O Rouxinol e a Rosa – Conto de Oscar Wilde

By | 18/09/2021

“Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas,” queixou-se o jovem estudante; “ mas em todo o meu jardim, não há uma única rosa vermelha.”

Do seu ninho na azinheira o rouxinol ouviu-o e espreitou por entre as folhas surpreendido.

“Nem uma rosa, em todo o meu jardim!” queixou-se ele, e os seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. “Ah, de coisas tão pequenas depende a felicidade! Li tudo o que os sábios escreveram e todos os segredos da filosofia são meus e, todavia, por falta de uma rosa vermelha a minha vida torna-se miserável.”

“Aqui está finalmente um verdadeiro apaixonado,” disse o rouxinol. “Noite após noite tenho cantado sobre ele, apesar de o não conhecer: noite após noite tenho contado a sua história às estrelas, e agora vejo-o. Tem o cabelo escuro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa dos seus desejos; mas a paixão fez do seu rosto pálido marfim e a dor colocou-lhe o selo na fronte.

“O príncipe dá um baile amanhã à noite,” murmurou o jovem estudante, “e o meu amor estará entre os convidados. Se eu lhe levar uma rosa vermelha ela dançará comigo até ao amanhecer. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, tê-la-ei nos meus braços, ela inclinará a cabeça sobre o meu ombro e eu apertarei sua mão na minha. Mas não há uma única rosa vermelha no meu jardim, por isso ficarei só e ela passará sem sequer me olhar. Não fará caso de mim e o meu coração irá quebrar.”

“Aqui está sem dúvida um verdadeiro apaixonado”, disse o rouxinol. “Sofre daquilo que eu canto – o que para mim é alegria, é para ele pesar. O amor é verdadeiramente uma coisa maravilhosa. É mais precioso que esmeraldas e mais caro que esplêndidas opalas. Pérolas e romãs não o podem comprar e nem se pode expor no mercado. Não o compram os mercadores nem em balanças de ouro se pode pesar.”

“Os músicos sentar-se-ão na galeria”, disse o jovem estudante, “ tocarão instrumentos de cordas e o meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará tão levemente que os seus pés não tocarão o chão e os cortesãos hão-de amontoar-se-ão à sua volta, em suas vestes vistosas. Mas comigo ela não irá dançar, pois não tenho uma rosa vermelha para lhe dar”; e atirou-se para a relva, enterrando a face nas mãos, a chorar.

“Porque está ele a chorar?” perguntou um pequeno lagarto verde, que passava por ele a correr de cauda no ar.

“Sim, porquê?” disse uma borboleta, que por ali esvoaçava atrás de um raio de sol. “Sim, porquê?” sussurrou uma margarida ao seu vizinho, numa voz suave baixa. “Está a chorar por uma rosa vermelha,” disse o rouxinol.

“Por uma rosa vermelha?” exclamaram; “mas que ridículo!” e o pequeno lagarto, que era um tanto cínico, riu à gargalhada.

Mas o rouxinol entendia o segredo da angústia do estudante e deixou-se ficar silencioso no carvalho a reflectir sobre o mistério do amor.

De repente abriu as asas castanhas para voar e elevou-se no ar. Passou pelo pomar como uma sombra e como uma sombra planou sobre o jardim.

No meio do relvado erguia-se uma bonita roseira; quando a viu voou até ela e pousou num ramo de linda folhagem.

“Dá-me uma rosa vermelha,” exclamou, “ e eu canto-te a minha canção mais doce.” Mas a roseira abanou a cabeça.

“As minhas rosas são brancas,” respondeu; “tão brancas quanto a espuma do mar e mais brancas que a neve na montanha. Mas vai ter com a minha irmã, que cresce à volta do relógio de sol, e talvez ela te dê o que tu queres.”

Então o rouxinol voou até à roseira que crescia à volta do relógio de sol.

“Dá-me uma rosa vermelha,” exclamou, “ e eu canto-te a minha canção mais doce.” Mas a roseira abanou a cabeça.

“As minhas rosas são amarelas,” respondeu; “tão amarelas quanto o cabelo da sereia que se senta num trono de âmbar; e mais amarelas que o narciso-amarelo a desabrochar no prado antes do ceifeiro chegar com a sua foice. Mas vai ter com a minha irmã, que cresce debaixo da janela do estudante, e talvez ela te dê o que tu queres.”

