Pequena Discussão com uma Múmia – Edgar Allan Poe

By | 09/09/2021

O simpósio da noite precedente tinha-me estafado os nervos. Doía-me horrorosamente a cabeça, e eu caía de sono. Em lugar de passar a noite fora, como fazia tenção, pensei que era melhor jantar e meter-me imediatamente na cama.

Um jantar ligeiro, já se vê. Adoro os assados temperados com queijo, mas comer mais de uma libra de carne, à noite sobretudo, não é prudente. Todavia até ao número dois não pôde haver objeção material e, na realidade, entre dois e três não há senão a diferença de uma unidade. Aventurei-me talvez até quatro; minha mulher diz que foram cinco, mas evidentemente foi confusão de duas coisas bem distintas. O número abstrato cinco, estou disposto a admiti-lo; quanto ao concreto, só referindo-se às garrafas de Brown Stout, sem cujo adubo os assados com queijo são difíceis de digerir.

Acabada aquela refeição frugal, pus o meu barrete de dormir com a esperança serena de o gozar até ao dia seguinte ao meio dia, pelo menos; deitei a cabeça no travesseiro e, graças à tranquilidade de uma consciência irrepreensível, peguei imediatamente no sono.

Mas o homem põe e Deus dispõe.

Ainda não tinha entrado no meu primeiro sono quando uma furiosa campainhada retumbou à porta da rua, seguida de argoladas impacientes que me acordaram em sobressalto. Um minuto depois, minha mulher metia-me pelos olhos um bilhete do meu velho amigo, o doutor Ponnonner, que me dizia:

Largai tudo, meu caro amigo, e vinde a minha casa logo que tiverdes recebido esta. Vinde partilhar a nossa alegria. Enfim, graças a uma teimosa diplomacia, arranquei aos diretores do City Museum o consentimento para o exame da múmia (sabeis de que múmia quero falar). Tenho licença de a desenfaixar; de a abrir, até, se o julgar conveniente. Só assistirão meia dúzia de amigos; escusado é dizer que entrais no número. A múmia está já em minha casa. Começaremos a desembrulhá-la às onze horas da noite.
Vosso,
Ponnonner

Antes de chegar à assinatura, já o sono se me tinha ido embora. Saltei da cama num estado de verdadeiro delírio, empurrando tudo o que me caía debaixo das mãos; vesti-me com uma ligeireza milagrosa e dirigi-me sem mais demora a casa do doutor.

Aí achei reunida uma sociedade muito animada. Esperavam-me com grande impaciência para começar o exame da múmia, a qual estava já estendida sobre a mesa da casa de jantar.

Era uma das duas múmias que o capitão Arthur Sabretash, primo de Ponnonner, trouxera há alguns anos do túmulo de Eleitias, nas montanhas da Líbia, um pouco acima de Tebas, nas margens do Nilo. Naquele sítio, os túmulos, posto que menos ricos do que as sepulturas de Tebas, são muito mais interessantes, pelo que encerram maior número de personagens ilustres do mundo egípcio. A sala de onde havia sido tirado o nosso espécime passava por muito rica em documentos daquela natureza; as paredes eram completamente cobertas de pinturas a fresco e baixos relevos; numerosas estátuas, vasos e um mosaico de um desenho magnífico testemunhavam a enorme fortuna dos defuntos.

Aquela raridade havia sido depositada no Museum exatamente no mesmo estado em que o capitão Sabretash a encontrara; quer dizer que o caixão estava ainda intacto.

Durante oito anos ficara assim exposta à curiosidade pública só pelo lado exterior. Tínhamos pois a múmia completa. Quem sabe quão raro é ver chegar aos nossos países essas antiguidades preciosas avaliará se tínhamos ou não razão de nos felicitar.

Aproximando-me da mesa vi uma espécie de arca grande, oblonga, mas não em forma de esquife; talvez com sete pés de comprido, dois e meio de profundidade e pouco mais ou menos três de largo. A princípio cuidámos que era de pau de sicómoro, mas cortando-a reconhecemos que era de cartão ou mais propriamente de uma massa dura feita de papiro. As pinturas grosseiras, que a decoravam, representavam cenas fúnebres e diversos assuntos lúgubres, entre os quais serpenteava uma sementeira de carateres hieroglíficos dispostos em todos os sentidos, significando evidentemente o nome do defunto. Por felicidade, estava ali M. Oliddon, que nos traduziu, sem dificuldade, os sinais, que eram simplesmente fónicos e compunham a palavra Allamistakeo.

