Rip Van Winkle – Washington Irving

By | 08/09/2021

Quem quer que tenha subido pelo rio Hudson deve lembrar-se das montanhas Kaatskill, que se avistam ao longe. Cada mudança de estação e de tempo e cada hora do dia provocam alguma mudança nas cores e nos contornos mágicos dessas montanhas. Todas as boas esposas da região as tomam como barômetros, pois, de acordo com sua aparência, conseguem prever o tempo.

Ao pé dessas belas montanhas, o viajante pode avistar fumaça se erguendo lentamente de uma aldeia cujos telhados brilham por entre as árvores. É uma aldeia muito antiga, que foi fundada por algum colonizador holandês.

Nessa aldeia e em uma dessas casas (que, a bem da verdade, eram muito antigas e castigadas pelo mau tempo), vivia, há muitos anos, quando os Estados Unidos ainda eram uma província da Grã-Bretanha, um homem simples e bom chamado Rip Van Winkle.

Era um vizinho exemplar e um marido obediente, completamente dominado pela mulher. Certamente devia a essa última circunstância a brandura de alma que lhe conquistava uma popularidade geral, pois são mais aptos a serem dóceis e conciliadores fora, esses homens que estão sob a disciplina de uma víbora dentro de casa.

Rip Van Winkle era o grande favorito entre todas as boas esposas da aldeia; as crianças também gritavam de alegria sempre que ele se aproximava. Assistia a seus jogos, fabricava seus brinquedos, ensinava-lhes a soltar pipa e atirar bolinhas de gude e lhes contava longas histórias de fantasmas, bruxas e índios. Aonde quer que ele fosse, era cercado por um bando deles, pendurando-se nas suas roupas, subindo às suas costas e lhe pregando mil peças impunemente. Nem um cachorro sequer, em toda a redondeza, latia para ele.

O grande defeito de caráter de Rip era uma insuperável aversão a qualquer tipo de trabalho útil. Não era falta de assiduidade ou perseverança, pois ele seria capaz de sentar numa rocha úmida, com uma vara, e ficar pescando o dia todo, sem uma queixa, mesmo que sua isca não fosse mordida nem uma só vez.

Carregaria ao ombro sua espingarda por horas seguidas, caminhando por bosques e pântanos, subindo e descendo morros, para atirar em alguns poucos esquilos ou pombas selvagens. Jamais se recusaria a ajudar um vizinho, mesmo nas tarefas mais duras. As mulheres da aldeia, também, tinham o costume de recorrer a ele para pequenos serviços que seus maridos menos prestativos não fariam por elas. Numa palavra, Rip estava sempre pronto para cuidar dos negócios de quem quer que fosse, exceto dos dele próprio. Mas cumprir os deveres para com a família e manter sua fazenda em ordem, ele achava impossível.

De fato, dizia que não adiantava nada trabalhar em sua fazenda: era o pior pedaço de terra de toda a região. Tudo ali dava errado e daria errado apesar dele. Suas cercas estavam sempre caindo aos pedaços; sua vaca sempre se perdia ou ia parar na plantação de couve. A erva-daninha certamente crescia mais rápido em suas terras do que em nenhum outro lugar. A chuva fazia questão de cair exatamente quando ele tinha algum trabalho para fazer ao ar livre. Assim, a propriedade que herdara do pai, diminuindo até ficar reduzida a pouco mais que um simples terreno com milho e batatas, era a fazenda em piores condições de toda a redondeza.

Seus filhos também andavam maltrapilhos e selvagens como se não tivessem pais. Seu filho Rip, um moleque igualzinho a ele, fazia prever que ia herdar-lhe os hábitos, junto com as suas roupas velhas. Viam-no geralmente correndo como um potro atrás da mãe, vestido com um velho par de calças do pai, que ele tinha muita dificuldade em segurar com uma mão.

