O Coração Delator – Conto de Edgar Allan Poe

By | 18/09/2021

É verdade! nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso fui e sou; mas por que motivo hão de dizer que eu sou doido? A doença havia apurado os meus sentidos, não os havia destruído, não os havia embotado. O que em mim suplantava todos os mais sentidos era a acuidade do ouvido. Ouvia tudo o que ocorria, quer fosse no céu, quer fosse na terra. Ouvia até muitas coisas que ocorriam no inferno. Por que dizem, então, que eu estou doido? Escutem! e observem a serenidade, a sã lucidez com que lhes posso contar a história toda.

É impossível dizer como foi que esta ideia primeiro penetrou no meu cérebro; mas uma vez concebida, obsidiou-me dia e noite. Não existia móbil. Não existia paixão. Eu era amigo do velho. Nunca me fizera mal. Nunca me insultara. Eu não lhe cobiçava o ouro. Creio que foi o olho! sim, foi isso! Tinha um olho de abutre — um olho de um azul pálido, coberto de uma membrana. Sempre que me fitava, gelava-me o sangue; e assim, a pouco e pouco — muito lentamente — foi-se gerando em mim a decisão de matar o velho como o único modo de me libertar para sempre daquele olho maldito.

Agora aqui é que está o nó da questão. Julgais-me doido. Os doidos nada sabem. Mas devíeis-me ter visto. Devíeis ter visto o tino com que procedi — a cautela — a previsão — a dissimulação com que operei! Eu nunca fora mais afável para com o velho do que durante a semana que precedeu o seu assassínio.

Todas as noites, cerca da meia-noite, desandava o fecho da sua porta e abria-a — oh, com que extremos de cuidado! E então, depois de abrir uma estreita fresta, introduzia uma lanterna de furta-fogo, tendo o cuidado de evitar que a sua luz pudesse ser vista, e depois enfiava a cabeça. Oh, havíeis de rir, se vísseis quão astutamente eu enfiava a cabeça pela fresta da porta! Movia-a lentamente — muito lentamente — afim de não perturbar o sono do velho. Levava-me uma hora a passar a cabeça pela exígua abertura, até o poder ver estendido na cama. Ah, teria um doido procedido com todos estes cuidados? E depois, quando já tinha a cabeça toda dentro do quarto, apagava a lanterna cautelosamente — muito devagarinho, de modo que só um ténue raio ficasse incidindo sobre o olho de abutre.

Fiz isto durante sete longas noites — sempre à mesma hora, à meia noite — mas sempre encontrei fechado o olho; era assim impossível levar a cabo o meu plano; pois o que me incomodava, o que se tornava para mim incomportável, não era o homem, mas sim o olho maldito!

Todas as manhãs, ao romper do dia, entrava com todo o descaro no quarto dele, e falava-lhe afoitamente, tratando-o pelo seu nome com todo o carinho e perguntando-lhe como passara a noite: Vedes, pois, que era mister que ele fosse um homem muito perspicaz para suspeitar de que todas as noites, ao bater das doze, eu espreitava o seu dormir!

Na oitava noite fui mais cauteloso do que de costume ao abrir a porta. O ponteiro de um relógio é mais ligeiro do que era a minha mão. Antes daquela noite nunca eu sentira o alcance das minhas forças — da minha sagacidade. Mal podia exprimir a minha sensação de triunfo! Pensara que eu me achava ali, abrindo a porta, pouco a pouco, e que ele nem sequer sonhava o que eu secretamente fazia ou pensava!

Ri-me francamente, com ufania e regozijo, a esta ideia; e talvez ele me ouvisse, pois que se mexeu na cama subitamente, como que sobressaltado. Pensais talvez que recuei — mas não! O quarto estava escuro como breu, mergulhado em trevas espessas (pois, por medo dos gatunos, as portadas das janelas estavam solidamente aferrolhadas) e, por isso, eu sabia que ele não podia ver a abertura da porta: continuei, portanto, a abri-la de mansinho, mas com mão firme.

Já tinha a cabeça dentro e ia abrir a lanterna quando me escorregou o polegar no puxador da porta, e o velho deu um pulo na cama, exclamando:

— Quem anda aí?

Quedei-me imóvel e em silêncio. Durante uma hora não mexi um músculo, e nesse lapso de tempo não o ouvi deitar-se de novo. Continuava sentado na cama, de ouvidos à escuta — tal qual como eu, que passei noites após noites escutando os ralos da parede.