Tivemos algum trabalho para abrir a caixa sem a estragar; e quando chegámos a consegui-lo, encontrámos uma segunda, essa então em forma de esquife e de umas dimensões muito menores do que a caixa exterior. No resto era exatamente semelhante. O intervalo entre as duas estava cheio de resina, que tinha até certo ponto deteriorado as cores da caixa interior.

Depois de termos aberto esta (o que fizemos com facilidade) chegámos a uma terceira, igualmente em forma de esquife, não diferindo da segunda senão na matéria, que era cedro e exalava ainda o perfume fortemente aromático característico desta madeira. Entre a segunda e a terceira caixa não havia intervalo, esta adaptando-se exatamente àquela.

Desfazendo a terceira caixa descobrimos finalmente o corpo. Esperávamos encontra-lo como o costume, envolvido em faixas ou ataduras de linho, mas em lugar disso achámos uma espécie de bainha feita de papiro e revestida com uma camada de gesso grosseiramente pintada. As pinturas tinham por assunto principal os supostos deveres da alma no outro mundo e a sua apresentação às diferentes divindades. Depois, uma quantidade de figuras humanas, provavelmente retratos de família. Da cabeça aos pés estendia-se uma inscrição vertical em hieróglifos fónicos dizendo outra vez o nome e os títulos do defunto e os nomes e os títulos dos pais.

Tirámos o corpo da bainha. À roda do pescoço tinha um colar formado por pedaços de vidro cilíndricos de diferentes cores, figurando imagens de divindades, entre outras a imagem do Escaravelho com o globo alado. A cintura era adornada por um cinto semelhante.

As carnes estavam perfeitamente conservadas e sem cheiro sensível. A cor era avermelhada; a pele rija, lisa e brilhante. Os dentes e os cabelos pareciam em bom estado. Os olhos (pelo menos assim se nos afigurou) tinham sido tirados e substituídos por olhos de vidro muito bonitos, imitando maravilhosamente a vida, salvo a fixidez demasiado pronunciada. Os dedos e as unhas estavam brilhantemente dourados.

Da cor avermelhada da epiderme, M. Gliddon inferiu que o embalsamamento havia sido praticado unicamente com asfalto, mas tendo rapado a superfície com um instrumento de aço e lançado ao fogo o pó assim obtido sentimos exalar-se um perfume de cânfora e de outras substâncias aromáticas.

Examinámos cuidadosamente o corpo para descobrir as incisões habituais por onde se extraem as entranhas, mas, com grande surpresa nossa, não descobrimos vestígios de incisão. Nesse tempo, nenhum de nós sabia ainda que não é raro encontrar múmias inteiras e não incisadas.

Ordinariamente o cerebelo despejava-se pelo nariz; os intestinos por uma incisão que se abria no flanco. O corpo era então rapado, lavado e salgado. Deixava-se assim durante algumas semanas, depois começava propriamente a operação do embalsamamento.

Como não se podia achar vestígio algum de abertura, o doutor Fonnonner preparava os instrumentos de dissecação quando eu fiz observar que já passava das duas horas.

Perante isto, concordámos em adiar o exame interior para a noite seguinte. Íamos já a separar-nos quando alguém se saiu com a ideia de fazer uma ou duas experiências com a pilha de Volta.

A aplicação da eletricidade a uma múmia de pelo menos três ou quatro mil anos era uma ideia pouco sensata, mas bastante original.

A fim de executarmos esse belo projeto, no qual entrava um décimo de seriedade e nove bons décimos de brincadeira, dispusemos uma bateria elétrica no gabinete do doutor e transportámos para lá o egípcio.

Não foi sem grandes esforços que chegámos a pôr a nu uma parte do músculo temporal, que parecia estar um pouco menos rijo do que o resto do corpo, mas que, naturalmente, como já esperávamos, não deu o mínimo indício de suscetibilidade galvânica quando o pusemos em contacto com o fio. Esta primeira experiência pareceu-nos decisiva. Rindo de boa vontade do nosso próprio absurdo, despedimo-nos e íamos a retirar, mas olhando casualmente para a múmia descobri nos seus olhos alguma coisa que me obrigou a observá-la atentamente. Os globos que tínhamos julgado ser de vidro e que primitivamente se distinguiam por uma fixidez singular estavam agora tão bem fechados dentro das pálpebras que apenas deixavam ver uma pequena parte da túnica albugínea.