Rip Van Winkle, porém, era um desses felizes mortais bemhumorados, sempre de bem com a vida, comendo pão branco ou preto: o que se pudesse conseguir com menor esforço ou dificuldade. Preferia definhar com um centavo a trabalhar por uma libra. Se deixado a si mesmo, ele teria passado a vida a assobiar, com perfeita satisfação; mas sua mulher vivia resmungando nos seus ouvidos sobre sua preguiça, sua negligência e a ruína a que ele estava levando sua família. De manhã, à tarde e à noite, sua língua estava em ação sem trégua, reclamando de tudo o que ele dizia ou fazia. Rip só tinha um modo de responder: encolhia os ombros, balançava a cabeça, erguia os olhos, mas não dizia nada. Isso, porém, provocava uma nova enxurrada de queixas e só lhe restava, então, ir para fora de casa — o único lugar que realmente pertence a um marido dominado pela esposa.

O único a tomar partido de Rip em seu lar era seu cachorro Wolf, tão tiranizado pela Senhora Van Winkle quanto seu dono, pois aquela os via como companheiros de preguiça e olhava torto para Wolf como se ele fosse a causa das perambulagens freqüentes do marido. A verdade é que Wolf era, sob todos os aspectos, um cachorro digno; era corajoso — mas que coragem podia enfrentar os constantes e esmagadores ataques de uma língua de mulher? Assim que Wolf entrava na casa, baixava a crista, com o rabo entre as pernas, olhando atentamente para a senhora Van Winkle. Ao primeiro sacudir de um cabo de vassoura ou de uma concha, saía correndo para a porta, latindo.

Foi ficando pior para Rip Van Winkle com o passar dos anos de casamento. Um temperamento azedo jamais se abranda com o tempo, e uma língua afiada é o único instrumento cortante que se torna mais agudo com o uso constante. Por muito tempo, ele costumava consolar-se, ao ser expulso de casa, freqüentando uma espécie de clube dos sábios, filósofos e outros personagens preguiçosos da aldeia. Suas sessões ocorriam num banco na frente de uma pequena pousada. Ali costumavam se sentar à sombra, durante um longo e preguiçoso dia de verão, conversando distraidamente sobre mexericos da aldeia ou contando histórias intermináveis e tediosas sobre coisa nenhuma. Se lhes caía nas mãos algum jornal deixado por um viajante de passagem, era lido arrastadamente por Derrick Van Bummel, o mestre-escola, um homenzinho vivo e instruído, que não se deixava assustar pela palavra mais gigantesca do dicionário. Como deliberavam sabiamente sobre acontecimentos públicos alguns meses depois que eles tinham ocorrido!

As opiniões dessa liga eram totalmente controladas por Nicholas Vedder, um patriarca da aldeia e dono da pousada, a cuja porta ele permanecia sentado de manhã até a noite, só se movendo para evitar o sol e continuar sob a sombra de uma grande árvore.

Assim, os vizinhos podiam saber que horas eram a partir de seus movimentos, de uma forma tão precisa quanto consultando um relógio de sol. É verdade que raramente escutavam-no a falar, mas fumava seu cachimbo sem parar. Seus partidários, porém, compreendiam-no perfeitamente o que ia pela sua cabeça, de acordo com o modo como ele fumava.

Mas até mesmo desse refúgio o desafortunado Rip foi por fim expulso pela megera da sua esposa, que irrompeu de repente na tranqüilidade da assembléia e chamou todos os seus membros de inúteis. Nem aquela venerável personagem, o próprio Nicholas Vedder, foi poupado da língua atrevida dessa terrível víbora, que o acusava de encorajar os hábitos preguiçosos do marido.

O pobre Rip se viu por fim quase reduzido ao desespero; e sua única alternativa para escapar do trabalho da fazenda e da gritaria da mulher era pegar sua espingarda e perambular pelas florestas. Aqui ele algumas vezes se sentava ao pé de uma árvore e dividia o conteúdo de sua bolsa com Wolf, com quem simpatizava como um companheiro de sofrimento. “Pobre Wolf”, dizia, “sua dona dá a você uma vida de cão, mas não se preocupe, meu amigo: enquanto eu viver, você nunca sentirá falta de um companheiro para ficar a seu lado!” Wolf abanava o rabo, olhava atentamente para o rosto do seu dono e, se cães podem sentir piedade, eu acredito realmente que ele demonstrava os mesmos sentimentos do dono com todo seu coração.