Então o rouxinol voou até à roseira que crescia por baixo da janela do estudante.

“Dá-me uma rosa vermelha,” exclamou, “ e eu canto-te a minha canção mais doce.”

Mas a roseira abanou a cabeça.

“As minhas rosas são vermelhas,” respondeu, “tão vermelhas quanto as patas do pombo e mais vermelhas que os grandes leques de coral que abanam ao sabor da corrente na caverna oceânica. Mas o inverno arrefeceu-me os veios, a geada queimou-me os botões e a tempestade partiu-me os ramos; não terei nenhuma rosa este ano.”

“Uma rosa vermelha é tudo o que eu quero,” exclamou o rouxinol, “apenas uma rosa vermelha! Não haverá maneira de eu a encontrar?”

“Há uma maneira,” respondeu a roseira; “mas é tão terrível que não me atrevo a dizer-te.”
“Diz-me,” disse o rouxinol, “eu não tenho medo,”

“Se queres uma rosa vermelha,” disse a roseira, “tens de construi-la com música ao luar e manchá-la com o sangue do teu próprio coração. Tens de cantar para mim com o teu peito encostado a um espinho. Toda a noite tens de cantar para mim e o espinho tem de trespassar o teu coração, para o teu sangue vital correr para os meus veios e tornar-se meu.”

“A morte é um preço muito alto a pagar por uma rosa vermelha,” exclamou o rouxinol, “e a vida é muito preciosa para todos. É agradável pousar na madeira verde, ver o sol num coche de ouro e a lua em seu coche de pérola. Doce é o aroma do pilriteiro e doce é o aroma das campainhas que se escondem no vale e da urze que floresce no monte. Ainda assim o amor é melhor que a vida, e o que é o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?”

Então abriu as asas castanhas para voar e elevou-se no ar. Passou velozmente pelo jardim e como uma sombra planou sobre o pomar.

O jovem estudante estava ainda deitado na relva onde o tinha deixado e as lágrimas ainda não tinham secado nos seus lindos olhos.

“Sê feliz,” exclamou o rouxinol, “sê feliz; terás a tua rosa vermelha. Irei construi-la com música ao luar e manchá-la com o sangue do meu próprio coração. Tudo o que te peço em troca é que sejas um verdadeiro apaixonado, pois o amor é mais sábio que a filosofia, apesar de ela ser sábia, e mais forte que o poder, apesar de ele ser forte. Cor-de-fogo são as suas asas, e pintado como a cor do fogo é o seu corpo. Seus lábios são doces como mel, e seu hálito é como incenso.”

O estudante ergueu os olhos da relva e escutou, mas não conseguia entender o que o rouxinol lhe dizia, pois ele só sabia as coisas escritas nos livros.
Mas o carvalho entendeu e sentiu-se triste, pois gostava muito do pequeno rouxinol que tinha construído o ninho nos seus ramos.

“Canta-me uma última canção,” sussurrou-lhe; “vou sentir-me tão só quando partires.”

Então o rouxinol cantou para o carvalho e a sua voz era como água a borbulhar de um jarro de prata.

Quando a música terminou, o estudante levantou-se e tirou do bolso um livro de apontamentos e um lápis de carvão.

“Tem forma,” disse para consigo, enquanto se afastava do pomar – “isso não se lhe pode negar; mas terá sentimento? Receio que não. De facto, é como a maioria dos artistas; é todo estilo, sem qualquer sinceridade. Não se sacrificaria por outros. Só pensa em música, e sabemos como as artes são egoístas. Porém, há que admitir que tem notas bonitas na voz. Pena é que não queiram dizer nada, ou façam algum bem que se veja”. E foi para o seu quarto, deitou-se numa pequena enxerga e pôs-se a pensar no seu amor; passado algum tempo, adormeceu.

Quando a lua brilhou nos céus, o rouxinol voou até à roseira e encostou o seu peito ao espinho. Toda a noite cantou com o peito encostado ao espinho e a fria lua de cristal debruçou-se e escutou. Toda a noite cantou, e o espinho enterrava-se cada vez mais no seu peito, dele vazando o seu sangue vital.

Cantou primeiro sobre o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma rapariga. E no mais alto ramo da roseira desabrochou uma rosa maravilhosa, pétala atrás de pétala, como canção atrás de canção. Era pálida, a princípio, como a neblina que paira sobre o rio – pálida como os pés da manhã e prateada como as asas da madrugada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça de água, assim era a rosa que desabrochou no mais alto ramo da roseira.