Àquela descoberta soltei um grito de espanto que chamou a atenção dos meus colegas para o facto, que se tornou evidente para todos.

Não direi que ficasse assustado com o fenómeno, porque a palavra assustado não era precisamente a palavra correta. Contudo, pode ser que, sem a minha provisão de Brown Stout, talvez me tivesse sentido ligeiramente inquieto. Quanto às outras pessoas da sociedade, nem mesmo pensaram em esconder o seu terror. O doutor Ponnonner metia dó; M. Grliddon, não sei por que processo particular, havia-se tornado invisível; M. Silk Buckingham, esse, creio que não terá a audácia de negar que se meteu debaixo da mesa.

Passado o primeiro abalo de espanto, resolvemos tentar imediatamente nova experiência. As nossas operações foram então dirigidas ao artelho do pé direito. Fizemos um golpe acima da região do osso sesamoideum pollicis pedis até encontrarmos o músculo abdutor. Aplicámos de novo o fluido aos nervos descobertos e eis senão que a múmia, com um movimento mais vivo do que a própria vida, levantou o joelho à altura do abdómen; depois, endireitando a perna com uma força inconcebível, atirou um pontapé ao doutor Ponnonner e projetou- o pela janela com a velocidade de um projétil de catapulta.

Precipitámo-nos em massa para a rua a fim de recolher os restos mutilados do desgraçado gentleman, mas tivemos a felicidade de o encontrar já na escada, subindo com uma ligeireza extraordinária, fervendo em ardor filosófico e mais que nunca convencido da necessidade de prosseguirmos as nossas experiências com todo o zelo e rigor.

Foi pelo seu conselho e vontade que fizemos imediatamente ao egípcio uma profunda incisão na ponta do nariz. Então o doutor, deitando-lhe a mão com energia, esmurrou-o violentamente de encontro ao fio metálico.

Moral e fisicamente, metafórica e literalmente, o efeito foi elétrico. Primeiro, o cadáver abriu os olhos, piscando-os com mágica celeridade; depois espirrou; em seguida sentou-se; então cerrou os punhos e aproximou-os do nariz de M. Ponnonner; por fim, voltando-se para M. Gliddon e Buckingham, dirigiu- lhes num egípcio puro o discurso seguinte:

– Devo dizer-vos, gentlemen, que estou tão magoado como surpreendido com a vossa conduta. Da parte do doutor Ponnonner não havia mais que esperar. É um pobre toleirão que nada sabe de coisa nenhuma. Tenho pena dele, coitado, e por isso perdoo-lhe. Mas vós, Mister Gliddon, e principalmente vós, Silk, que residistes tanto tempo no Egito a ponto de parecerdes ter nascido nas nossas terras, que vivestes connosco e aprendestes a falar a nossa língua como a vossa própria… vós, que eu me tinha habituado a considerar como o amigo mais fiel das múmias… de vós, digo, esperava uma conduta mais correta. Que devo pensar da vossa impassível tranquilidade ao ver-me tratado de semelhante modo? Que devo supor quando permitis a Pedro e a Paulo de me despojar dos meus esquifes e das minhas vestes para me expor a este inóspito clima gélido? Debaixo de que ponto de vista devo, enfim, considerar a vossa ação de ajudar e incitar este miserável velhaco do doutor Ponnonner a puxar-me pelo nariz?

A maior parte das pessoas vão pensar agora que, ao ouvir semelhante discurso, cada um de nós enfiou pela porta ou que tivemos ataques de nervos, ou ainda que desmaiámos. Todas estas coisas eram prováveis e todas elas bons caminhos a seguir, pelo que nem sei como não seguimos nenhum deles. Talvez a razão esteja no espírito do século, que procede segundo a lei dos contrários, considerada como solução de todas as antinomias e como fusão de todos os contraditórios. Ou talvez, no fim de contas, fosse unicamente porque as maneiras naturais e familiares da múmia tirassem às suas palavras todo o poder aterrador. Fosse lá por que fosse, os factos são que nem um dos membros da sociedade mostrou medo ou pareceu acreditar que se tivesse passado ali algo de anormal.

