O Demônio da Perversidade – Conto de Edgar Allan Poe

By | 15/09/2021

No exame das faculdades e das tendências — os móbeis primordiais da alma humana — os frenólogos esqueceram-se de conceder lugar a uma propensão que, embora evidente como sentimento primitivo, fundamental, irredutível, foi igualmente omitida por todos os moralistas que os procederam. Na absoluta autossuficiência da nossa razão, todos nós a temos omitido. Permitiu-se que a sua existência nos escapasse à vista, unicamente por falta de crença, de fé — quer na Revelação quer na Cabala. Jamais nos veio tal à ideia, simplesmente por causa do seu caráter não-imperativo. Não se sentia a necessidade de verificar esse impulso, essa tendência. Não podíamos conceber tal necessidade. Não podíamos apreender a noção desse primum mobile, e, dada ainda a hipótese de ela se introduzir em nós à força, jamais teríamos podido compreender o seu papel na ordem das coisas humanas, temporais ou eternas.

Não se negará que a frenologia e uma parte das ciências metafísicas são manipuladas a priori. O homem da metafísica ou da lógica, muito mais que o homem da inteligência e da observação, pretende conceber os desígnios de Deus – e ditar-lhe planos. Tendo assim aprofundado, com plena satisfação sua, as intenções de Jeová, ele edificou, baseado nessas pseudo-intenções, os seus muitos e caprichosos sistemas. Em matéria de frenologia, por exemplo, estabelecemos-, primeiro, e muito naturalmente, que fazia parte dos desígnios da Divindade que o homem comesse. Depois, atribuímos ao homem um órgão de alimentividade, e esse órgão é o chicote com que Deus obriga o homem a comer, de bom ou mau grado. Em seguida, tendo decidido que era vontade de Deus que o homem continuasse a sua espécie, descobrimos logo um órgão de amatividade. E, do mesmo modo, os da combatividade, da idealidade, da causalidade, da construtividade — resumindo, todo e qualquer órgão que representasse uma tendência, um sentimento moral ou uma faculdade da inteligência pura.

E neste arranjo dos princípios da atividade humana, os spurzheimistas, com ou sem razão, em parte ou na totalidade, não têm feito mais do que seguir, em princípio, as peugadas dos seus antecessores: deduzindo e estabelecendo cada coisa segundo o destino preconcebido do homem com base nas intenções atribuídas ao Criador.

Teria sido mais sensato, teria sido mais seguro basear a nossa classificação (já que temos absolutamente de classificar) nos atos que o homem pratica habitualmente e naqueles que ele pratica acidentalmente, sempre acidentalmente, em vez de a basear na hipótese de que é a própria Divindade que lhos faz praticar. Se não podemos compreender Deus nas suas obras visíveis, como o compreenderíamos nos seus pensamentos inconcebíveis, que chamam essas obras à vida? Se não podemos concebê-lo nas suas criaturas objetivas, como o conceberemos nos seus modos incondicionais e nas suas fases da criação?

A indução a posteriori teria conduzido a frenologia a admitir como princípio primitivo e inato da ação humana um não sei quê de paradoxal, a que chamaremos perversidade, à falta de termo mais adequado. No sentido que lhe dou, é, na realidade, um móbil sem motivo, um motivo não motivado. Sob a sua influência, agimos sem um fim inteligível; ou, se isto parece uma contradição de termos, podemos alterar a proposição e dizer que, sob a sua influência, agimos pela simples razão de que não deveríamos agir. Em teoria, não pode haver razão mais desarrazoada; mas, de facto, não há outra mais forte. Para certos espíritos, em determinadas condições, ela torna-se absolutamente irresistível. A minha vida, para mim, não é uma coisa mais real que esta proposição: a certeza do pecado ou do erro contido em qualquer ato é muitas vezes a força única, invencível, que nos impele — só ela! — à sua prática.

Ora esta tendência dominadora para praticar o mal por amor do mal nenhuma análise, nenhuma resolução admitirá, com base em elementos ulteriores. É um movimento fundamental, primitivo — elementar. Dir-se-á, já o espero, que se persistimos em certos atos por sentirmos que não deveríamos neles persistir, a nossa conduta é apenas uma modificação daquela que deriva ordinariamente da combatividade frenológica. Mas um simples olhar bastará para descobrir a falsidade de tal ideia. A combatividade frenológica tem por móbil de existência a necessidade da defesa pessoal. Ela é a nossa salvaguarda contra a injustiça. O seu princípio relaciona-se com o nosso bem-estar; e assim, ao mesmo tempo que ela se desenvolve, nós sentimos exaltar-se em nós o desejo do bem-estar. Seguir-se-ia, pois, que o desejo do bem-estar deveria ser simultaneamente excitado por todo e qualquer princípio que fosse unicamente uma modificação da combatividade; mas, no caso deste não sei quê que rotulei de perversidade não somente o desejo do bem-estar não aparece desperto, como ainda surge um sentimento singularmente contraditório.

