A Ilha da Fada – Conto de Edgar Allan Poe

By | 20/09/2021

A música — diz Marmontel nesses Contos Morais que os nossos tradutores persistem em chamar Moral Tales, como que a zombar do seu espírito — é o único dom que provoca prazer por si só; todos os outros exigem testemunhas. Ele confunde aqui o prazer de ouvir sons agradáveis com a faculdade de os criar. Do mesmo modo que qualquer outro dom, a música não é capaz de dar um gozo completo se não houver uma segunda pessoa para apreciar a sua execução. E a faculdade de produzir efeitos que se gozem plenamente na solidão não lhe é particular; ela é comum a todos os outros dons. A ideia, que o contista não conseguiu conceber claramente, ou que, na sua expressão, sacrificou ao amor nacional do conceito é, sem dúvida, a ideia muito defensável de que a música do mais elevado estilo é a mais sentida quando estamos absolutamente sós. A proposição, sob esta forma, será admitida à primeira vista por aqueles que amam a lira por amor da lira e pelas suas vantagens espirituais.

Mas há um prazer que está sempre ao alcance da humanidade decaída — e é talvez o único —, que deve ainda mais que a música à sensação acessória do isolamento. Refiro-me à felicidade que se experimenta na contemplação de um quadro da natureza.

Na verdade, o homem que pretende contemplar de frente a glória de Deus na Terra deve contemplar essa glória na solidão. Para mim, pelo menos, a presença, não apenas da vida humana, mas da vida sob qualquer outra forma como a da dos seres verdejantes que crescem no solo e não têm voz, é um opróbrio para a paisagem; ela está em guerra com o génio do cenário. Sim, na verdade, eu gosto de contemplar os vales sombrios, as rochas pardacentas, as águas que sorriem silenciosamente, as florestas que suspiram em sono ansioso, e as montanhas orgulhosas e vigilantes que olham tudo do alto. Gosto de contemplar essas coisas pelo que elas são: membros gigantescos de um imenso todo, animado e sensível — um todo cujo forma (a da esfera) é a mais perfeita e a mais compreensível de todas as formas; cuja rota se faz na companhia de outros planetas; cuja serva dócil é a Lua; cujo senhor mediatizado é o Sol; cuja vida é a eternidade; cujo pensamento é o de um Deus, a fruição do qual é conhecimento; cujos destinos se perdem na imensidade; para quem nós somos uma noção correspondente à noção que temos dos animálculos que infestam o cérebro —, um ser que nós olhamos, consequentemente, como inanimado e puramente material — apreciação muito semelhante à que esses animálculos devem fazer de nós.

Os nossos telescópios e as nossas investigações matemáticas confirmam- nos totalmente — não obstante a hipocrisia da padralhada mais ignorante — que o espaço, e, por consequência, o volume, é uma consideração importante aos olhos do Omnipotente. Os círculos em que se movem as estrelas são os mais apropriados à evolução, sem conflito, do maior número de corpo» possível. As formas desses corpos são exatamente escolhidas para conterem, sob uma dada superfície, a maior quantidade possível de matéria; e as próprias superfícies estão dispostas de forma a receberem uma população mais numerosa da que poderiam conter se essas mesmas superfícies estivessem dispostas de outro modo. E do facto de o espaço ser infinito nenhum argumento se pode tirar contra esta ideia: que o volume tem um valor aos olhos de Deus, pois para preencher esse espaço pode haver um infinito de matéria. E como vemos claramente que dotar a matéria de vitalidade é um princípio — e mesmo, até onde nos é dado julgar, o princípio capital nas operações da Divindade —, será lógico supô-lo confinado na ordem da pequenez, onde ele se nos revela diariamente, e excluí-lo das regiões do grandioso? Como nós descobrimos círculos nos círculos, sempre e sem fim — todos, porém, evoluindo à volta de um centro infinitamente distante, que é a Divindade —, não poderemos supor, analogicamente e da mesma maneira, a vida na vida, a menor na maior, e todas; no Espírito divino? Em suma: nós erramos nesciamente por fatuidade, imaginando que o homem, nos seus destinos temporais ou futuros, é, perante o Universo, muito mais importante que o vasto lodo do vale que ele cultiva e que despreza, e a que recusa uma alma pela pouco profunda razão de que não a vê atuar.