Quanto a mim, convencido de que tudo aquilo era muito natural, não fiz mais do que desviar-me um pouco do alcance da mão do egípcio. O doutor Ponnonner meteu as mãos nas algibeiras, olhou para a múmia com um ar de despeito e fez-se vermelho como um pimentão. M. Gliddon ora puxava o bigode, ora ajeitava o colarinho. M. Buckingham baixou a cabeça e começou a roer as unhas da mão direita.

O egípcio olhou para ele durante alguns minutos, com um rosto severo, e por fim disse-lhe em ar de chacota:

– Então, Buckingham, ficais calado? Não ouvistes a minha pergunta?

Vamos, homem, tira lá os dedos da boca!

Àquelas palavras, Buckingham estremeceu, tirou da boca os dedos da mão direita, mas em compensação meteu os da esquerda na sobredita.

Não podendo obter resposta de Buckingham, a múmia voltou-se para M. Gliddon com mau humor e perguntou-lhe num tom azedo o que queriam dela.

M. Gliddon respondeu em fónico, e se não fosse a ausência dos carateres hieroglíficos nas imprensas americanas teria muito gosto de transcrever integralmente e em língua original o seu excelente speech.

Cabe agora dizer que toda a conversação subsequente na qual a múmia tomou parte foi dita em egípcio primitivo, com M. Gliddon e Buckingham servindo de intérpretes para mim e para as demais pessoas da sociedade. Aqueles senhores falavam a língua da múmia com uma graça e uma fluência admiráveis. Mas havia uma coisa notável: os dois viajantes (sem dúvida por causa da introdução das imagens modernas, perfeitamente novas para a múmia) viam-se às vezes obrigados a empregar formas sensíveis para se fazerem entender por aquele espírito de outro século. Por exemplo, uma vez M. Gliddon, não podendo fazer compreender ao egípcio a palavra Política, lembrou-se, com muita felicidade, de desenhar na parede, com um pedaço de carvão, um homenzito em cima de um pedestal, com a perna esquerda esticada para trás, o braço direito esticado, o punho cerrado, os olhos convulsivamente arregalados para o céu e a boca aberta num ângulo de noventa graus.

Da mesma forma, M. Buckingham nunca teria chegado a traduzir-lhe a palavra absolutamente moderna wig (peruca) se M. Ponnonner não lhe tivesse sugerido a ideia de tirar a sua, ao que ele anuiu, não sem alguma repugnância.

Como era natural, o discurso de M. Gliddon versou principalmente sobre os benefícios enormes que a ciência podia tirar das investigações sobre as múmias, desculpando-se assim dos incómodos que lhe tínhamos causado a ela, a múmia Allamistakeo. Concluindo (isto foi só uma insinuação) que, visto que todas as questões estavam agora esclarecidas, podia proceder-se ao exame projetado. Neste ponto o doutor Ponnonner preparou os aparelhos.

Mas sobre esta última sugestão do orador, parece que Allamistakeo tinha os seus escrúpulos de consciência. Quanto ao resto mostrou-se muito satisfeito com a nossa justificação e, descendo da mesa, veio dar um aperto de mão a cada um. Acabada aquela cerimónia, tratámos imediatamente de reparar os danos produzidos pelo escalpelo na pele de Allamistakeo. Cozemos-lhe a ferida da fonte, ligámos-lhe o pé e pregámos-lhe um quadradinho de tafetá preto na ponta do nariz.

Tendo reparado que o conde (tal era ao que parece o título de Allamistakeo) estremecia de vez em quando (por estranhar o clima, indubitavelmente), o doutor foi logo ao seu guarda-roupa buscar um fato feito no melhor alfaiate, umas calças de lã azul celeste, um colete branco de brocado magnífico, uma camisa de bretanha finíssima, umas botas de polimento, um chapéu alto, uma gravata, um par de luvas amarelas, uma bengala e um lorgnon. Vimo-nos algum tanto embaraçados para adaptar os fatos do doutor ao corpo do egípcio, porque as suas diferenças de tamanho estava na razão de um para dois; mas por fim, quando acabámos de o arranjar, pode-se dizer que estava bem vestido.

M. Gliddon deu-lhe então o braço, conduzindo-o para um sofá, junto ao fogão, enquanto o doutor mandava vir vinho e charutos.

A conversação animou-se. Primeiro houve uma grande curiosidade relativamente ao facto de Allamistakeo estar vivo.

