O Barão de Grogzwig – Charles Dickens

By | 23/09/2021

O barão Von Koëldwethout, de Grogzwig, na Alemanha, era tão parecido com um jovem barão quanto podia ser. Não preciso dizer que ele morava num castelo, pois isso é óbvio; desnecessário também dizer que num castelo antigo, pois qual barão alemão alguma vez morou num castelo novo? A venerável construção era envolta por muitas circunstâncias estranhas, entre as quais algumas nem um pouco misteriosas ou assustadoras. Por exemplo, quando o vento soprava, ribombava no interior das chaminés, ou mesmo uivar por entre as árvores da floresta vizinha; quando a lua brilhava, era para se infiltrar pelas seteiras da muralha, deixando bem-iluminados alguns trechos dos amplos corredores abertos e terraços, enquanto outros ficavam tristemente imersos nas sombras. Creio que, na falta de dinheiro, um dos ancestrais do barão certa noite cravou uma adaga em um cavalheiro que, em busca de informações quanto a que trajeto tomar, batera-lhe à porta, e supunha-se que, em decorrência disso, aquelas ocorrências miraculosas passaram a se manifestar. Todavia, para mim ainda permanece obscuro como isso pode ser, já que o ancestral do barão, tido como homem afável, terrivelmente compungido por sua impetuosidade, arrebatou de um barão menos importante certa quantidade de pedras e madeira, e com esses materiais erigiu uma capela em sinal de arrependimento por seu ato, ganhando assim um recibo do céu por saldar todas as suas dívidas.

Falar daquele ancestral do barão traz-me à lembrança o rigor com que o barão exigia respeito diante da grandeza de sua estirpe. Temo não poder afirmar com toda a certeza o número de ancestrais do barão, mas sei que esses eram em número bem maior do que os de qualquer contemporâneo seu. Pena ele não viver nos dias de hoje, pois poderia ter feito mais. Como é duro para os grandes homens de idos séculos terem vindo ao mundo tão precocemente! Não se pode querer, nem com um mínimo de plausibilidade, que um homem nascido há trezentos ou quatrocentos anos tenha tantos antepassados quanto um homem que nasce hoje. O último homem, quem quer que seja – tanto quanto sabemos, pode ser um sapateiro, ou um vil e vulgar vagabundo –, terá uma árvore genealógica muito maior do que o maior dentre todos os mais importantes nobres hoje vivos; e quero argumentar que isso não é justo.

Pois bem, retornando ao barão Von Koëldwethout de Grogzwig! Era um sujeito galhardo, de pele morena, cabelos escuros e farto bigode, que saía para caçar usando seu traje de montaria de sarja verde de Lincoln, botas de burel e uma corneta pendurada no ombro, parecendo um cocheiro. Quando soprava a corneta, 24 outros cavalheiros de linhagem inferior, em sarjas verdes de Lincoln um pouco mais grosseiras e botas de burel com solas um pouco mais grossas, surgiam de imediato; a comitiva toda saía a galope, iam juntos, segurando lanças que mais pareciam as barras laqueadas de um gradil, para caçar javalis – ou talvez campear um urso; neste caso, era o barão quem o matava, e mais tarde engraxava os bigodes na gordura do bicho.

Era boa a vida do barão de Grogzwig, e melhor ainda a vida de seus agregados, que bebiam vinho do Reno todas as noites até escorregarem para debaixo da mesa, quando então largavam as garrafas no chão e ali mesmo pediam cachimbos. Nunca houve espadachins tão alegres, prazenteiros, folgazões e fanfarrões como os do jovial grupo de Grogzwig.

Mas os prazeres da mesa, ou melhor, os prazeres de debaixo da mesa pediam um pouco de variedade, especialmente quando as mesmas 25 pessoas sentavam-se diariamente para saborear o mesmo banquete, discutir os mesmos assuntos e contar as mesmas histórias. Pois o barão acabou por se enfadar com tanta mesmice e queria novidade. Ele passou a se atracar com seus cavalheiros e experimentou chutar dois ou três deles todas as noites após a ceia. A princípio, a coisa foi divertida, mas a monotonia voltou a reinar depois de uma semana ou pouco mais, e o barão ficou mal-humorado e passou a procurar aqui e ali, em desespero, por algum novo passatempo.