Daí a pouco ouvi um leve gemido, que eu sabia ser o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de queixume — oh, não! — era o som débil, sumido, que sobe do âmago da alma empolgada pelo terror. Eu conhecia bem esse som. Muitas noites, precisamente ao cair da duodécima badalada, quando todo o mundo dormia, ele se escoou do meu próprio peito, tornando mais profundo ainda, com o seu temeroso eco, os terrores que me desvairavam. Repito: conhecia-o muito bem. Eu sabia o que o homem sentia e tinha pena dele, e, todavia, no íntimo do coração exultava. Sabia que ele ficava acordado desde que ouvira o primeiro rumor, quando se mexera na cama. Os seus receios foram-se avolumando. Tentara persuadir-se de que eram infundados, mas não pudera. Dissera repetidas vezes consigo mesmo: «é apenas o vento na chaminé, é só um rato a atravessar o quarto» ou «é apenas o raspar de asas de um grilo» . Sim, ele tentara confortar-se com estas hipóteses: mas achara tudo baldado. Tudo baldado; porque a Morte, aproximando-se dele, pairava na sua frente com a sua negra sombra, e envolvia a vítima. E era a lúgubre influência da invisível sombra que o fazia sentir — embora nada visse nem ouvisse — sentir a presença da minha cabeça a dentro do quarto…

Tendo esperado muito tempo, muito pacientemente, sem o ouvir deitar-se, resolvi abrir uma estreitíssima fenda na lanterna. Depois abri-a — não podeis imaginar com que requintes de cautela — até que, finalmente, um ténue raio, semelhante ao fio de uma teia de aranha, atravessou a fenda e incidiu em cheio sobre o olho de abutre.
Estava aberto — arregalado — e eu fiquei furioso ao fitá-lo. Via-o com perfeita nitidez — todo azul, velado de uma membrana hedionda que me gelou até à medula; eu, porém, nada mais podia ver do rosto ou do corpo do velho: pois dirigira o raio, como que por instinto, precisamente sobre o ponto maldito.

E agora não vos disse eu já que aquilo que vós erradamente tomais por loucura nada mais é do que hiperagudeza dos sentidos? — agora, chegava-me aos ouvidos um ruído abafado, soturno, acelerado, semelhante ao que faz um relógio embrulhado em algodão. Eu conhecia muito bem esse ruído. Era o palpitar do coração do velho. Multiplicou a minha fúria, do mesmo modo que o rufar do tambor espicaça a coragem do soldado.

Apesar de tudo, porém, refreei-me e mantive-me quieto e em silêncio.

Quase nem respirava.

A lanterna imobilizara-se-me na mão. Tomei a peito ver com que firmeza podia deter o raio sobre o olho. Entrementes, o diabólico palpitar do coração redobrava de intensidade. Batia cada vez com mais força e mais depressa. O terror do velho devia ser extremo! As pancadas eram cada vez mais fortes, cada vez mais fortes, reparais bem? Já vos disse que sou nervoso: sou-o na verdade. E agora, àquela hora avançada da noite, no silêncio pavoroso daquela velha casa, um ruído assim tão estranho excitava-me até às raias de um terror incoercível. Todavia, consegui reprimir-me por mais uns minutos. As palpitações, porém, continuavam num crescendo de intensidade! Parecia-me que o coração do velho ia rebentar.

Apoderou-se de mim então uma nova ansiedade — e se os vizinhos ouvissem aquelas insólitas pancadas?

Chegara a hora do velho! Com um berro de raiva dei a força toda à lanterna e saltei para dentro do quarto. Agitou-o todo um tremor — mas só um. Num instante arrastei-o para o soalho, e atirei-lhe para cima a pesada cama. Sorri então alegremente, ao verificar que tudo estava consumado.

Durante muitos minutos, porém, o coração continuou a bater com um som abafado. Isto, no entanto, não me incomodava: não se podia ouvir do outro lado da parede. Por fim cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. Sim, estava rígido como pedra, morto e bem morto. Pousei a mão sobre o coração e conservei-a aí uns poucos de minutos. Não se percebia a mais ténue palpitação. Não havia que duvidar: estava morto! Aquele olho nunca mais me atormentaria.

