O principe feliz – Conto de Oscar Wilde

By | 17/09/2021

Elevando-se bem acima da cidade, numa coluna alta, erguia-se a estátua do Príncipe Feliz. Era toda revestida de finas folhas de ouro puro, nos olhos tinha duas safiras brilhantes, e um grande rubi vermelho cintilava no punho da sua espada.

De facto, o Príncipe Feliz era muito admirado. “É bonito como um cata-vento,” comentou um dos conselheiros municipais que queria ganhar reputação por ter gostos artísticos; “só não é assim tão útil,” acrescentou, receando que o considerassem pouco prático, o que realmente ele não era.

“Porque não podes ser como o Príncipe Feliz?” perguntou uma mãe sensata ao filho que lhe pedia a lua. “ O Príncipe Feliz nem sequer sonha em chorar por alguma coisa.”

“Ainda bem que há alguém no mundo que está tão feliz,” murmurou um homem desiludido enquanto fitava a maravilhosa estátua.

“Parece mesmo um anjo,” disse uma das crianças do orfanato quando saíam da catedral nas suas capas escarlate vivo e nos seus bibes imaculados.

“Como sabeis?” disse o Professor de Matemática, “nunca vistes um.”

“Ah! Isso é que vimos, em sonhos!” responderam as crianças; então o professor de matemática franziu o sobrolho e pôs um ar muito severo, pois não aprovava que as crianças sonhassem.

Uma noite voou sobre a cidade uma pequena andorinha. As suas amigas tinham ido para o Egipto seis semanas antes, mas ela tinha ficado para trás, pois estava apaixonada por um junco belíssimo. Tinha-o conhecido no início da Primavera enquanto voava rio abaixo atrás de uma grande mariposa amarela, e tinha ficado tão atraída pela sua cintura fina que tinha parado para falar com ele.

“Posso amar-te?” disse a andorinha, que gostava de ir direita ao assunto, e o junco fez-lhe uma vénia profunda. Então voou de roda dele, tocando a água com as suas asas e fazendo círculos prateados. E foi assim a sua corte ao longo de todo o Verão.

“É uma relação ridícula,” censuravam as outras andorinhas. “ele não tem dinheiro e tem demasiados parentes”. E de facto o rio estava repleto de juncos. Depois, quando o Outono chegou, todas voaram para longe.

Após terem partido a andorinha sentiu-se sozinha e começou a ficar cansada do seu amado. “ Não tem conversa,” disse ela, e temo que seja um dandi, sempre a namoriscar com o vento.” E era certo, quando o vento soprava, o junco fazia as mais graciosas reverências. “Admito que é caseiro,” continuou, “mas adoro viajar, e por isso, o meu marido deveria também adorar viajar.”

“Vens embora comigo?”, disse-lhe finalmente; mas o junco abanou a cabeça, estava tão agarrado à sua casa.

“Tens andado a brincar comigo,” exclamou. “Vou-me embora para as pirâmides.

Adeus!” e voou para longe.

Todo dia voou e à noite chegou à cidade. “Onde irei hospedar-me?” disse; “Espero que a cidade tenha feito preparativos.”

Depois viu a estátua na coluna alta.

“Vou hospedar-me aqui,” disse; “tem uma óptima situação, com muito ar fresco.” E lá pousou ela mesmo aos pés do Príncipe Feliz.

“Tenho um quarto dourado,” disse suavemente para si mesma ao olhar em volta e preparando-se para adormecer; mas, quando estava mesmo a pôr a cabeça debaixo da asa, uma grande gota de água caiu-lhe em cima.

“Que coisa estranha!” exclamou; “não há uma única nuvem no céu, as estrelas estão muito nítidas e brilhantes e, porém, está a chover. O clima no norte da Europa é realmente desagradável. O junco costumava gostar da chuva, mas era só egoísmo seu.”

Então caiu outra gota.

“Qual a utilidade duma estátua se não consegue manter a chuva afastada?” disse; “Tenho de procurar um bom tubo de chaminé,” e decidiu voar para longe.