Certa noite, ao fim de um dia de caça em que conseguira superar Nimrod e Gillingwater e abatera “mais um magnífico urso”, o barão Von Koëldwethout trouxe o animal para casa em triunfo, sentou-se taciturno à cabeceira de sua mesa e ficou a mirar o teto sujo de fuligem de seu salão com desgosto. Entornou enormes copos de vinho, cheios até as bordas, mas, quanto mais bebia, mais franzia o cenho. Os cavalheiros que haviam sido honrados com a perigosa distinção de sentarem-se à direita e à esquerda do anfitrião imitaram-no no prodígio de beber o mesmo tanto, e franziam o cenho um para o outro.

– Vou! – gritou o barão de súbito e acrescentou, com a mão direita dando um tapa na mesa e a esquerda torcendo o bigode: – Erguer um brinde à lady de Grogzwig!

Os 24 sarjas-verdes empalideceram, com exceção dos 24 narizes, estes imutáveis.

– Um brinde à lady de Grogzwig, eu disse – repetiu o barão, olhando ao redor.

– Um brinde à lady de Grogzwig! – gritaram os sarjas verdes; e 24 goelas abaixo foram 24 quartilhos de um vinho alemão tão precioso que fez 48 lábios estalarem, e seus olhos voltaram a piscar.

– A bela filha do barão Von Swillenhausen! – disse Koëldwethout e, condescendente, esclareceu: – Pediremos sua mão em casamento ao pai, antes que o sol se ponha amanhã. Se ele recusar, deceparemos o seu nariz.

Um murmúrio surdo veio de seus confrades, e todos, num gesto pleno de aterradora significação, tocaram, primeiro, o cabo de suas espadas e, depois, as pontas de seus narizes.

Que coisa linda de se ver, a devoção de nossos rebentos! Se a filha do barão Von Swillenhausen tivesse alegado ter outro em seu coração, ou se tivesse caído de joelhos diante do pai, salgando-lhe os pés com suas lágrimas, ou se tivesse apenas caído desfalecida e tivesse dirigido ao velho senhor seu pai os brados mais frenéticos, as chances seriam de uma em cem que o Castelo Swillenhausen voasse pela janela, ou antes, que o barão voasse pela janela e o castelo fosse demolido. Contudo, a donzela observou em silêncio diante do mensageiro que, ainda cedo na manhã seguinte, levou a proposta de Von Koëldwethout e, recatada que era, recolheu-se a seus aposentos, de cuja janela assistiu à chegada do seu pretendente e da comitiva que o acompanhava. Tão logo certificou-se de que o cavalheiro com farto bigode era quem viera pedir-lhe a mão em casamento, a jovem precipitou-se à presença do pai para expressar sua prontidão a sacrificar-se pela tranquilidade de seu pai. O venerável barão abraçou a filha e deixou rolar uma lágrima de alegria.

Naquele dia, o castelo foi palco de grande comemoração. Os 24 sarjas-verdes de Von Koëldwethout trocaram votos de eterna amizade com os 12 sarjas-verdes de Von Swillenhausen e prometeram ao velho barão que beberiam de seu vinho até tudo tingir-se de rosa – o que provavelmente significava que beberiam até seus rostos adquirirem o mesmo tom de seus narizes. Na hora da despedida, todos deram-se tapinhas nas costas, e o barão Von Koëldwethout cavalgou contente de volta para o seu castelo, acompanhado de seus amigos.

Por seis intermináveis semanas, os ursos e javalis tiveram uma trégua. As casas Von Koëldwethout e Von Swillenhausen estavam unidas; as lanças enferrujaram-se, e a corneta do barão enrouqueceu por falta de uso.

Aqueles foram tempos maravilhosos para os 24 sarjas-verdes. Mas, ai que lástima! Seus dias de fartura e deleites estavam contados.

– Meu querido – disse a baronesa.

– Meu amor – disse o barão.

– Esses homens barulhentos e rudes…

– Quem, minha senhora? – disse o barão, num sobressalto.

A baronesa apontou, do alto da janela onde os dois estavam, para o átrio do castelo, onde os sarjas-verdes sorviam distraídos um trago de conhaque em preparação para a caçada de um ou dois javalis.

– Minha comitiva de caçada, senhora – disse o barão.

– Dispense-os, amor – sussurrou a baronesa.

– Dispensá-los? – gritou o barão, perplexo.

– Para me agradar, amor – respondeu a baronesa.

– Para agradar ao Diabo, senhora – retrucou o barão.

Com isso, a baronesa deu um grito e caiu desfalecida aos pés do marido.

O que ele poderia fazer? Chamou a dama de companhia da baronesa e berrou pelo médico; e então, irrompendo no átrio, chutou os dois sarjas- verdes mais acostumados a levar pontapés e, amaldiçoando os outros à volta, mandou-lhes que fossem à… não interessa onde. Não sei como se diz em alemão. Se soubesse, eu diria… delicadamente, é claro.