Numa dessas longas andanças, num belo dia de outono, tinha escalado, sem dar por isso, uma das partes mais altas das montanhas Kaatskill. Estava entretido em seu esporte favorito — caçar esquilos, e a solidão silenciosa das rochas tinha ecoado repetidamente os estampidos de sua espingarda. Ofegante e cansado, lançou-se sobre uma colina verde, à beira de um precipício. De uma abertura entre as árvores ele podia avistar toda a região mais abaixo, a grande distância. Viu o altivo Hudson, longe, longe, movendo-se em seu curso silencioso mas majestoso.

Do outro lado, avistou um vale profundo, selvagem, solitário e eriçado; o fundo estava repleto de pedaços de rochas e escassamente iluminado pelos reflexos do sol poente. Por algum tempo Rip permaneceu ali, deitado, meditando sobre aquela cena.

A noite estava avançando pouco a pouco. As montanhas começavam a lançar suas sombras azuis sobre os vales. Ele viu que escureceria muito antes de poder chegar à aldeia e suspirou profundamente ao pensar nas ameaças da Senhora Van Winkle que ele teria de enfrentar.

A ponto de descer, ouviu uma voz chamando-o: “Rip Van Winkle! Rip Van Winkle!” Olhou ao redor, mas não conseguiu ver nada além de um corvo num vôo solitário através da montanha. Pensou que sua imaginação o enganara e se preparou de novo para descer, quando ouviu o mesmo grito soar através do calmo ar da noite: “Rip Van Winkle! Rip Van Winkle!” No mesmo momento, Wolf eriçou os pêlos das costas e, dando um fraco rosnado, refugiou-se bem junto do dono, olhando assustado para o vale. Rip agora sentia uma vaga apreensão. Olhou ansiosamente na mesma direção e percebeu uma figura estranha escalando vagarosamente as rochas e curvada sob o peso de algo que carregava às costas. Ele ficou surpreso ao ver um ser humano naquele lugar solitário e deserto, mas julgando que era algum dos vizinhos precisando de sua ajuda, correu a oferecê-la.

Ao chegar mais perto, ficou ainda mais espantado com a singularidade da aparência do estranho. Era um velho baixo, de fartos cabelos eriçados e barba grisalha. Vestia-se à antiga moda holandesa, com uma jaqueta e vários calções. Carregava aos ombros um barril, que parecia cheio de licor, e fazia sinais a Rip para que ele se aproximasse e ajudasse com o fardo. Embora ressabiado e desconfiado dessa nova amizade, Rip o fez com sua presteza habitual. Ajudando-se um ao outro, subiram um barranco, que parecia o leito seco de uma corrente da montanha. Quando escalavam, Rip ouviu um barulho como que de um trovão distante.

Parou por um momento, mas supondo que era um desses trovões que anunciam uma pancada de água, prosseguiu. Chegaram a uma cavidade que parecia um pequeno anfiteatro, cercado por precipícios e árvores. Durante todo o tempo, Rip e seu companheiro tinham subido a montanha em silêncio. Embora o primeiro se perguntasse admirado qual a razão de se carregar um barril de licor montanha acima, havia algo estranho e incompreensível no desconhecido que inspirava medo e impedia a intimidade da conversa.

Ao entrarem no anfiteatro, apareceram outros motivos de espanto. No centro havia um grupo de homens esquisitos jogando um antigo jogo de bola holandês. Vestiam, todos, roupas estranhas.

Seus rostos, também, eram especiais. Um tinha uma grande barba, rosto cheio e olhinhos de porco. A face de um outro parecia consistir inteiramente num nariz, encimado por um chapéu branco com uma pena vermelha de galo. Todos tinham barba, de vários formatos e cores. Havia um que parecia ser o líder. Era um velho forte; tinha um chapéu com penas, meias vermelhas e sapatos de salto alto, com rosas. O grupo em seu conjunto lembrava a Rip as figuras de uma velha pintura flamenga, que ele vira na sala de Dominic Van Shaick, o vigário da aldeia, trazida da Holanda no tempo da colonização.

O que parecia particularmente estranho a Rip era que, embora aquelas pessoas estivessem se divertindo, mantinham no rosto uma expressão das mais sérias, o mais misterioso silêncio: era a diversão mais melancólica que ele já tinha testemunhado. Nada interrompia o silêncio da cena, exceto o ruído das bolas, que, ao rolar, ecoavam através das montanhas como barulho de trovão.