Mas antes de ter aberto as asas, uma terceira gota caiu e ela olhou para cima e viu… Ah! O que é que ela viu?

Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas, lágrimas que lhe corriam pelas faces douradas abaixo. O seu rosto era tão belo ao luar que a pequena Andorinha ficou cheia de pena.

“Quem és tu?”, perguntou. “Eu sou o Príncipe Feliz.”

“Então porque choras?”, perguntou a Andorinha; “Encharcaste-me completamente.”

“Quando era vivo e tinha um coração humano,” respondeu a estátua, “não sabia o que eram lágrimas, pois vivia no Palácio Sans-Soussi, onde a dor não está autorizada a entrar. Durante o dia brincava com os meus companheiros no jardim e à noite abria o baile no Salão Nobre. A toda a volta do jardim erguia-se um muro altivo, mas nunca me dei ao trabalho de perguntar o que estava para lá dele, tudo à minha volta era tão bonito. Os meus cortesãos chamavam-me o Príncipe Feliz, pois eu era verdadeiramente feliz, se prazer é felicidade. Assim vivi e assim morri. Agora que estou morto, ergueram-me aqui tão alto que consigo ver toda a fealdade e miséria da minha cidade e, apesar de o meu coração ser de chumbo, não posso deixar de chorar.”

“O quê? Não é de ouro maciço?” perguntou a andorinha de si para si. Era demasiado educada para fazer qualquer comentário pessoal em voz alta.

“Lá longe,” continuou a estátua numa voz baixa e musical, “lá longe, numa ruela, há uma casa pobre. Uma das janelas está aberta e através dela consigo ver uma mulher sentada a uma mesa. Tem o rosto magro e gasto, e as mãos vermelhas, ásperas, todas picadas pela agulha, pois trata-se de uma costureira. Está a bordar passifloras num vestido de cetim para a mais encantadora das damas de honor da rainha usar no próximo baile da corte. Numa cama ao canto da sala, o filho está doente de cama. Tem febre e está a pedir laranjas. A mãe não tem nada para lhe dar a não ser água do rio, por isso ele está a chorar. Andorinha, andorinha, pequena andorinha, por que não lhe levas o rubi do punho da minha espada? Tenho os pés atados a este pedestal e não consigo mexer-me.”

“Estão à minha espera no Egipto,” disse a andorinha. “As minhas amigas já voam Nilo acima, Nilo abaixo e falam com as grandes flores de lótus. Em breve irão dormir no túmulo do grande rei. O próprio rei lá está no seu caixão pintado. Está envolto em linho amarelecido e embalsamado com especiarias. À volta do pescoço tem um colar de jade verde-pálido e as suas mãos são como folhas secas.”

“Andorinha, andorinha, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “não ficas comigo uma noite e és minha mensageira? O rapaz está sequioso e a mãe tão triste.”

“Acho que não gosto de rapazes,” respondeu a andorinha. “No verão passado, junto ao rio, havia dois rapazes malcriados, os filhos do moleiro, que estavam sempre a atirar-me pedras. Nunca me acertaram, é claro; nós andorinhas voamos bem demais para que isso aconteça e, além disso, venho de uma família famosa pela sua agilidade; mesmo assim, foi um sinal de desrespeito.”

Mas o Príncipe Feliz tinha um ar tão triste que a pequena andorinha sentiu pena. “Está muito frio aqui,” disse; “mas ficarei contigo por uma noite e serei tua mensageira.”

“Obrigada, pequena andorinha,” disse o Príncipe.

Então a andorinha pegou no grande rubi da espada do Príncipe e voou para longe com ele no bico por cima dos telhados da cidade.

Passou pela torre da catedral, onde estavam esculpidos anjos de mármore branco. Passou pelo palácio e ouviu o som de dança. Uma bela rapariga saía para a varanda com o seu apaixonado. “Como são maravilhosas as estrelas,” disse-lhe ele, “e como é maravilhoso o poder do amor!”

“Espero que o meu vestido esteja pronto a tempo do baile de gala,” respondeu ela; “Mandei bordar passifloras; mas as costureiras são tão preguiçosas.”