Não cabe a mim dizer por que meios ou em quantas etapas algumas esposas logram controlar alguns maridos da maneira como o fazem, mesmo que eu tenha lá minha opinião pessoal sobre o assunto e pense que nenhum membro do nosso Parlamento deveria se casar, já que três de cada quatro de nossos políticos casados são forçados a abandonar suas convicções para votar segundo os ditames da consciência de suas esposas (se é que tal coisa existe). Por ora, tudo que preciso dizer é que a baronesa Von Koëldwethout, não importa como, obteve grande controle sobre o barão Von Koëldwethout e, pouco a pouco, de bocado em bocado, dia após dia e ano após ano, o barão passou a ser derrotado nas discussões domésticas e ardilosamente afastado de seus velhos passatempos; e quando por fim tornou-se um sujeito gordo e robusto de 48 anos ou coisa que o valha, já não dava mais suas festas e banquetes, não participava de grandes farras e não tinha uma comitiva de caçada, nem sequer caçava mais. Em resumo, não lhe sobrou nada do que ele gostava, nada do que fazia; e, apesar de continuar feroz como um leão e audaz como uma águia, passara a andar debaixo do cabresto de sua esposa, esnobado e menosprezado em seu próprio Castelo de Grogzwig.

Mas os infortúnios do barão não pararam por aí. Cerca de um ano depois de suas bodas, veio ao mundo um faminto barãozinho, em cuja honra queimaram-se muitos fogos de artifício e esvaziaram-se muitas dúzias de garrafas de vinho, mas no ano seguinte veio uma baronesinha e, no outro, mais um barãozinho, e assim por diante, a cada ano era um barão ou uma baronesa (e teve um ano em que foram dois juntos), até que o barão Von Koëldwethout viu-se pai de uma pequena família de doze filhos. A cada um desses nascimentos, a venerável baronesa Von Swillenhausen era acometida dos nervos, preocupada com o bem-estar de sua filha, a baronesa Von Koëldwethout; e, muito embora a boa senhora não contribuísse em nada para a recuperação de sua filha, ainda assim ela fazia questão de ficar o mais nervosa possível no Castelo de Grogzwig, dividindo seu tempo entre fazer observações moralizadoras sobre como o barão administrava sua propriedade e lamentar os infortúnios de sua pobre filhinha, tão infeliz. E, se o barão de Grogzwig, um pouco magoado e irritado com isso, tomava coragem e arriscava-se a sugerir que sua esposa estava melhor do que as esposas de outros barões, a baronesa Von Swillenhausen pedia a todos que notassem como ela – e apenas ela – condoía-se dos sofrimentos da sua querida filha, diante do que seus parentes e amigos observavam que, de fato, a velha baronesa chorava bem mais do que o genro e que, se havia um bruto de coração empedernido neste mundo, esse era o barão de Grogzwig.

O pobre barão suportou tudo isso o tempo que pôde e, quando não aguentou mais, perdeu o apetite e o ânimo e afundou-se numa poltrona, soturno e abatido. Contudo, problemas mais graves ainda lhe estavam reservados e, à medida que se lhe apresentavam, cresciam sua melancolia e sua tristeza. Os tempos eram outros. Ele se endividara. Os cofres de Grogzwig estavam esvaziados, apesar de um dia terem sido vistos pela família Swillenhausen como inexauríveis; e, bem quando a baronesa estava a ponto de contribuir com um 13o nome para a linhagem dos Von Koëldwethout, o barão descobriu que não havia meios de voltar a encher os cofres.

– Não sei o que fazer – disse o barão. – Acho que vou me matar.

Aquela foi uma ideia brilhante. O barão pegou uma velha faca de caça de um armário próximo e, depois de afiá-la na sola de sua bota, foi para cima do próprio pescoço, como dizem os jovens.

– Hmm – disse o barão, interrompendo-se. – Talvez não esteja afiada o bastante.

O barão afiou a faca de novo e foi para cima outra vez, quando sua mão se paralisou por uma gritaria entre barõezinhos e baronesinhas, que tinham seu quarto de brincar numa das torres mais altas, com grades de ferro nas janelas para impedi-los de caírem no fosso.

– Se eu fosse solteiro – disse o barão, num suspiro –, podia ter dado cabo da minha vida umas cinquenta vezes sem ser interrompido. Ei! Ponham uma garrafa de vinho e o maior dos meus cachimbos na sala pequena, atrás do vestíbulo, aquela com abóbada no teto.