Todo o homem, ao apelar para o seu próprio coração, encontrará, finalmente, a melhor resposta para o sofisma de que se trata. Quem consultar lealmente e interrogar atentamente a sua alma, não ousará negar a absoluta radicalidade da tendência em questão. Esta não é menos caracterizada que incompreensível. Não há homem, por exemplo, que em dado momento não tenha sido devorado por um desejo ardente de torturar o seu ouvinte com circunlóquios. Aquele que fala sabe bem que desagrada, embora com a melhor das intenções de agradar; é habitualmente breve, preciso e claro; na sua boca agita-se e debate-se a mais lacónica e mais luminosa linguagem; é com esforço que ele se obriga a recusar-lhe a passagem, e ele teme e conjura o mau humor daquele a quem se dirige. No entanto, acode-lhe o pensamento de que, por certos incisos e parêntesis, ele poderia engendrar essa cólera. Este simples pensamento basta. O movimento torna-se uma veleidade, a veleidade avoluma e transforma- se em desejo, o desejo converte-se numa necessidade irresistível, e a necessidade satisfaz-se — com profundo pesar e mortificação de quem fala e o desprezo mais absoluto por todas as consequências possíveis.

Temos diante de nós uma tarefa que devemos executar rapidamente. Sabemos que atrasar-nos é a nossa ruína. A crise mais importante da nossa vida reclama, com a voz imperativa de uma trombeta, ação e energia imediatas. Ardemos, somos consumidos de impaciência por meter mãos à obra; o antegosto de um resultado glorioso põe toda a nossa alma em fogo. Essa tarefa tem, forçosamente, de ser encetada hoje — no entanto, adiamo-la para amanhã; e porquê? Não há explicação, a não ser o facto de sentirmos que isso é perverso. (Sirvamo-nos da palavra sem lhe aprofundar o sentido). O dia seguinte chega, e, ao mesmo tempo, uma ansiedade mais impaciente de fazer o nosso dever; mas com esse acréscimo de ansiedade surge também um desejo ardente, anónimo, de diferir mais uma vez — desejo positivamente terrível, pois que a sua natureza é impenetrável. Quanto mais o tempo foge, mais forte se torna esse desejo. Resta apenas uma hora para a ação, e essa hora é nossa. Trememos com a violência do conflito que se agita dentro de nós, com a batalha entre o positivo e o indefinido, entre a substância e a sombra. Mas, se a luta chegou a esse ponto, é a sombra que leva a melhor — é em vão que nos debatemos. Ouve-se bater o relógio: é o dobre de finados da nossa felicidade. Para a sombra que, durante tanto tempo, nos aterrorizou, é ao mesmo tempo o canto despertador, o vitorioso toque de alvorada do galo dos fantasmas. Este apaga-se — desaparece: estamos livres. Volta a velha energia. Agora sim, vamos trabalhar. Finalmente! Mas ai! É tarde de mais…

Estamos à beira de um precipício. Olhamos para o abismo — e sentimos vertigens, grande mal-estar. Nosso primeiro movimento é recuar diante do perigo. Inexplicavelmente, ficamos). Pouco a pouco, o mal-estar, as vertigens, o horror confundem-se num sentimento nebuloso e indefinível. Gradualmente, insensivelmente, essa nuvem toma forma como o vapor da garrafa donde se erguia o génio das Mil e Uma Noites. Mas da nossa nuvem à beira do precipício ergue-se, cada vez mais palpável, uma forma mil vezes mais terrível que qualquer génio, que qualquer demónio das fábulas. E, contudo, não passa de um pensamento, mas um pensamento assustador, um pensamento que nos gela a medula dos ossos e os penetra com as ferozes delícias do seu horror.

A ideia é simplesmente esta: Quais seriam as nossas sensações durante o percurso de uma queda dada de tal altura? E essa queda — esse aniquilamento fulminante — pela simples razão de que está nela implicada a mais horrorosa, a mais odiosa de todas as mais horrorosas e mais odiosas imagens de morte e de sofrimento que jamais possam ter desafiado a nossa imaginação, por essa simples razão, nós desejamo-la ainda mais ardentemente. E porque a nossa razão nos afasta violentamente da beira, por cansa disso mesmo dela nos aproximamos ainda mais impetuosamente. Não há na natureza paixão mais diabolicamente impaciente que a do homem, que, assustado sobre a aresta de um precipício, sonha com o lançar-se nele. Ceder, tentar pensar um só instante, é o mesmo que estar inevitavelmente perdido, pois a reflexão ordena-nos que nos abstenhamos, e é por causa disso mesmo, digo eu, que não o podemos fazer. Se não há um braço amigo para nos deter, e se somos incapazes de um supremo esforço para nos afastarmos para longe do abismo, lançamo-nos nele, estamos aniquilados.

Examinemos estas ações e outras análogas, e acharemos que elas resultam unicamente do espírito de perversidade. Perpetramo-las, simplesmente porque sentimos que não o devíamos fazer.

Para cá ou para lá desse facto não há princípio inteligível; e nós poderíamos, na verdade, considerar essa perversidade como uma instigação direta do Arquidemónio, se não se reconhecesse que, às vezes, tudo bem avaliado, ela serve para a prática do bem.