A andorinha passou pelo rio e viu as candeias penduradas nos mastros dos navios. Passou por cima do gueto e viu os velhos judeus a regatear uns com os outros e a pesar dinheiro em balanças de cobre. Finalmente, chegou ao casebre e espreitou para dentro. O rapaz contorcia-se febril na cama e a mãe tinha adormecido, de tão cansada que estava. Saltitou para dentro e pousou o grande rubi na mesa junto ao dedal da mulher. Depois esvoaçou à volta do quarto, refrescando a testa do rapaz com as suas asas. “Sinto-me tão fresco,” disse o rapaz, “Devo estar a ficar melhor”; e caiu num sono delicioso.

Depois, a andorinha voou de volta para o Príncipe Feliz e contou-lhe o que tinha feito. “É estranho,” observou, “mas até me sinto quente agora, apesar de estar tanto frio.”

“É porque fizeste uma boa acção,” disse o Príncipe. E a pequena andorinha pôs-se a pensar e logo depois adormeceu. Pensar sempre lhe dava sono.

Quando o dia nasceu, voou até ao rio e tomou banho. “Que fenómeno singular,” disse o professor de ornitologia enquanto atravessava a ponte. “Uma andorinha no Inverno!” E escreveu uma longa carta sobre isso ao jornal local. Toda a gente a citava, estava tão cheia de palavras que ninguém conseguia perceber.

“Esta noite vou para o Egipto,” disse a andorinha, animada com a ideia. Visitou todos os monumentos públicos e ficou pousada durante muito tempo no topo do campanário da igreja. Por onde quer que andasse, os pardais chilreavam e diziam uns aos outros, “Que distinta, esta estranha!” portanto divertiu-se imenso.

Quando a lua surgiu, ela voou de volta para o Príncipe Feliz. “Tens algum recado para o Egipto?” exclamou; “Vou pôr-me a caminho.”

“Andorinha, andorinha, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “porque não ficas comigo mais uma noite?”

“Estão à minha espera no Egipto,” respondeu a andorinha. “Amanhã as minhas amigas voarão para lá da Segunda Catarata. O hipopótamo aninha-se no meio do canavial e o Deus Mémnon senta-se no grande trono de granito. Durante toda a noite ele observa as estrelas e, quando a estrela da manhã brilha, solta um grito de alegria, para depois voltar ao silêncio. Ao meio dia, os leões amarelos aproximam-se da beira da água para beber. Têm olhos como berilos verdes e rugem ainda mais alto do que a catarata.

“Andorinha, andorinha, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “ lá longe do outro lado da cidade vejo um jovem numa mansarda. Está curvado sobre uma secretária coberta com papéis, e num vaso a seu lado há um ramo de violetas murchas. Tem cabelo castanho e crespo, lábios vermelhos como romãs e olhos grandes e sonhadores. Está a tentar acabar uma peça para o director do teatro, mas tem demasiado frio para poder continuar a escrever. Não há fogo na lareira e enfraqueceu de fome.”

“Ficarei contigo mais uma noite,” disse a andorinha, que realmente tinha bom coração. “Levo-lhe outro rubi?”

“Ai de mim! Já não tenho nenhum rubi,” disse o Príncipe; “os meus olhos são tudo o que me resta. São feitos de safiras raras, trazidas da Índia há mil anos. Arranca um deles

e leva-lho. Há-de vendê-lo ao joalheiro para comprar comida e lenha e terminar a sua peça.”

“Querido Príncipe,” disse a andorinha, “eu não posso fazer isso”; e começou a chorar.

“Andorinha, andorinha, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “faz o que te mando.”

Então a andorinha arrancou o olho do Príncipe e voou para a mansarda do estudante. Foi fácil entrar, já que havia um buraco no telhado. Lançou-se por ele fora e entrou no quarto. O jovem tinha a cabeça enterrada nas mãos, por isso não ouviu o bater das asas do pássaro, mas quando ergueu os olhos encontrou a bela safira pousada nas violetas murchas.