Quando Rip e seu companheiro se aproximaram, eles de repente desistiram do seu jogo e o encararam com um olhar tão fixo de estátua e com rostos tão estranhos e sem vida, que seu coração disparou e seus joelhos se chocaram entre si. Seu companheiro esvaziava agora o conteúdo do barril em garrafões e fazia sinais para que ele servisse o grupo. Obedeceu com medo e tremendo; eles beberam o licor em profundo silêncio e retornaram
ao jogo.

Pouco a pouco o medo e a apreensão de Rip diminuíram. Até se aventurou, quando nenhum olhar estava fixado nele, a saborear o licor, que tinha o gosto das melhores bebidas holandesas. Era, por natureza, uma alma sedenta e logo se viu tentado a repetir a dose. Um gole leva a outro, e ele repetiu suas visitas ao garrafão tantas vezes que, por fim, seus sentidos se enfraqueceram, seus olhos se turvaram, sua cabeça foi gradualmente tombando e ele caiu num sono profundo.

Ao acordar, descobriu-se na colina verde de onde tinha visto pela primeira vez o velho que vinha subindo a montanha. Esfregou os olhos — era uma esplêndida manhã ensolarada. Pássaros saltitavam e cantavam por entre a mata. “Com certeza”, pensou Rip, “não devo ter dormido aqui a noite toda”. Recordou o que acontecera antes de adormecer. O homem estranho com um barril de licor, o barranco, o retiro selvagem entre as rochas, o triste jogo de bola, o garrafão. “Oh!, aquele garrafão! Maldito garrafão!”, pensou Rip, “quantas desculpas eu devo pedir à Senhora Van Winkle!”

Procurou por sua arma, mas em seu lugar encontrou apenas uma espingarda toda corroída de ferrugem. Suspeitava agora de que os homens da montanha tinham lhe pregado uma peça: depois de o embebedar com o licor, tinham roubado sua espingarda.

Também Wolf tinha desaparecido, mas bem podia ter corrido atrás de um esquilo ou de uma perdiz. Assobiou chamando-o e gritou seu nome, mas tudo em vão; os ecos repetiam seu assobio e grito, mas não se viu nenhum cachorro.

Decidiu revisitar a cena do dia anterior e, se encontrasse alguém do jogo, pedir seu cachorro e sua espingarda. Ao se erguer, notou que suas juntas estavam rígidas e mais fracas do que o normal. “Essas camas de montanha não são comigo”, pensou Rip, “e se eu ficar com reumatismo, terei de agüentar a Senhora Van Winkle por um bom tempo”. Com alguma dificuldade, desceu ao barranco onde tinha estado com o companheiro na véspera. Mas, para seu espanto, havia agora ali uma corrente de água da montanha, saltando de rocha a rocha.

Por fim, chegou ao que era o anfiteatro, mas não encontrou nenhum sinal da escavação que havia antes. As rochas apresentavam uma parede alta, intransponível, sobre a qual corriam as águas, rodeadas pelas sombras de uma floresta. Aqui, então, o pobre Rip foi obrigado a parar. De novo assobiou e chamou pelo cão, inutilmente. Que deveria fazer? A manhã já ia alta, e Rip, sentindo falta do café da manhã, sentia-se faminto. Lamentava deixar seu cachorro e sua espingarda, temia encontrar a esposa, mas não podia morrer de fome nas montanhas. Sacudiu a cabeça, pôs no ombro a espingarda enferrujada e, com o coração cheio de preocupação e ansiedade, dirigiu seus passos para casa.

Ao se aproximar da aldeia, encontrou algumas pessoas, mas nenhuma conhecida, o que o surpreendeu um bocado, pois achava que conhecia todos na região. Também suas roupas eram de um tipo diferente daquele com o qual ele estava acostumado. Todos olhavam fixamente para ele, com os mesmos sinais de espanto, e coçavam o queixo. A repetição constante desse gesto levou Rip a fazer involuntariamente o mesmo e foi quando, para sua surpresa, descobriu que sua barba tinha crescido um pé!