– Pensava — disse Buckingham — que tínheis morrido há imenso tempo!

– Como assim? — replicou o conde muito admirado. — Tenho apenas setecentos anos. Meu pai quando morreu contava mil e ainda era um homem válido.

Seguiu-se uma série de perguntas e de cálculos pelos quais se veio a descobrir que a antiguidade da múmia tinha sido muito erradamente avaliada. Havia cinco mil e cinquenta anos que ela jazia nas catacumbas de Eleitias.

M. Buckingham continuou:

– Não me referia à idade que tínheis quando vos enterraram (basta ver- vos para saber que sois um rapaz); queria falar da imensidade do tempo durante o qual, segundo o vosso próprio testemunho, estivestes de conserva no asfalto.

– No quê? — diz o conde.

– No asfalto.

– Ah! sim, parece-me que sei o que quereis dizer. Com efeito isso poderia talvez dar o mesmo resultado, mas no meu tempo não se empregava senão o bicloreto de mercúrio.

– O que deveras nos custa a acreditar — disse o doutor Ponnonner — é que tendo morrido e sendo enterrado há cinco mil anos, no Egito, estejais hoje perfeitamente vivo e com um ar extremamente saudável.

– Se tivesse morrido nessa época, como dizeis — replicou o conde — é provável que morto me tivesse deixado ficar, pois vejo que estais ainda muito atrasados no galvanismo para poder executar, por meio desse agente, uma coisa que nos tempos antigos era absolutamente vulgar. Mas o facto é que eu tinha caído em catalepsia e que os meus amigos, julgando-me morto, mandaram-me embalsamar. Creio que conheceis o princípio fundamental do embalsamamento…

– Não, não conhecemos.

– Ah! deplorável condição a da ignorância! Não posso agora entrar em detalhes sobre o assunto, mas é indispensável explicar-vos que, no Egito, o que se chamava propriamente embalsamar era suspender indefinidamente todas as funções animais submetidas ao processo. Sirvo-me do termo animal no seu sentido mais vasto, compreendendo tanto o ser moral e vital como o ser físico. Repito que o princípio fundamental do embalsamamento consistia, entre nós, em parar imediatamente e suspender para sempre todas as funções animais submetidas ao processo. Em resumo, o estado em que o indivíduo se achava, na ocasião do embalsamamento, era o estado em que ficava perpetuamente. Agora, como gozo do privilégio de ter nas veias sangue de Escaravelho, é por isso que fui embalsamado vivo, tal como me vedes presentemente.

– Sangue de Escaravelho! — exclamou o doutor Ponnonner.

– Sim. O Escaravelho era o emblema, o brasão de uma família nobre, muito distinta e pouco numerosa. Ter nas veias sangue de Escaravelho é simplesmente pertencer à família que tem por emblema o Escaravelho. Falo figurativamente.

– Mas que relação tem isso com o facto da vossa existência atual?

– Esperai. Era costume geral, no Egito, tirar o cerebelo e as entranhas ao cadáver antes de o embalsamar; só a raça dos Escaravelhos era isenta dessa regra. Por conseguinte, se eu não fosse um Escaravelho, ter-me-iam privado do cérebro e dos intestinos, e então teria morrido, porque sem estas duas vísceras não deve ser lá muito cómodo viver.

– Compreendo — disse M. Buckingham. — Então todas as múmias que nos chegam inteiras são provavelmente da raça dos Escaravelhos?

– Sem dúvida nenhuma.

– Julgava — diz M. Gliddon, a medo — que o Escaravelho era um dos Deuses Egípcios.

– Um dos quê Egípcios? — exclamou a múmia, levantando-se num pulo.

– Um dos Deuses — repetiu o viajante.

– Mister Gliddon, pasmo, realmente, de vos ouvir falar assim — disse o conde, tornando a sentar-se. — Nunca nenhuma nação do mundo reconheceu mais de um Deus. O Escaravelho, a íbis, etc., eram entre nós, o que outras criaturas são entre as outras nações; isto é, intermediários pelo meio dos quais prestávamos culto ao Criador, muito augusto para comunicar diretamente com os homens.

Aqui houve uma pausa. Por fim M. Ponnonner provocou outra vez a conversação.

– Não é pois improvável, segundo as vossas explicações — disse ele — que existam nas catacumbas próximas ao Nilo outras múmias da raça do Escaravelho, em semelhantes condições de vitalidade.