“Começo a ser reconhecido,” exclamou; “isto é de um grande admirador. Agora posso acabar a minha peça,” e ficou todo contente.

No dia seguinte a andorinha voou até ao porto. Pousou no mastro de uma grande embarcação e observou os marinheiros a içar grandes arcas para o porão com cordas. “O- oupa!” gritavam à medida que cada arca subia. “Vou para o Egipto!” exclamou a andorinha, mas ninguém lhe prestava atenção; e quando a lua subiu, voou de volta para o Príncipe Feliz.

“Vim dizer-te adeus,” exclamou.

“Andorinha, andorinha, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “porque não ficas comigo mais uma noite?”

“É Inverno,” respondeu a andorinha, “e a neve gelada estará aqui em breve. No Egipto o sol é quente nas palmeiras verdes e os crocodilos estão deitados na lama com um ar muito preguiçoso. As minhas companheiras estão a construir um ninho no Templo de Baal, e as pombas cor-de-rosa e brancas observam-nas arrulhando umas para as outras. Querido Príncipe, tenho de te deixar mas nunca te esquecerei, e na próxima Primavera hei-de trazer-te duas belas jóias para o lugar das que ofereceste. O rubi será mais vermelho que uma rosa vermelha e a safira será tão azul como o imenso mar.”

“Na praça aqui em baixo,” disse o Príncipe Feliz, “está uma pequena vendedora de fósforos. Deixou cair os fósforos na sarjeta e estão todos estragados. O pai vai bater-lhe se ela não levar para casa algum dinheiro, e ela está a chorar. Não tem sapatos nem meias, e tem a cabecinha descoberta. Arranca o meu outro olho e dá-lho, para que o pai não lhe bata.”

“Ficarei contigo mais uma noite,” disse a andorinha, “mas não posso arrancar-te o outro olho. Ficarias completamente cego.”

“Andorinha, andorinha, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “faz o que te mando.”

Então ela arrancou o outro olho ao Príncipe e partiu dali com ele. Passou em voo rasante pela vendedora de fósforos e meteu-lhe a jóia na palma da mão. “Que lindo pedaço de vidro,” exclamou a menina; e correu para casa, rindo.

Depois a andorinha regressou ao Príncipe. “Estás cego agora,” disse, “por isso, ficarei sempre contigo.”

“Não, pequena andorinha,” disse o pobre Príncipe, “tens de ir embora para o Egipto.”

“Ficarei sempre contigo,” disse a andorinha, e dormiu aos pés do Príncipe.

Passou todo o dia seguinte pousada no ombro do Príncipe, contando-lhe histórias do que tinha visto em terras estranhas. Falou-lhe das íbis vermelhas, que se alinham ao longo das margens do Nilo e apanham peixinhos dourados com os bicos; da Esfinge, que é tão velha como o próprio mundo, mora no deserto e tudo sabe; dos mercadores, que caminham devagar ao lado dos seus camelos transportando nas mãos contas de âmbar; do Rei das Montanhas da Lua, que é tão negro como o ébano e presta culto a um grande cristal; da grande cobra verde que dorme numa palmeira e tem vinte sacerdotes alimentando-a com broinhas de mel; e dos pigmeus que navegam em grandes folhas lisas num grande lago e estão sempre em guerra com as borboletas.

“Querida pequena andorinha,” disse o Príncipe, “falas-me de coisas maravilhosas, mas mais maravilhoso que tudo é o sofrimento de homens e mulheres. Não existe mistério tão grande como a miséria. Voa sobre a minha cidade, andorinha, e conta-me o que lá vês.”

Então a andorinha voou sobre a grande cidade e viu os ricos a divertir-se nas suas belas casas, enquanto os pobres se sentavam aos portões. Voou por vielas sombrias e viu as caras pálidas de crianças esfomeadas a olhar com indiferença as ruas negras. Debaixo dos arcos de uma ponte dois meninos abraçavam-se um ao outro para se manterem quentes. “Temos tanta fome!” diziam. “Não podeis deitar-vos aqui,” gritou o vigia, e eles desapareceram na chuva.