Agora, tinha chegado aos limites da aldeia. Um grupo de crianças desconhecidas correu atrás dele, gritando e apontando sua barba grisalha. Também os cães, que ele não reconheceu, latiam para ele à sua passagem. Toda a aldeia tinha mudado. Estava maior e mais povoada. Havia fileiras de casas que ele jamais tinha visto antes e as que lhe eram familiares tinham desaparecido. Havia nomes desconhecidos sobre as portas, rostos desconhecidos às janelas; tudo era desconhecido. Duvidava do seu próprio juízo; começou a achar que talvez ele e o mundo a sua volta estivessem enfeitiçados. Certamente esta era sua aldeia natal, que ele deixara na véspera. Ali se erguiam as montanhas Kaatskill, ali corria o prateado Hudson. Rip estava dolorosamente perplexo. “Aquele garrafão de ontem à noite”, pensou, “perturbou a minha pobre cabecinha!”

Foi com alguma dificuldade que encontrou o caminho para sua casa, da qual ele se aproximou com medo silencioso, esperando a cada momento ouvir a voz estridente da Senhora Van Winkle.

Encontrou a casa em ruínas: o teto caído, as janelas arrebentadas e as portas fora das dobradiças. Um cão meio morto de fome, que se parecia com Wolf, vagava por ali. Rip chamou-lhe pelo nome, mas o vira-lata rosnou, mostrou os dentes e foi embora. “Até o meu próprio cachorro”, suspirou o pobre Rip, “esqueceu-se de mim!”

Entrou na casa. Estava vazia e, segundo parecia, abandonada.

Chamou em voz alta pela esposa e filhos — os aposentos desertos ressoaram com sua voz por um momento e, então, tudo voltou ao silêncio de antes.
Correu para o seu velho refúgio, a pousada da aldeia — mas ela também tinha desaparecido. Estava em seu lugar uma construção de janelas largas, sobre cuja porta estava pintado:

“Hotel União, de Jonathan Doolittle”. Ao invés da grande árvore que costumava proteger a calma pousada holandesa, havia um mastro com uma bandeira; nela, uma estranha mistura de estrelas e listras — tudo isso era incompreensível e estranho.

Havia, como sempre, uma multidão de pessoas perto da porta, mas nenhuma que Rip reconhecesse. Até o caráter do povo parecia mudado. Ao invés da calma habitual, as pessoas eram apressadas e agitadas. Procurou em vão pelo sábio Nicholas Vedder ou por Van Bummel, o mestre-escola.

Rip, com sua longa barba grisalha, sua espingarda enferrujada, sua roupa grosseira logo atraiu a atenção dos homens do hotel. Cercaram-no, olhando-o dos pés à cabeça com grande curiosidade. Perguntaram em quem ele tinha votado. Rip arregalou os olhos, sem entender nada. Um homem puxou-o pelo braço e perguntou se ele era federalista ou democrata. Rip não conseguia entender a pergunta. Por fim um velho lhe perguntou, em tom grave, o que ele fazia numa eleição com uma arma ao ombro e uma multidão a segui-lo e se ele queria liderar uma revolta na aldeia.

“Ai!, senhores”, exclamou Rip, “eu sou um pobre coitado, pacífico, natural deste lugar”. E o pobre homem assegurou, humildemente, que não pretendia armar confusão mas que viera ali apenas para procurar alguns dos seus vizinhos, que costumavam reunir-se naquele lugar.

“Bem, quem são eles?”, ouviu-se perguntar, “Diga seus nomes”.

Rip pensou por um momento e indagou: “Onde está Nicholas Vedder?”

Houve silêncio por um instante, até que um velho respondeu: “Nicholas Vedder? Está morto e enterrado há dezoito anos! Havia uma lápide de madeira, no cemitério, que contava tudo sobre ele, mas apodreceu e sumiu”.

“Onde está Brom Dutcher?”

“Oh, alistou-se no exército, logo no começo da guerra; uns dizem que ele morreu em combate, outros que se afogou. Não sei, ele nunca mais voltou”.

“Onde está Van Bummel, o mestre-escola?”

“Alistou-se também, foi um grande general e agora está no Congresso”.

O coração de Rip se partiu ao ouvir essas tristes mudanças e ao ver-se assim, sozinho no mundo. Cada resposta o confundia, em se tratando de tão grandes lapsos de tempo e de assuntos que ele não conseguia entender. Não tinha coragem de perguntar por outros amigos, mas gritou desesperado:

“Ninguém aqui conhece Rip Van Winkle?”

