinato cometido na Inglaterra atraiu grande atenção. Ouve-se falar mais do que o suficiente a respeito de assassinos à medida que cada um deles vai subindo em sua carreira de atrocidades, e eu gostaria de sepultar a lembrança desse bruto em particular, se pudesse, da mesma forma que o seu corpo foi enterrado na prisão de Newgate. De propósito, abstenho-me de fornecer qualquer pista que possa levar à identidade do criminoso.

Quando o assassinato foi descoberto, nenhuma suspeita recaiu – aliás, eu deveria dizer, pois não devo ser muito preciso nos fatos, que publicamente nada sugeria que qualquer suspeita viesse a recair – sobre o
homem que posteriormente foi a julgamento. Como na época nenhuma referência a ele foi feita nos jornais, é obviamente impossível que alguma descrição dele tivesse aparecido nos mesmos. É absolutamente essencial que este fato seja lembrado.

Folheando, no café da manhã, meu jornal matutino, contendo o relato da primeira descoberta, achei aquilo muito interessante e li com atenção redobrada. Li duas vezes, talvez três. O fato ocorrera num quarto de dormir e, quando larguei o jornal, dei-me conta de que tinha se passado em mim um lampejo… uma chispada… uma luz… – eu não sei que nome dar a isso – nenhum termo que conheço consegue descrever isso – e me pareceu que eu enxerguei aquele quarto atravessando o meu, como uma pintura impossível, cuja tela fosse a correnteza de um rio. Embora quase instantâneo ao passar, foi perfeitamente nítido, tão nítido que observei distintamente, e com uma sensação de alívio, a ausência do corpo morto na cama.

Não foi em nenhum lugar romântico que tive essa curiosa sensação, mas em um aposento em Picadilly, bem perto da esquina com a Saint James Street. Foi uma sensação inusitada para mim. Estava em minha poltrona naquele momento, e a sensação foi acompanhada de um estranho estremecimento, que chegou a mover a cadeira. (Mas deve-se mencionar que era uma cadeira com rodinhas.) Fui até uma das janelas (há duas no quarto, e o quarto fica no segundo andar) para descansar meus olhos vendo o movimento de Picadilly. Era uma manhã ensolarada de outono, e a rua estava cintilante e animada. O vento soprava forte. Ao olhar para fora, vi que carregava as folhas caídas das árvores do parque, e uma rajada mais forte fez com que rodopiassem, formando uma coluna de folhas em espiral. Ao se desfazer a coluna e se dispersarem as folhas, vi dois homens na calçada oposta, indo de Oeste para Leste. Andavam um atrás do outro. O da frente olhava frequentemente para trás, por cima do ombro. O segundo o seguia, a uma distância de uns trinta passos, a mão direita erguida de modo ameaçador. Em primeiro lugar, a singularidade e a firmeza desse gesto, em plena via pública, atraíram minha atenção; e, também, uma circunstância incrível: ninguém notava. Ambos abriam caminho entre os pedestres com uma suavidade rara para a ação de andar em calçadas; e nenhuma criatura, que eu pudesse ver, lhes dava passagem, esbarrava neles ou sequer os olhava. Ao passarem por minha janela, ambos me encararam. Vi seus rostos com nitidez e percebi que poderia reconhecê-los em qualquer lugar. Não que eu conscientemente percebesse algo marcante em seus rostos, exceto que o homem à frente parecia abatido e o rosto do homem de trás tinha cor de cera usada.

Eu sou um solteirão, e meu criado de quarto e sua esposa constituem tudo o que tenho de doméstico. Trabalho na filial de um banco e gostaria que meus deveres como chefe de departamento fossem tão leves quanto popularmente supõe-se que sejam. Eles me retiveram na cidade naquele outono, quando eu mais precisava de uma mudança de ares. Não estava doente, mas não estava bem. Meu leitor deve procurar imaginar tanto quanto possível a vida monótona que levo e que me deprime, além de eu estar “levemente dispéptico”. Meu renomado médico assegurou-me que o meu real estado de saúde naquela época não justificava uma descrição mais séria, e estou me baseando em sua resposta escrita, feita a meu pedido.