Um dos criados, passada meia hora ou tanto, muito gentilmente executou a ordem do barão. Uma vez informado de que sua ordem fora cumprida, o barão Von Koëldwethout dirigiu-se a passos largos para a dita saleta, de paredes revestidas com um escuro e lustroso lambri que brilhava à luz das achas de lenha que ardiam empilhadas na lareira. A garrafa e o cachimbo estavam prontos, e, em seu todo, o cômodo parecia bastante confortável.

– Deixe a lâmpada – disse o barão.

– Deseja algo mais, senhor? – perguntou o criado.

– A sala para mim – respondeu o barão.

O criado obedeceu, e o barão trancou a porta.

– Vou fumar um último cachimbo – disse – e então me despeço deste mundo.

Com isso, descansou a faca sobre a mesa até o instante em que fosse precisar dela e, engolindo de uma só vez uma generosa dose de vinho, o senhor de Grogzwig afundou-se na sua poltrona, esticou as pernas em frente à lareira e fumou o seu cachimbo.

Seus pensamentos ocuparam-se de muitas coisas: as dificuldades do presente, os idos tempos de solteiro, os sarjas-verdes havia muito dispensados, espalhados pelo país, ninguém sabia onde, com exceção de dois que infelizmente foram decapitados e quatro que se mataram de tanto beber. O pensamento do barão vagava por ursos e javalis quando, no processo de esvaziar o copo, ergueu os olhos e viu, pela primeira vez, e com ilimitada surpresa, que não estava só.

Não, ele não estava só; pois, do outro lado da lareira, sentada de braços cruzados, estava uma criatura hedionda e encarquilhada, olhos injetados e muito encovados, rosto cadavérico meio encoberto por mechas de um cabelo preto, grosso, emaranhado e cheio de pontas irregulares. Ele usava uma espécie de túnica num tom de azul desbotado que, como notou o barão ao observá-lo em detalhe, tinha na frente, de alto a baixo, fazendo as vezes de botões ou atavios, alças de ataúdes. As pernas da criatura também estavam encerradas em placas metálicas de ataúdes, o que lembrava uma armadura; e, sobre o ombro esquerdo, ele usava uma capa curta, escura, que parecia ter sido feita com uma sobra de pano de mortalha. Ele nem olhou para o barão, mas tinha o olhar fixo na lareira.

– Olá – disse o barão, batendo o pé no chão para atrair-lhe a atenção.

– Olá – retrucou o estranho, virando os olhos para o barão sem virar o rosto ou o corpo. – E então?

– E então! – respondeu o barão, nem um pouco intimidado por aquela voz cavernosa e pelos olhos opacos. – Eu é que pergunto. Como foi que você entrou aqui?

– Pela porta – respondeu a criatura.

– O que é você? – perguntou o barão.

– Um homem – respondeu a criatura.

– Não acredito – diz o barão.

– Então não acredite – diz a criatura.

– Pois não acredito mesmo – reiterou o barão.

A criatura fitou o corajoso barão de Grogzwig por um instante e então disse, num tom bem à vontade:

– Estou vendo que não tem como enganá-lo. Não sou um homem.

– Então o que você é? – perguntou o barão.

– Um espírito – respondeu a criatura.

– Você não se parece muito com um espírito – retorquiu o barão com escárnio.

– Eu sou o Espírito do Desespero e do Suicídio – disse a aparição. – Agora você já sabe quem eu sou.

Com essas palavras, a aparição voltou-se para o barão, como se ele estivesse se compondo para uma conversa – e o mais notável de tudo foi que ele jogou para um lado a capa e, revelando uma lança que lhe atravessava o centro do corpo, arrancou-a de um puxão e depositou-a sobre a mesa com toda a tranquilidade, como se aquilo fosse uma bengala.

– E agora – disse a criatura, olhando para a faca de caça –, você está pronto para mim?

– Ainda não – respondeu o barão. – Primeiro eu preciso terminar de fumar o meu cachimbo.

– Apresse-se, então – disse a criatura.

– Você parece impaciente – disse o barão.

– Sim, estou com pressa – respondeu a criatura. – Os negócios vão muito bem para mim na Inglaterra e na França no momento, e ando muito ocupado.

– Você bebe? – perguntou o barão, batendo na garrafa com o fornilho do cachimbo.

– Em nove de cada dez vezes; e, quando bebo, bebo bastante – respondeu a criatura, ríspida.

– Nunca com moderação?

– Nunca – disse a criatura, com um tremor. – Beber faz a alegria.