Se vos falei tão demoradamente, foi para responder de certo modo à vossa pergunta, para vos explicar por que razão eu estou aqui, e ter de vos mostrar um motivo aparente qualquer para estes ferros que arrasto e esta cela de condenado que habito. Se não tivesse sido tão prolixo, ou não me teríeis de maneira nenhuma compreendido ou, do mesmo modo que a turba, ter-me-íeis julgado louco. Agora, haveis de perceber facilmente que eu sou uma das numerosas vítimas do demónio da perversidade.

É impossível que uma ação tenha alguma vez sido maquinada com mais perfeita deliberação. Durante semanas, durante meses, meditei sobre os meios de praticar um assassínio. Pus de parte mil planos, porque a execução de cada um deles implicava uma probabilidade de revelação. Por fim, lendo um dia uns relatórios franceses, dei com a história de uma doença quase mortal que atacou Madame Pilau, por efeito de uma vela acidentalmente envenenada. O caso feriu-me logo a imaginação. Eu sabia que a minha vítima tinha o hábito de ler na cama. Sabia também que o seu quarto era pequeno e mal arejado. Mas não tenho necessidade de vos fatigar com pormenores ociosos. Não vos relatarei os fáceis ardis de que me servi para colocar na palmatória do seu quarto de dormir uma vela da minha composição, em lugar daquela que ali estava.

De manhã, encontraram o homem morto na cama, e o veredicto do juiz de paz foi este: morte súbita.

Herdei a sua fortuna, e tudo correu pelo melhor durante vários anos. A ideia de uma revelação não me entrou uma única vez no cérebro. Quanto aos restos da vela fatal, eu próprio os tinha destruído. Não havia deixado a sombra de um fio que pudesse servir para que me acusassem do crime ou mesmo de mim suspeitassem. É impossível conceber o magnífico sentimento de satisfação que me enchia o peito quando eu pensava na minha absoluta segurança. Durante um longo período de tempo, acostumei-me a deleitar-me com esse sentimento. Proporcionava-me um prazer mais real que todos os benefícios puramente materiais resultantes do meu crime. Finalmente, porém, chegou uma época a partir da qual o sentimento de prazer se transformou, por gradação quase impercetível, num pensamento que me dominava e me fatigava. E fatigava-me porque me dominava. É um facto absolutamente vulgar ter os ouvidos cansados, ou antes, a memória obsidiada por uma espécie de zunido, pelo estribilho de uma canção vulgar ou por insignificantes fragmentos de ópera. E a tortura não será menor quando a canção é boa ou quando a ária de ópera é digna de apreço. Foi assim que eu, por fim, me surpreendia sem cessar a pensar na minha segurança e a repetir em voz baixa esta frase: Estou salvo!

Um dia, em que passeava na rua, dei comigo mesmo a murmurar, quase em voz alta, essas palavras costumadas. Num acesso de petulância, eu exprimia- me sob esta nova forma: — Estou salvo, estou salvo; sim, contanto que não seja tão parvo que eu próprio me denuncie!

Mal tinha pronunciado estas palavras, senti um frio de gelo penetrar-me até ao coração. Eu adquirira uma certa experiência destes acessos perversos (cuja natureza singular expliquei com certa dificuldade), e lembrava-me muito bem de que, em caso algum, eu soubera resistir a esses vitoriosos ataques. E agora essa sugestão fortuita, vinda de mim próprio — de que eu pudesse ser bastante parvo para confessar o assassínio de que me tomara culpado —, acareava-me como a própria sombra daquele que eu tinha assassinado e chamava-me para a morte.

A princípio, fiz um esforço para sacudir esse pesadelo da alma. Pus-me a caminhar vigorosamente, mais depressa, sempre mais depressa; por fim, desatei a correr. Sentia um desejo embriagador de gritar com todas as forças. Cada onda sucessiva dos meus pensamentos dominava-me com um novo terror, pois — ai! — eu compreendia bem, muito bem, que pensar, na situação em que me encontrava, era o mesmo que perder-me. Acelerei mais o passo. Saltava como um louco pelas ruas apinhadas de gente. Por fim, a populaça alarmou-se e correu atrás de mim. Senti então que o meu destino se consumava. Se pudesse arrancar a língua, tê-lo-ia feito; mas aos ouvidos soou-me uma voz rude, e uma mão mais rude ainda agarrou-me pelos ombros. Voltei-me, abri a boca para respirar. Por momentos, senti todas as angústias da opressão; ceguei, fiquei surdo, embriagado: e então, um demónio invisível qualquer, pensei eu, bateu-me nas costas com a sua mão enorme. E o segredo, por tanto tempo aprisionado, libertou-se-me na alma.

Dizem que falei, que me denunciei muito claramente, mas com acentuada energia e ardente precipitação, como se estivesse com receio de ser interrompido antes de terminar as frases curtas, mas cheias de significado, que me entregavam ao carrasco e ao Inferno.

Depois de ter relatado tudo o que era necessário para a plena convicção da justiça, caí aniquilado, sem sentidos.

Para que dizer mais? Hoje, arrasto os grilhões, estou aqui! Amanhã, estarei livre! — Mas onde?

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