À medida que as circunstâncias do assassinato eram gradualmente desvendadas e tomavam conta da imaginação do público, eu as mantinha afastadas da minha mente, conservando-me o mais distante possível das notícias, em meio à comoção geral. Mas eu sabia que um indiciamento sob acusação de homicídio premeditado fora pronunciado contra o assassino suspeito, e que ele tinha sido levado à prisão de Newgate para aguardar julgamento. Também soube que mais de uma vez as sessões de seu julgamento tinham sido adiadas na Corte Criminal, com a alegação de que havia pareceres preconceituosos e necessidade de tempo para a preparação da defesa. Talvez eu também soubesse, mas acho que não, quando, ou aproximadamente quando, aconteceriam as sessões que incluíam o julgamento daquele réu.

Minha sala de estar, quarto de dormir e quarto de vestir estão todos num mesmo andar. Com este último só há comunicação através do quarto de dormir. A bem da verdade, há uma porta nele que antigamente se comunicava com a escada. Mas uma parte da instalação de minha banheira – e isso já faz uns bons anos – fez com que essa porta ficasse bloqueada. Naquela época, como parte dessa reforma, a porta foi pregada à portalada e totalmente recoberta com lona.

Eu estava no meu quarto, tarde da noite, dando algumas instruções ao meu criado antes de ele ir para a cama. Meu rosto estava virado para a única porta de comunicação com o quarto de vestir, e ela estava fechada. O criado estava de costas para a porta. Enquanto eu falava, vi a porta se abrir, um homem olhar para dentro do meu quarto e, grave e misteriosamente, acenar para mim. Esse homem era o de trás, daqueles dois em Picadilly, cujo rosto era da cor de cera usada.

A figura, depois de acenar, retrocedeu e fechou a porta. Após um intervalo que não durou mais tempo do que eu precisava para atravessar o quarto, abri a porta do quarto de vestir e olhei para dentro. Eu já estava com uma vela acesa na mão. Não tinha a menor expectativa de ver a figura no quarto de vestir, e realmente não vi nada ali.

Consciente de que meu criado estava estupefato, virei-me para ele e disse: – Derrick, você acreditaria que em meu juízo perfeito imaginei ter visto um… – nesse momento, pousei a mão no seu peito, e ele, com um repentino e violento tremor, disse:

– Ah, Deus, sim, senhor! Um homem morto acenando!

Agora, eu não acredito que John Derrick, meu criado de confiança, dedicado e afeito a mim por mais de vinte anos, tivesse tido a menor impressão de ter visto aquela figura – até eu tocar nele. Sua mudança foi tão incrível quando o toquei que acredito piamente que naquele instante a impressão dele, de alguma maneira oculta, derivou de mim.

Pedi a John Derrick que me trouxesse conhaque, ofereci-lhe um trago e fiquei contente em tomar um eu também. Sobre o que precedera o fenômeno daquela noite, eu não lhe disse uma única palavra. Refletindo a respeito, eu tinha absoluta certeza de nunca ter visto aquele rosto antes, exceto naquela única ocasião em Picadilly. Comparando a expressão dele, de quando acenou da porta, com aquela expressão ao olhar para cima e me encarar, estando eu na minha janela, cheguei à conclusão de que na primeira vez ele tinha procurado fixar a imagem de seu rosto em minha memória – e na segunda, quis se assegurar de que podia ser imediatamente relembrado.

Não fiquei muito à vontade naquela noite, embora tivesse uma certeza, difícil de explicar, de que a figura não retornaria. Com a luz do dia caí num sono profundo, do qual fui despertado pela chegada de John Derrick com um papel na mão.

Esse papel, parece, tinha sido objeto de uma altercação, ainda na porta, entre o portador e meu criado. Era uma notificação para que eu fizesse parte do júri nas próximas sessões da Corte Criminal Central em Old Bailey. Eu nunca tinha sido notificado para compor um júri, coisa que John Derrick sabia muito bem. Ele achava – agora não estou certo se com ou sem razão – que esse tipo de jurado costumava ser escolhido entre pessoas de menor qualificação do que a minha e, num primeiro momento, recusou-se a aceitar a notificação. O homem que a entregou foi muito frio. Disse que meu comparecimento ou ausência nada significavam para ele, e ali estava a notificação; o risco das consequências era meu, e não dele.