O barão deu mais uma olhada em seu novo amigo, achando-o um vizinho extraordinariamente esquisito, e, por fim, perguntou-lhe se tomava parte ativamente naqueles pequenos procedimentos como o que ele mesmo tinha em mente.

– Não – respondeu a criatura de modo evasivo. – Mas me faço sempre presente.

– Só para garantir que tudo corra bem, suponho eu – disse o barão.

– Exatamente – retrucou a criatura, brincando com a sua lança, examinando-lhe a virola. – Seja o mais rápido possível, por favor, pois há um jovem cavalheiro que tem dinheiro e diversão em excesso e isso o aflige, e ele precisa de mim, pelo que me consta.

– Vai se matar porque tem dinheiro demais! – exclamou o barão, bastante incomodado. – Rá, rá, rá, essa é boa! (Aquela era a primeira vez que o barão ria em muito, muito tempo.)

– Eu lhe peço – disse a criatura, parecendo estar muito assustada –, não faça mais isso.

– Por quê? – quis saber o barão.

– Porque me faz doer todinho – respondeu a criatura. – Suspire o quanto quiser; isso me faz bem.

O barão suspirou à menção da palavra; a criatura, reanimando-se, alcançou-lhe a faca de caça com a mais cativante cortesia.

– Não é má ideia – disse o barão, sentindo o fio da arma –, um homem se matar porque tem dinheiro demais.

– Pfui! – disse a aparição de modo petulante. – Não é nem melhor nem pior do que um homem se matar porque tem dinheiro faltando.

Se o espírito sem querer comprometeu-se ao dizer isso, ou se ele pensou que o barão estava tão decidido que não importava o que ele dissesse, isso eu não tenho como saber. Só sei que o barão deteve sua mão de repente, arregalou os olhos, e parecia que uma nova luz fazia-se sobre ele pela primeira vez.

– Ora – disse Von Koëldwethout –, com certeza nada é tão ruim que não possa ser remediado.

– Exceto cofres vazios – gritou o espírito.

– Bem… mas um dia podem estar cheios de novo – disse o barão.

– Esposas ranzinzas – rosnou o espírito.

– Ah, pode-se fazê-las calarem-se – disse o barão.

– Treze filhos – berrou o espírito.

– Impossível serem todos uns imprestáveis – disse o barão.

Era evidente que o espírito estava ficando cada vez mais furioso com o barão por argumentar tudo assim de uma só vez, mas ele tentou rir da situação e disse ao barão que ficaria grato se o avisasse quando tivesse terminado de fazer piadas.

– Mas eu não estou fazendo piadas; nunca falei tão sério – protestou o barão.

– Bem, fico feliz de ouvir isso – disse o espírito, muito sinistro –, porque as piadas me matam, e isso não é piada. Vamos lá! Despeça-se de uma vez deste mundo cruel.

– Não sei – disse o barão, brincando com a faca. – É um mundo cruel, com certeza, mas acho que o seu não é muito melhor, pois você não tem uma aparência de quem esteja lá muito à vontade. Isso me faz pensar… que garantias tenho eu, afinal, de que vou ficar melhor deixando este mundo? – gritou ele e, num sobressalto: – Eu não tinha pensado nisso.

– Mate-se! – gritou a criatura, rilhando os dentes.

– Afaste-se! – disse o barão. – Não vou mais me lamentar, vou encarar com otimismo os meus pesares, vou experimentar o ar puro e os ursos de novo e, se isso não der certo, vou ter uma conversa séria com a baronesa e vou passar a ignorar os Von Swillenhausen.

Com isso, o barão deixou-se cair em sua poltrona e riu uma risada tão alta e tão violenta que a sala reverberou.

A criatura recuou um passo ou dois, ao mesmo tempo fitando o barão com intenso terror, e, quando este parou de rir, pegou sua lança, cravou-a com violência no corpo, soltou um uivo horripilante e desapareceu. Von Koëldwethout nunca mais o viu. Decidido a reagir, tratou de chamar à razão a baronesa e os Von Swillenhausen. Morreu muitos anos depois não um homem rico, que eu saiba, mas com certeza um homem feliz, deixando uma família numerosa, por ele mesmo treinada com rigor e dedicação na caça aos ursos e aos javalis. O conselho que dou a todos os homens é que, se um dia ficarem deprimidos e sorumbáticos por motivos semelhantes (como ocorre a muitos), que examinem os dois lados da questão, usando uma lupa no melhor lado; se, ainda assim, sentirem-se tentados a retirar-se sem licença, que antes fumem um cachimbo bem grande, bebam uma garrafa inteira e mirem-se no louvável exemplo do barão de Grogzwig.

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