– Decerto — replicou o conde. — Todos os Escaravelhos, que por acaso foram embalsamados vivos, estão ainda vivos. Talvez até que algum dos que foram assim embalsamados de propósito tenham sido esquecidos pelos seus herdeiros e estejam ainda encerrados nos túmulos.

– Tende a bondade de nos explicar — disse-lhe eu — o que quer dizer embalsamados de propósito?

– Com o maior prazer — disse a múmia depois de ter olhado para mim atentamente, através do seu lorgnon, porque era a primeira vez que me atrevia a dirigir-lhe a palavra — com o maior prazer. A duração da vida humana, no meu tempo, regulava aí por oitocentos anos. Salvo algum acidente extraordinário, poucos homens morriam antes dos seiscentos anos, muito poucos viviam mais de dez séculos; oito séculos eram pois considerados como a vida natural. Depois da descoberta do embalsamamento, tal como vo-lo expliquei, lembraram-se os nossos filósofos que se poderia satisfazer uma curiosidade louvável e ao mesmo tempo servir consideravelmente os interesses da ciência dividindo a duração da vida natural e vivendo-a por vezes. Relativamente à ciência histórica, esta ideia deu grandes resultados. Um historiador, por exemplo, aos cinquenta anos, escrevia um livro com o máximo cuidado. Depois mandava-se embalsamar convenientemente, deixando dito aos seus herdeiros pro tempore que o ressuscitassem passado um certo tempo (supomos quinhentos ou seiscentos anos). Quando voltava à vida, depois daquele prazo, achava invariavelmente a sua grande obra convertida numa espécie de caderno de notas acumuladas ao acaso, quer dizer, numa espécie de arena literária aberta às conjeturas contraditórias e às disputas pessoais de inúmeros bandos de comentadores desesperados. Essas conjeturas, esses enigmas que vinham debaixo do nome de anotações ou correções, tinham tão completamente envolvido, torturado, esmagado o texto que o autor via-se aflito para descobrir o seu próprio livro no meio de toda aquela confusão. Mas uma vez descoberto, o pobre livro não valia nunca o trabalho que o autor tivera para o achar. Depois de o tornar a escrever do princípio ao fim, havia ainda um trabalho para o historiador, um dever imperioso: era corrigir, segundo a sua ciência e experiência pessoais, as tradições do dia com respeito à época em que tinha vivido primitivamente. Ora este processo continuado de tempos a tempos por diversos sábios tinha como resultado impedir a história de degenerar em pura fábula.

– Perdão — disse o doutor pousando ligeiramente a mão no braço do Egípcio — perdão. Permitis que vos interrompa?

– Pois claro, senhor — replicou o conde afastando-se um pouco.

– Nesse caso — continuou o doutor — visto que há pelo menos cinco mil anos que fostes enterrado, os vossos anais ou tradições nessa época deviam ser suficientemente explícitos acerca de um assunto de interesse universal, a Criação, que teve lugar, como sabeis indubitavelmente, só dez séculos antes, ou pouco mais.

– Desculpe? — perguntou Allamistakeo.

O doutor repetiu a sua observação, mas só depois de muitas explicações adicionais é que chegou a fazer-se entender pelo estrangeiro. Por fim, o conde disse:

– Confesso que essas ideias são inteiramente novas para mim. No meu tempo nunca ninguém se lembrou de supor que o universo pudesse jamais ter tido começo. Lembro-me de que uma vez, mas apenas uma vez, houve um homem de grande saber que me falou de uma tradição vaga acerca da origem da raça humana. Esse homem servia-se também da palavra Adão ou barro. Mas empregava-a num sentido genérico, significando a germinação espontânea de cinco grandes hordas de homens, brotando simultaneamente do lodo (tal como um milheiro de animálculos) nas cinco partes distintas do globo.

Àquelas palavras, encolhemos os ombros, acotovelando-nos simultaneamente uns aos outros com um ar muito significativo. M. Silk Buckingham, volvendo os olhos primeiro para o occipício, depois para o sincipúcio de Allamistakeo, tomou a palavra nestes termos:

– A longevidade humana no vosso tempo, juntamente com esse sistema de viver por vezes que acabais de nos explicar, deveria ter ajudado imenso no desenvolvimento geral e na acumulação dos conhecimentos. Não podemos pois atribuir a inferioridade dos antigos Egípcios, em todos os ramos da ciência, quando os comparamos com os modernos e muito especialmente com os Yankees, senão à espessura mais considerável dos seus crânios.