Por um dia ou dois fiquei indeciso entre atender ao chamado da Corte ou desconsiderá-lo. Eu não tinha a menor consciência de estar misteriosamente predisposto, influenciado ou levado a fazer uma coisa ou outra. Disso estou tão certo quanto de qualquer outra afirmação que faço aqui. Por fim decidi, para quebrar a monotonia de minha vida, que compareceria.

A manhã marcada foi uma manhã feia de novembro. Havia uma cerração densa e parda em Picadilly que foi ficando cada vez mais escura e opressiva nas proximidades do lado leste da monumental Temple Bar, uma das entradas da cidade de Londres. Os corredores e as escadarias do prédio da Corte Criminal Central brilhavam com a iluminação a gás, assim como todo o prédio. Acho que até ser conduzido pelos meirinhos ao recinto da Velha Corte e vê-la lotada, eu não sabia que o assassino seria julgado naquela data. Acho que até o momento em que me conduziram até ali, com dificuldade, em meio à multidão, eu não sabia para qual das duas cortes fora emitida a minha notificação. Mas isso não deve ser tomado como uma asserção, porque não estou seguro de nada quanto a esses dois pontos.

Tomei o meu assento no lugar reservado aos jurados à espera de serem chamados e olhei em volta, na medida do possível, através da nuvem de cerração abafada que pesava no ar. Notei que um vapor escuro pendia como uma cortina lúgubre do lado de fora das grandes janelas e notei o som abafado das rodas sobre a palha e o tanino dos curtumes jogados na rua; também, o murmúrio do povo ali reunido, trespassado às vezes por um apito estridente ou uma canção ou uma saudação mais alta que as outras. Logo após, os juízes, em número de dois, entraram e tomaram seus lugares. O rumor na Corte imediatamente enfraqueceu. Foi dada a ordem para colocar o assassino no cancelo dos réus. E ali ele surgiu. E no mesmo instante eu o reconheci como sendo o primeiro dos dois homens que eu tinha visto caminhando em Picadilly.

Se meu nome tivesse sido chamado nesse momento, duvido que eu pudesse ter respondido de modo audível. Mas foram chamados cerca de seis ou oito componentes da lista de jurados, e então me senti capaz de dizer:

– Presente!

Agora, observe. Ao entrar em minha ala, o prisioneiro, que antes estivera examinando tudo atentamente, mas sem nenhum sinal de preocupação, ficou extremamente agitado e fez um sinal para o seu advogado. O desejo do prisioneiro, de me desafiar, era tão evidente que ocasionou uma pausa, durante a qual o advogado, com a mão sobre o balaústre, sussurrou algo para seu cliente e fez que não com a cabeça. Mais adiante eu soube, por esse cavalheiro, que as primeiras palavras aterrorizadas dirigidas a ele pelo prisioneiro foram: “A qualquer custo, recuse aquele jurado!”. Mas, por não dar motivo algum para tal e por admitir nunca ter ouvido meu nome antes de eu ser chamado e me apresentar, nisso ele não foi atendido.

Tanto em relação ao que aqui já foi relatado, pela vontade de evitar reviver a lembrança malsã daquele assassino, e também porque um relato detalhado de seu longo julgamento não é indispensável à minha narrativa, vou me restringir aos incidentes dos dez dias e noites durante os quais nós, do júri, fomos mantidos juntos, como ficou registrado em minha curiosa experiência pessoal. É colocando ênfase nesse aspecto, e não no assassino, que procuro despertar o interesse do meu leitor. É para isso, e não para uma página dos Registros de Newgate, que eu peço sua atenção.

Fui escolhido porta-voz do júri. Na segunda manhã do julgamento, depois de as provas terem sido apresentadas durante duas horas (ouvi tocar o relógio da igreja), olhando num dado momento para meus colegas jurados, encontrei uma inexplicável dificuldade em contá-los. Contei-os várias vezes, sempre com a mesma dificuldade. Em resumo, contava sempre um a mais.

Toquei o colega ao meu lado e sussurrei-lhe:

– Faça-me o obséquio de contar quantos somos.