Estas ideias e outras análogas deram sempre às minhas meditações, no meio das montanhas e das florestas, junto dos rios e do oceano, uma cambiante que as pessoas vulgares não deixarão de apodar de fantástica. Os meus passeios errantes no meio de quadros deste género têm sido numerosos, singularmente curiosos, muitas vezes solitários; e o interesse com que eu vagueei por mais de um vale profundo e sombrio, ou contemplei o céu de muitos lagos límpidos, era grandemente aumentado pela ideia de que vagueava só, de que contemplava sozinho. Um francês tagarela, aludindo à bem conhecida obra de Zimmermann, disse: A solidão é uma bela coisa, mas é necessário alguém para nos dizer que a solidão é uma bela coisa. Como epigrama, é perfeito. Mas esse «é necessário»… Tal necessidade é coisa que não existe.

Foi numa das minhas viagens solitárias, numa região longínqua — montanhas complicadas por montanhas, meandros de rios melancólicos, lagos sombrios adormecidos —, que se me deparou certo regatozito onde havia uma ilha. Cheguei ali subitamente num mês de junho, o mês da folhagem, e deitei-me no chão, sob os ramos de um arbusto odorífero que me era desconhecido, no intuito de repousar e, ao mesmo tempo, contemplar o quadro. Reconheci que só daquela maneira o poderia ver bem, tal era o seu ângulo de visão.

De todos os lados, exceto a oeste, onde o sol mergulharia dentro em pouco, se erguiam as muralhas verdejantes da floresta. O riozinho, que fazia um cotovelo brusco, e assim se furtava subitamente à vista, parecia não conseguir escapar da sua prisão; dir-se-ia, porém, que ele era absorvido para leste pela densa verdura das árvores, e do lado oposto (assim me parecia, deitado e com o olhar voltado para o céu) caía no vale, sem transição e sem ruído, uma cascata maravilhosa de ouro e púrpura, provinda das fontes ocidentais do céu.

Pouco mais ou menos ao centro da estreita perspetiva que o meu olhar visionário abrangia repousava no meio do solitário regato uma pequena ilha circular, magnificamente recoberta de tons verdejantes.

A margem e a sua imagem de tal modo se fundiam Que o todo parecia suspenso no ar.

A água transparente assemelhava-se tanto a um espelho que era quase impossível adivinhar em que ponto do talude de esmeralda começava o seu domínio de cristal.

A posição em que me encontrava permitia que eu abrangesse com um só olhar as duas extremidades, leste e este, da ilhota; e nos seus aspetos observei uma diferença singularmente nítida.

A ocidente era tudo um radioso harém de belezas de jardim. Abrasado e avermelhado pelo olhar oblíquo do sol, sorria extaticamente em todas as flores. A relva era curta, elástica, odorífera e entremeada de belas cores. As árvores eram flexíveis, alegres, eretas, esbeltas e graciosas, orientais pela forma e pela folhagem, de casca polida, luzidia e versicolor. Dir-se-ia que circulava por toda a parte um sentimento profundo de vida e de alegria; e, embora do céu não soprasse a menor brisa, tudo, porém, parecia agitado por bandos de borboletas que se poderiam tomar, nas suas fugas graciosas em ziguezague, por túlipas aladas.