Se ainda me tendes por doido, mudareis de parecer, logo que eu vos descreva as ponderadas precauções que tomei para ocultar o cadáver. A noite ia avançando e eu apressava-me na minha tarefa, mas em silêncio. A primeira coisa que fiz foi esquartejar o cadáver. Cortei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.

Depois arranquei três tábuas do soalho do quarto e sepultei tudo entre os barrotes. Tornei a colocar as tábuas tão habilmente, tão atiladamente, que não havia olho humano — nem mesmo o dele — que pudesse lobrigar fosse o que fosse de anormal. Nada havia que lavar — não havia mancha nenhuma. O sangue caíra todo numa bacia que eu tivera a prudência de utilizar — ah! ah!

Quando terminei todo este trabalho, eram quatro horas, e ainda estava tão escuro como se fora meia noite. Ao bater a última badalada no sino ouvi que alguém batia à porta da rua.

Desci para abri-la, serenamente, afoitamente — pois que tinha eu agora que recear?

Entraram três homens, que se apresentaram, com toda a delicadeza, como agentes de polícia. Um vizinho ouvira um grito durante a noite; levantaram-se suspeitas de que algum crime se houvesse perpetrado, e eles, os agentes, haviam sido incumbidos de passar uma busca ao prédio.

Sorri — pois que havia eu de temer? Dei as boas-vindas aos recém- chegados e franqueei-lhes a casa. O grito, expliquei, fora eu próprio quem em sonhos o soltara. O velho, acrescentei, achava-se ausente na aldeia. Acompanhei os visitantes por toda a casa. Pedi-lhes que examinassem — que examinassem bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele.

Mostrei-lhes os seus tesouros, arrumados, intactos. No entusiasmo da minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os a descansarem das suas fadigas, enquanto eu, na desvairada audácia do meu perfeito triunfo, colocava a minha cadeira mesmo no sítio por baixo do qual jazia o cadáver da minha vítima. Os agentes estavam satisfeitos. As minhas maneiras haviam-nos convencido. Eu estava perfeitamente à minha vontade. Eles estavam sentados, e,
enquanto eu lhes respondia jovialmente, conversavam sobre coisas familiares.

Passado pouco tempo, porém, senti-me empalidecer e, no meu íntimo, desejei que eles se fossem já embora. Doía-me a cabeça e parecia-me ter uma zoeira nos ouvidos: eles, porém, continuavam sentados e não cessavam de cavaquear.

A zoeira nos ouvidos tornava-se agora mais nítida: falei mais alto a fim de me libertar daquela sensação; mas o ruído continuava e era cada vez mais nítido, até que, por fim, percebi que o ruído não residia dentro dos meus ouvidos.

Nesta conjuntura, fiquei, sem dúvida, muito pálido; mas falei com mais fluência e engrossei a voz. O ruído, porém, intensificava-se — e que podia eu fazer? Era um ruído abafado, soturno, acelerado, muito semelhante ao que faz um relógio embrulhado em algodão.

Arquejava, ofegante — e, todavia, os polícias nada ouviam. Falei mais depressa, mais entusiasticamente; o ruído, porém, aumentava de intensidade. Levantei-me e pus-me a discutir sobre frioleiras, num tom de voz forte e com gestos violentos. Por que é que eles se não iam embora? Comecei a andar de uma banda para outra, batendo pesadamente com os pés no chão, fingindo-me enfurecido pelas considerações dos homens — mas o ruído aumentava, aumentava sempre…

Ó meu Deus! que podia eu fazer? Espumei, disparei, praguejei. Agarrei na cadeira em que estivera sentado e pus-me a raspar com ela as tábuas do soalho, mas o ruído suplantava tudo e cada vez se ouvia mais. Era cada vez mais forte — cada vez mais forte, cada vez mais!

E, no entanto, os homens continuavam a conversar prazenteiramente e sorriam. Era possível que eles não ouvissem? Deus omnipotente! — não, não! Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! — estavam zombando do meu horror! era o que eu pensava, e é o que penso. Mas tudo, fosse o que fosse, era preferível àquela agonia! Tudo era mais tolerável do que aquela irrisão!

Não podia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Sentia que tinha de gritar ou de morrer! e então as pancadas continuavam — escutai! — a bater cada vez com mais força! cada vez com mais força!

— Patifes! bradei então, no auge do desespero, não dissimulem mais! Confesso o crime! Arranquem essas tábuas! aqui, aqui! — vejam, são as palpitações do seu hediondo coração!

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