Depois voou de volta para o Príncipe e contou-lhe o que tinha visto.

“Estou coberto de ouro puro,” disse o Príncipe, “deves retirá-lo, folha por folha, e dá-lo aos meus pobres; os vivos pensam sempre que o ouro os pode fazer felizes.”

Folha após folha do ouro puro a andorinha foi retirando, até que o Príncipe Feliz ficou sem brilho e cinzento. Folha após folha do ouro puro foi ela levando aos pobres; os rostos das crianças foram ficando rosados e elas riam e brincavam na rua. “Já temos pão!” exclamavam.

Depois veio a neve e depois da neve, a geada. As ruas pareciam feitas de prata, tão brilhantes e reluzentes; longos pingentes de gelo como punhais de cristal pendiam das goteiras das casas. Toda a gente se vestia de peles, as crianças usavam gorros vermelhos e patinavam no gelo.

A pobre pequena andorinha tinha cada vez mais frio mas não abandonaria o Príncipe, amava-o tanto. Apanhava migalhas à porta da padaria, quando o padeiro não estava a ver, e tentava manter-se quente batendo as asas.

Mas finalmente soube que iria morrer. Teve apenas forças para voar para o ombro do Príncipe uma vez mais. “Adeus, querido Príncipe!” murmurou, “deixas-me beijar-te a mão?”

“Fico feliz por finalmente ires para o Egipto, pequena andorinha,” disse o Príncipe, “ já cá ficaste demasiado tempo; mas tens de me beijar nos lábios, porque eu amo-te.”

“Não é para o Egipto que eu vou,” disse a andorinha. “Vou para a casa da morte. A morte é a irmã do sono, não é?”
Beijou o Príncipe Feliz nos lábios e caiu morta a seus pés.

Nesse momento um curioso estalido soou no interior da estátua, como se alguma coisa se tivesse partido. A verdade é que o coração de chumbo se tinha rachado em dois. Sem dúvida que era um Inverno extremamente rigoroso.

Bem cedo na manhã seguinte, o presidente da câmara caminhava em baixo na praça na companhia dos conselheiros municipais. Ao passar pela coluna olhou para cima para a estátua: “Valha-me Deus! Que gasto parece o Príncipe Feliz!” disse.

“Que gasto, realmente!” exclamaram os conselheiros municipais, que concordavam sempre com o presidente da câmara; e foram lá todos acima olhar para ele.

“O rubi caiu da espada, os olhos foram-se e já não é dourado,” disse o presidente da câmara, “de facto é pouco melhor que um pedinte!”

“Pouco melhor que um pedinte,” disseram os conselheiros municipais.

“E até está aqui um pássaro morto a seus pés!” continuou o presidente da câmara. “Temos mesmo de fazer um decreto para não permitir aos pássaros morrer aqui.” E o arquivista do município tomou nota da sugestão.

Então deitaram abaixo a estátua do Príncipe Feliz. “Como já não é belo, já não é útil,” disse o professor de arte na universidade.

Depois derreteram a estátua numa fornalha, e o presidente da câmara teve uma reunião da Assembleia para decidir o que fazer com o metal. “Temos de ter outra estátua, é claro,” disse, “e será uma estátua de mim próprio.”

“De mim,” disseram cada um dos conselheiros municipais, e discutiram. Da última vez que ouvi falar deles ainda estavam a discutir.

“Que coisa estranha!” disse o encarregado dos operários na fundição. “Este coração de chumbo partido não derrete na fornalha. Temos de o deitar fora.” Então deitaram-no para um monte de lixo onde também a andorinha jazia morta.
“Traz-me as duas coisas mais valiosas da cidade,” disse Deus a um dos seus anjos; e o anjo levou-Lhe o coração de chumbo e o pássaro morto.

“Escolheste bem,” disse Deus, “pois no meu jardim do Paraíso este passarinho cantará para todo o sempre e na minha cidade de ouro o Príncipe Feliz louvar-me-á.”

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