Mas a roseira gritou ao rouxinol que se encostasse mais ao espinho. “Encosta-te mais, pequeno rouxinol,” exclamou a roseira, “ou o dia chega antes que a rosa esteja terminada.”

Então o rouxinol encostou-se mais ao espinho, e cada vez mais sonora se tornava a sua canção, pois cantava sobre o nascer da paixão na alma de um homem e de uma donzela.

Um delicado rubor rosado surgiu nas pétalas da rosa, como o rubor na face do noivo ao beijar os lábios da noiva. Mas o espinho não tinha ainda alcançado o seu coração, por isso o coração da rosa permanecia branco, pois apenas o sangue do coração de um rouxinol pode tingir de carmim o coração de uma rosa.

E a roseira gritou ao rouxinol que se encostasse mais ao espinho. “Encosta-te mais, pequeno rouxinol,” exclamou a roseira, “ou o dia chega antes que a rosa esteja terminada.”

Então o rouxinol encostou-se mais ao espinho e o espinho toucou-lhe o coração, atravessando-o num violento espasmo de dor. Violenta, violenta era a dor e frenética, cada vez mais frenética, se tornava a sua canção, pois cantava sobre o amor que se torna perfeito na morte, e sobre o amor que nem no túmulo morre.

E a extraordinária rosa tornou-se carmim, tal como a rosa do céu do oriente.

Carmim era a cinta de pétalas, e tão carmim como um rubi, o coração.

Mas a voz do Rouxinol foi ficando mais fraca, as suas pequenas asas começaram a bater e uma película velou-lhe os olhos. Mais fraca, cada vez mais fraca, foi ficando a sua canção, e algo lhe sufocava a garganta.

Depois soltou uma última explosão de música. A lua branca ouviu e esqueceu-se da madrugada, deixando-se ficar no céu. A rosa vermelha ouviu, estremeceu toda ela de êxtase e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O eco levou-a para a sua caverna púrpura na montanha e despertou dos seus sonhos os pastores adormecidos. Flutuou por entre os juncos do rio e eles levaram a sua mensagem para o mar.

“Vê, vê!” exclamou a roseira, “a rosa está agora terminada”; mas o rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na relva alta, com o espinho no seu coração.

Ao meio dia o estudante abriu a janela e espreitou para fora.

“Quê! Que sorte maravilhosa!” exclamou; “aqui está uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa assim em toda a minha vida. É tão bonita que com certeza tem um longo nome em latim”; debruçou-se e arrancou-a.

Depois pôs o chapéu e correu até à casa do professor com a rosa na mão.

A filha do professor estava sentada à entrada a enrolar seda azul numa roca, com o cão deitado aos pés.

“Disseste que dançarias comigo se te trouxesse uma rosa vermelha,” exclamou o estudante. “Aqui está a rosa mais vermelha do mundo. Vais usá-la esta noite junto ao teu coração e quando dançarmos juntos ela dir-te-á quanto te amo.”

Mas a rapariga franziu o sobrolho.

“Lamento mas não combina com o meu vestido,” respondeu; “além disso, o sobrinho do camareiro real enviou-me jóias verdadeiras, e toda a gente sabe que jóias custam bem mais do que flores.”

“Ora, não haja dúvida, és muito ingrata,” disse zangado o estudante; e atirou a rosa para a rua, caindo na sarjeta onde a roda de uma carroça lhe passou por cima.

“Ingrata!” disse a rapariga. “ Pois fica a saber que és muito grosseiro; e, além disso, quem julgas que és? Apenas um estudante. Ora, nem acredito que tenhas sequer fivelas de prata para os sapatos como tem o sobrinho do camareiro”; e levantou-se da cadeira para entrar em casa.

“Que coisa tola é o amor,” disse o estudante à medida que se ia embora. “Não tem nem metade da utilidade da lógica, pois nada prova, e está sempre a dizer-nos coisas que não vão acontecer e a fazer-nos acreditar em coisas que não são verdade. De facto, é muito pouco prático e como nos dias que correm ser prático é tudo, vou voltar à filosofia e estudar metafísica.”

Então regressou ao seu quarto, pegou num livro grande e poeirento e começou a ler.

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