– Confesso outra vez — replicou o conde, com uma perfeita urbanidade — que não vos entendo bem. Tende a bondade de me dizer a que ramos da ciência vos referis.

Com uma voz unânime, toda a sociedade citou, por exemplo, as afirmações da frenologia e as maravilhas do magnetismo animal.

Tendo-nos ouvido até ao fim, o conde começou a contar algumas anedotas que provavam evidentemente que os protótipos de Gall e de Spurzheim tinham florescido no Egito, mas numa época da qual já não havia lembrança, e que os processos de Mesmer eram miseráveis charlatanices em comparação com os milagres operados pelos sábios de Tebas, os quais chegavam a fazer pulgas e muitos outros seres semelhantes.

Então perguntei-lhe se os seus compatriotas sabiam calcular os eclipses. O conde sorriu com ar desdenhoso e respondeu-me que sim.

Fiquei um pouco atrapalhado. Contudo, comecei a fazer-lhe várias perguntas acerca dos seus conhecimentos astronómicos quando alguém da sociedade, que ainda não tinha aberto a boca, me soprou ao ouvido que se eu tinha dúvidas àquele respeito seria melhor consultar um certo cavalheiro chamado Ptolomeu ou ler o artigo De facie lunae, de Plutarco.

Interroguei então a múmia sobre os espelhos ardentes e lenticulares, em geral sobre a fabricação do vidro. Mas ainda nem tinha acabado as minhas perguntas que já o camarada silencioso me acotovelava ligeiramente e me pedia, pelo amor de Deus, que desse uma vista de olhos a Diodoro da Sicília. Quanto ao conde, em vez de responder, perguntou-me se possuíamos microscópios que nos permitissem gravar o ónix com a perfeição dos Egípcios.

Enquanto eu procurava resposta para aquela pergunta, o pequeno doutor Ponnonner aventurou-se numa via deveras extraordinária.

– Vede a nossa arquitetura! — exclamou com grande indignação dos dois viajantes, que o beliscavam furiosamente sem conseguir fazê-lo calar. — Ide ver – exclamava no auge do entusiasmo — a fonte do jogo da bola em Nova Iorque! Ou, se achais isso demasiado imponente, olhai um instante para o Capitólio em Washington.

E o bom do doutor chegou até a referir minuciosamente as proporções do edifício, explicando que só o pórtico não tinha menos de vinte e quatro colunas, cada uma com cinco pés de diâmetro, situadas a dez pés de distância umas das outras.

Respondeu o conde que tinha pena de não se poder lembrar, naquele momento, das dimensões precisas de nenhum dos edifícios da cidade Aznac, cuja fundação se perdia na noite dos séculos, mas cujas ruínas se viam ainda, na época do seu enterro, numa vasta planície de areia a oeste de Tebas. A propósito de pórticos, lembrava-se contudo de ter visto o de um palácio secundário numa espécie de aldeia chamada Carnac, que era formado por cento e quarenta e quatro colunas, cada uma com trinta e sete pés de circunferência, colocadas à distância de vinte e cinco pés uma das outras. Esse pórtico comunicava com o Nilo por uma avenida de duas milhas de comprimento, sustentada por esfinges, estátuas e obeliscos de sessenta a cem pés de altura. O próprio palácio, se bem se lembrava, tinha, só numa direção, duas milhas de comprimento e podia ter ao todo sete milhas de circuito. As paredes eram ricamente adornadas, tanto por fora como por dentro, de pinturas hieroglíficas. Ele não pretendia afirmar que naquele palácio se pudessem construir cinquenta ou sessenta capitólios, mas sim uns duzentos ou trezentos.

Por fim, terminou dizendo que o palácio de Carnac não passava de uma construção insignificante e que, não podendo deixar de fazer justiça ao estilo engenhoso, à magnificência e superioridade da fonte do jogo da bola, tal como o doutor a descrevia, confessava que nunca tinha visto nada semelhante, nem no Egito nem noutra parte.

Perguntei então ao conde o que pensava dos nossos caminhos de ferro.

– Não lhe vejo nada de particular — disse ele. — Acho-os pequenos, fracos e bastante mal imaginados. Não podem comparar-se de modo nenhum com os vastos comboios egípcios, horizontais e diretos, os quais transportavam templos inteiros e obeliscos maciços de cento e cinquenta pés de altura.