Ele pareceu surpreso com o pedido, mas virou-se e contou.

– Ora – diz ele, subitamente –, nós somos tre… mas não, não é possível. Não. Nós somos doze.

De acordo com a minha contagem naquele dia, estávamos sempre no número certo separadamente, mas no conjunto somávamos sempre um a mais. Não havia nenhuma aparição – nenhuma criatura – que explicasse aquilo, mas eu guardava em meu íntimo um presságio de que essa figura certamente iria aparecer.

O júri ficou hospedado na London Tavern. Dormíamos todos em um grande aposento dos meirinhos, em nichos separados, e estávamos constantemente sob o olhar e a cargo dos meirinhos juramentados para cuidar de nossa segurança. Não vejo razão para omitir o nome verdadeiro daquele meirinho. Ele era inteligente, muito bem-educado, obsequioso e (fiquei contente em saber) muito respeitado na cidade. Tinha uma presença agradável, olhos bondosos, invejáveis suíças pretas e uma bela voz, sonora. Seu nome era Mr. Harker.

Quando nos recolhíamos às nossas doze camas à noite, a de Mr. Harker ficava atravessada na porta. Na noite do segundo dia, não estando disposto a me deitar, e vendo Mr. Harker sentado em sua cama, fui sentar- me a seu lado e lhe ofereci um pitada de rapé. Quando a mão de Mr. Harker tocou a minha, ao pegar a caixinha de rapé, um estranho arrepio sacudiu-o, e ele disse:

– Quem está aí?

Acompanhando o olhar de Mr. Harker, e olhando ao longo do aposento, vi novamente a figura que esperava – o segundo dos dois homens andando em Picadilly. Eu me pus de pé e avancei alguns passos; então parei e me virei para olhar para Mr. Harker. Ele estava despreocupado, rindo, e disse de um modo jovial:

– Pensei por um momento que tínhamos um 13o jurado, sem cama.

Mas vejo que é o luar.

Nada revelando a Mr. Harker, mas convidando-o a andar até o outro lado do aposento, vigiei o que a figura fazia. Parava por alguns momentos ao lado da cama de cada um dos meus onze colegas jurados, sempre próximo ao travesseiro. Ia sempre pelo lado direito da cama e passava sempre pelos pés da cama seguinte. Pelo movimento da cabeça, parecia olhar pensativo para a pessoa em repouso. Não tomou conhecimento de mim, nem de minha cama, que era a mais próxima da de Mr. Harker. Pareceu sumir por onde o luar se insinuava, através de uma janela muito alta, como se ali houvesse uma escada no ar.

No dia seguinte, no café da manhã, parecia que todos os presentes tinham sonhado com o homem assassinado, exceto eu mesmo e Mr. Harker.

Eu agora já me considerava convencido de que o segundo homem andando em Picadilly era o homem (por assim dizer) assassinado, como se esse entendimento houvesse penetrado a minha mente através de um testemunho direto. Mas até isto que se segue ocorreu, e de um modo para o qual eu não estava nem um pouco preparado.

No quinto dia do julgamento, quando a promotoria estava se aproximando de seu discurso de encerramento, um retrato em miniatura do homem assassinado, desaparecido de seu quarto após a descoberta do crime, e posteriormente encontrado num local escondido onde o assassino tinha sido visto cavando, foi apresentado como prova. Identificada o retrato pela testemunha que estava sendo interrogada, foi levada então à mesa dos juízes e depois também para ser inspecionada pelo júri. No momento em que o meirinho, em sua veste preta, tentava entregá-la a mim, a figura do segundo homem andando em Picadilly impetuosamente surgiu dentre os assistentes, tirou do meirinho a miniatura e entregou-a diretamente a mim, com suas próprias mãos, dizendo, num tom baixo e cavo – antes de eu ver o retrato, que estava num medalhão: “Eu era mais jovem na época, e meu rosto não estava exangue”. A figura também acompanhou a prova quando esta passou de mim para o meu colega ao lado, e assim por diante, até retornar para mim. Nenhum deles, no entanto, detectou isso.