O outro lado, o lado leste da ilha, estava submerso na mais negra sombra. Pairava sobre todas as coisas uma tristeza fúnebre, mas cheia de calma e beleza. As árvores tinham uma cor escura, as suas formas e as suas atitudes eram lúgubres; torciam-se como espectros tristes e solenes, evocando ideias de irremediável desgosto e morte prematura. A relva revestia-se da cor carregada do cipreste, e das suas hastes pendiam languidamente as pontas. Erguiam-se, dispersos, vários montículos disformes, baixos, estreitos, não muito compridos, com o aspeto de túmulos, mas que o não eram, embora acima deles e à sua volta medrassem a arruda e o alecrim. A sombra das árvores tombava pesadamente na água e parecia ali sepultar-se, impregnando de trevas as profundezas do elemento. Persuadia-me de que cada sombra, à medida que o Sol descia, se separava contrariada do tronco que lhe dera origem e era absorvida pelo regato, enquanto outras sombras nasciam a cada instante das árvores, tomando o lugar que pertencera às suas defuntas irmãs mais velhas.

Esta ideia, desde que se me apoderou da imaginação, excitou-a fortemente e perdi-me logo em devaneios.

“Se houve jamais ilha encantada — dizia eu para comigo —, é esta, com toda a certeza. É o ponto de encontro de algumas graciosas Fadas que sobreviveram à destruição da sua raça. E estes verdes túmulos serão os delas? Findarão elas a sua doce vida da mesma maneira que a humanidade? Ou não será, pelo contrário, a sua morte uma espécie de melancólico definhar? Entregarão elas a sua existência a Deus, pouco a pouco, exaurindo lentamente a sua substância até à morte, do mesmo modo que as árvores entregam as suas sombras uma após outra? Aquilo que a árvore que se exaure é para a água que lhe absorve a sombra, tornando-se mais negra com a presa que devora, não poderia a vida da Fada ser o mesmo para a Morte que a devora?”

Enquanto assim devaneava, com os olhos semicerrados, e o Sol descia rapidamente para o seu leito, e turbilhões giravam a toda a volta da ilha, levando no seu seio grandes e luminosas escamas brancas, soltas dos troncos dos sicómoros — escamas que uma imaginação viva poderia, graças às suas variadas posições na água, converter naquilo que mais lhe agradasse —, enquanto eu assim devaneava, pareceu-me ver o vulto de uma dessas Fadas com que tinha sonhado destacar-se da parte luminosa e ocidental da ilha e avançar lentamente para as trevas. Mantinha-se ereta sobre uma canoa singularmente frágil, que ela movia com um remo fantástico. Enquanto esteve sob a influência dos últimos e belos raios do Sol, a sua atitude parecia revelar alegria, mas, assim que passou à região das sombras, a tristeza alterou-lhe as feições. Lentamente, foi deslizando, pouco a pouco, dando a volta à ilha, e reentrou na zona de luz.

“O circuito que a Fada acaba de fazer — continuei eu, sempre a sonhar — é o ciclo de um breve ano da sua vida. Ela atravessou o seu inverno e o seu verão. Aproximou-se um ano da morte; eu bem vi que, quando ela entrava na obscuridade, a sua sombra se separava dela e era tragada pela água escura, tornando a sua negridão ainda mais profunda.”

E o barquinho apareceu de novo com a Fada; de novo da luz para a escuridão, que se tornava mais densa de minuto a minuto, e novamente a sua sombra, destacando-se, caiu no ébano líquido e foi absorvida pelas trevas.

Várias vezes ainda ela fez o circuito da ilha, enquanto o Sol se precipitava para o seu leito; e, de cada vez que ela emergia para a luz, mais tristeza havia na sua expressão e mais fraca, mais abatida e indistinta ela se mostrava; e de cada vez que passava à obscuridade, destacava-se dela um espectro mais escuro, que se submergia numa sombra mais profunda. Mas, por fim, quando o Sol desapareceu totalmente, a Fada — a pobre inconsolável! — agora simples fantasma de si própria, entrou com o seu barco na região do rio de ébano, — e se jamais de lá saiu não o posso dizer, pois as trevas tombaram sobre todas as coisas, e eu não tomei a ver a sua encantadora figura…

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