Falando-lhe das nossas gigantescas forças mecânicas, concordou que não éramos de todo leigos na matéria, mas perguntou-me ao mesmo tempo como nos teríamos arranjado para colocar as ombreiras no palácio mais pequeno de Carnac.

Fingi não ouvir aquela pergunta e interroguei-o sobre os poços artesianos, ao que ele não fez mais do que erguer as sobrancelhas, ao passo que M. Gliddon me piscava um olho, dizendo-me em voz baixa que os engenheiros encarregados de furar o terreno para levar água ao Grande Oásis tinham descoberto um recentemente.

Falei-lhe os nossos aços, ao que o estrangeiro redarguiu, perguntando-me se o nosso aço teria podido executar esculturas tão vivas e tão perfeitas como as que adornam os obeliscos, as quais haviam sido trabalhadas com utensílios de cobre.

Para disfarçar o embaraço em que nos lançou aquela interrogação, achámos por bem mudar o tema para a metafísica.
Mandámos buscar um exemplar do Dial e lemos alguns capítulos sobre um assunto, assaz obscuro, que os povos de Boston definem como O Grande Movimento ou Progresso.

O conde disse apenas que, no seu tempo, os grandes movimentos eram acidentes terrivelmente comuns e que, quanto ao progresso, esse havia sido durante longos anos uma verdadeira calamidade, mas que felizmente nunca chegara a progredir.

Falámos-lhe então da grande beleza e da importância da Democracia, mas custou-nos fazer-lhe entender a natureza positiva das vantagens de que gozávamos num país onde não havia rei e onde o voto era ad libitum.

O conde escutou o nosso discurso até ao fim com um interesse visível, parecendo realmente gostar de nos ouvir. Quando acabámos disse que na sua terra se havia passado, em tempos muito remotos, uma coisa perfeitamente semelhante. Trezentas províncias egípcias resolveram de repente ser livres, dando assim um grande exemplo ao resto da humanidade. Reuniram os seus sábios e fabricaram a constituição mais engenhosa que se pode imaginar. Durante algum tempo, tudo foi pelo melhor; por fim, a coisa acabou da seguinte maneira: os treze estados da sociedade, com umas quinze ou vinte outras províncias, consolidaram-se no despotismo mais odioso e mais insuportável de que se tenha jamais ouvido falar à superfície da terra. Perguntei-lhe o nome do tirano usurpador; respondeu-me o egípcio que, se a memória lhe não falhava, esse tirano era a Turba.

Não sabendo já o que lhe havia de dizer, deplorei a ignorância dos egípcios relativamente ao vapor. O conde pôs-se a olhar para mim muito admirado, sem dizer palavra. O gentleman silencioso deu-me uma furiosa cotovelada nas costas, perguntando-me se eu tinha realmente a ingenuidade de ignorar que a máquina a vapor moderna descendia da invenção de Hero, sem falar em Salomão de Caus.

Estávamos decididamente em grande perigo de derrota quando o doutor Ponnonner, aproximando-se da múmia com um aspeto grave e profundamente digno, lhe pediu para dizer com toda a verdade se os egípcios de qualquer época tinham alguma vez conhecido as pastilhas Ponnonner.

Esperámos a resposta com indizível ansiedade, mas em vão. A resposta não veio! O egípcio corou até às orelhas e baixou a cabeça. Nunca houve um triunfo tão completo nem uma derrota sofrida com mais despeito.

Não podendo suportar o espetáculo da humilhação da pobre múmia, peguei no chapéu, cumprimentei-a com um certo embaraço e saí.

Quando entrei em casa vi que passava das quatro horas; meti-me imediatamente na cama. Agora são dez horas da manhã. Desde as sete que estou levantado, escrevendo estas notas para instrução da minha família e proveito de toda a humanidade. Quanto à primeira jamais a tornarei a ver. Minha mulher é uma megera. A verdade é que esta vida e em geral todo o décimo nono século me metem nojo. Estou convencido de que tudo anda às avessas. Além disso, tenho imensa curiosidade de saber quem será eleito presidente no ano de 2045. Por todas estas razões, assim que tiver feito a barba e tomado o meu café, parto para casa do doutor Ponnonner a fim de me fazer embalsamar durante alguns séculos.

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