À mesa, e geralmente nos momentos em que ficávamos fechados, sob a custódia de Mr. Harker, vínhamos, desde o início, discutindo, naturalmente, os trâmites legais do dia. Naquele quinto dia, tendo a promotoria concluído seu libelo acusatório e estando para nós já delineado esse lado da questão, nossa discussão se tornou mais animada e séria. Entre nós havia um conselheiro paroquial – o idiota mais completo que já vi – que via na mais comum das evidências as mais disparatadas objeções e que estava ladeado por dois paroquianos parasitas e débeis; todos os três listados como jurados de um distrito tão esvaziado pela febre que eles mesmos deveriam estar sendo julgados por quinhentos assassinatos. Quando esses cabeças ocas encrenqueiros estavam no seu máximo, ali pela meia-noite, enquanto alguns de nós já se preparavam para dormir, vi novamente o homem assassinado. Ele ficou parado atrás dos paroquianos, com um jeito sinistro, acenando para mim. Ao me dirigir até eles, interrompendo-lhes a conversa, o morto imediatamente se retirou. Esse foi o início de uma série de aparições, confinadas àquele grande aposento onde nós estávamos confinados. Toda vez que um grupinho de colegas juntava suas cabeças, eu via a cabeça do homem assassinado entre elas. Toda vez que uma comparação nos registros lhe era desfavorável, ele solene e indubitavelmente tratava de me acenar.

Deve-se ter em mente que, até aparecer o retrato, no quinto dia do julgamento, eu nunca tinha visto a aparição na Corte Criminal. Três mudanças ocorreram, agora que entrávamos nas alegações finais da Defesa. Duas delas, mencionarei juntas, em primeiro lugar. A figura agora estava sempre na Corte e nunca se dirigia a mim, mas sempre à pessoa que estivesse falando no momento. Por exemplo: a garganta do homem morto tinha sido cortada de um lado a outro, num único talho. Na abertura da exposição da Defesa, foi sugerido que o falecido poderia ter cortado a própria garganta. Nesse exato momento, a figura, com a garganta na horrível condição referida (isto ela havia ocultado antes), ficou ao lado do orador, movendo de um lado para outro sua traqueia, ora com a mão esquerda, ora com a direita, vigorosamente sugerindo ao orador a impossibilidade de que tal ferimento tivesse sido autoinfligido. Outro exemplo: uma testemunha do caráter do acusado, uma mulher, depôs a favor do mesmo como sendo o homem mais amável do mundo. A figura, nesse instante, postou-se diante dela, encarando-a bem de frente, e, braço estendido e dedo em riste, apontou as feições malvadas do prisioneiro.

A terceira mudança me impressionou fortemente como o mais marcante de tudo. Eu não teorizo sobre isso; afirmo peremptoriamente e deixo assim. Embora a aparição não fosse percebida por aqueles a quem se dirigia, sua aproximação era invariavelmente seguida de algum estremecimento ou perturbação nesses homens. Parecia-me que a ela era impossível, por leis que não alcanço, revelar-se aos outros e, ainda assim, era como se pudesse – visível, calada e sombriamente – anuviar suas mentes. Quando o principal advogado da defesa sugeriu aquela hipótese de suicídio, e a figura ficou ao lado desse letrado cavalheiro, num gesto pavoroso de serrar a garganta, é inegável que o advogado vacilou em sua fala, perdeu por alguns segundos o fio de seu engenhoso discurso, secou a testa com um lenço e ficou extremamente pálido. Quando a testemunha do caráter do réu foi confrontada pela aparição, os olhos da mulher claramente seguiram a direção em que a aparição apontou o dedo e detiveram-se com grande hesitação e dificuldade no rosto do prisioneiro. Dois exemplos adicionais bastarão. No oitavo dia do julgamento, depois da pausa diária do início da tarde para alguns minutos de descanso, voltei ao recinto da Corte com os demais jurados pouco antes do retorno dos juízes. De pé no banco do júri e olhando em volta, achei que a figura não estava ali, até que, erguendo o olhar para a galeria, eu a vi curvando-se para a frente, por sobre uma senhora muito respeitável, como se para se assegurar de que os juízes tinham voltado a seus assentos ou não. Logo depois a mulher gritou, desmaiou e foi levada para fora do recinto. Da mesma forma, com o venerável, sagaz e paciente juiz que conduzia o julgamento. Quando o caso foi encerrado e ele acomodou a si mesmo e aos papéis para analisá-los, o homem assassinado, entrando pela porta dos juízes, foi até a mesa do meritíssimo lorde e olhou ansioso por sobre o ombro dele para as páginas de anotações que ele manuseava. Uma mudança sobreveio à face do meritíssimo lorde, sua mão paralisou, houve o estranho tremor, que eu já conhecia tão bem, perpassando-lhe o corpo, e ele vacilou:

– Desculpem-me cavalheiros, por alguns instantes. Sinto-me um pouco oprimido pelo ar viciado –, e não se recuperou até depois de beber um copo d’água.

Ao longo de toda a monotonia de seis daqueles intermináveis dez dias – os mesmos juízes e os outros em sua bancada, o mesmo assassino no seu cancelo, os mesmos advogados na mesa, os mesmos tons de perguntas e respostas subindo até o teto do prédio da Corte Criminal, o mesmo arranhar da pena do juiz, os mesmos porteiros entrando e saindo, as mesmas luzes acesas à mesma hora quando havia ainda a luz do dia, a mesma cortina de cerração do lado de fora das grandes janelas quando estava nevoento, a mesma chuva batendo e pingando quando estava chuvoso, as mesmas pegadas de carcereiros e prisioneiro sobre a mesma serragem, as mesmas chaves trancando e destrancando as mesmas portas pesadas –, ao longo de toda a monotonia desgastante que me fez sentir como se eu fosse um porta-voz de júri havia milênios e como se Picadilly tivesse florescido paralelamente à Babilônia, o homem assassinado nunca perdeu um traço sequer de tudo que o tornava diferente aos meus olhos e nunca deixou de ser diferente dos demais. Por sinal, devo salientar que em momento algum vi a aparição, que chamo de o homem assassinado, olhar para o assassino. Repetidamente eu me perguntava “por que será que ele não o olha?” Mas ele nunca olhou.

Também não olhou mais para mim desde quando foi apresentada o retrato até os últimos minutos de conclusão do julgamento. Nós nos retiramos para deliberar aos sete minutos antes das dez da noite. O conselheiro paroquial idiota e seus dois paroquianos parasitas nos deram tanto trabalho que tivemos de voltar duas vezes à Corte para solicitar a releitura de algumas anotações do juiz. Nove de nós estávamos cem por cento seguros sobre aquelas passagens do julgamento, bem como, acredito eu, qualquer pessoa daquela Corte Criminal; o triunvirato cabeças de vento, contudo, tendo por finalidade tão somente obstruir, questionava aquelas anotações do juiz justamente por essa razão. Por fim, nós prevalecemos, e finalmente o júri retornou à sala da Corte aos dez minutos depois da meia- noite.

O homem assassinado naquele momento colocou-se no lado exatamente oposto ao reservado do júri, no outro lado da sala da Corte. Quando tomei o meu lugar, ele fixou os olhos em mim com grande atenção; parecia satisfeito e com vagar agitou um enorme véu cinza, que trazia em seu braço pela primeira vez – agitou-o acima da cabeça, acima de toda a sua figura. Quando proferi o veredicto culpado, o véu caiu, tudo desapareceu, e o lugar do homem assassinado estava vazio.

O assassino, ao ser instado pelo juiz, de acordo com a regra, a pronunciar-se caso tivesse algo a dizer antes de receber a sentença de morte, murmurou algo indistinto que foi descrito nos principais jornais do dia seguinte como “algumas palavras desconexas, incoerentes e quase inaudíveis, entendidas como uma queixa de que ele não havia recebido um julgamento justo – porque o porta-voz do júri estava predisposto contra ele. A surpreendente declaração, que de fato ele fez, foi: “Meritíssimo, eu sabia que estava condenado quando o porta-voz entrou no reservado do júri. Meritíssimo, eu sabia que com ele eu não teria escapatória, porque, antes de eu ser preso, ele de algum modo chegou-se ao meu leito, uma noite, me acordou e pôs uma corda no meu pescoço”.

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