“Oh, Rip Van Winkle!”, exclamaram dois ou três, “Oh, claro!

Aquele ali, encostado na árvore, é Rip Van Winkle”.

Rip olhou e avistou uma réplica exata de si mesmo no tempo em que ele subiu a montanha. O pobre coitado estava agora completamente confuso. Duvidava de sua própria identidade, sem saber se era ele mesmo ou um outro qualquer. Em meio a esse embaraço, perguntaram-lhe quem ele era e qual era seu nome.

“Só Deus sabe”, exclamou.” Não sou eu mesmo… sou uma outra pessoa…aquele ali é que sou eu…não… alguém tomou o meu lugar… Eu era eu mesmo a noite passada, mas adormeci na montanha e mudaram minha espingarda e tudo mudou, e eu mudei, e não sei dizer qual o meu nome ou quem sou eu!”

Os que estavam presentes começaram então a olhar um para o outro, balançavam a cabeça, piscavam os olhos e passavam o dedo pela testa para dar a entender que o homem estava doido. Nesse momento, uma bela mulher abriu caminho na multidão para dar uma olhada no velho de barba grisalha. Trazia nos braços uma criança gorducha, que, assustada com o olhar de Rip, começou a chorar. “Quieto, Rip”, gritou ela, “quieto, seu bobinho; o velho não vai machucar você”. O nome da criança, a aparência da mãe, o tom de sua voz, tudo despertava um monte de recordações na mente de Rip. “Qual é o seu nome, minha boa mulher?”, perguntou.

“Judith Gardiner”.

“E o nome do seu pai?”

“Ah, pobre homem, Rip Van Winkle era seu nome, mas faz vinte anos que ele saiu de casa com sua espingarda e nunca mais se ouviu falar dele… Seu cachorro voltou para casa sozinho, mas se ele se matou ou se os índios o raptaram, ninguém pode dizer. Na época, eu era uma garotinha”.

Rip só tinha mais uma pergunta a fazer, mas a fez com a voz tremendo:

“Onde está sua mãe?”

“Oh, ela também morreu, mas há pouco tempo; rebentou um vaso sangüíneo num acesso de cólera contra um vendedor ambulante”.

Havia naquilo uma ponta de consolo. Não pôde se conter mais. Abraçou sua filha e o filho dela. “Sou seu pai!”, gritou.

“Jovem Rip Van Winkle, em outros tempos…velho Rip Van Winkle, agora!…Ninguém reconhece o pobre Rip Van Winkle?”

Todos ficaram admirados, até que uma velha, destacando-se da multidão, colocou sua mão na sobrancelha e, olhando atentamente para o rosto de Rip por um momento, exclamou: “Não resta dúvida! É Rip Van Winkle… é ele mesmo! Bem-vindo em sua volta para casa, velho vizinho. Mas onde você esteve nesses vinte longos anos?”

A história de Rip foi narrada brevemente, pois os vinte anos tinham sido para ele apenas uma única noite. Os vizinhos ficaram espantados ao ouvi-la. Viram-se alguns piscarem o olho e fazer sinal de que achavam o homem louco.

Decidiu-se, porém, ouvir a opinião do velho Peter Vanderdonk. Era o mais antigo morador da aldeia e conhecedor de todos os acontecimentos extraordinários da redondeza. Reconheceu Rip imediatamente e confirmou sua história da maneira mais satisfatória. Assegurou ao grupo que era fato estabelecido que as montanhas Kaatskill eram freqüentadas por seres estranhos. Seu pai os tinha visto uma vez, em seus antigos trajes holandeses, jogando bola numa cavidade da montanha. Ele próprio havia ouvido, numa tarde de verão, o som de suas bolas, como barulho remoto de trovão.

Para encurtar a história, o grupo se desfez e voltou a cuidar de algo mais importante, a eleição. A filha de Rip o levou para morar em sua casa confortável e bem mobiliada junto com ela e o marido.

Rip lembrou que ele era um dos meninos que costumavam trepar às suas costas. Quanto ao filho e herdeiro de Rip, que era a sua imagem, trabalhava na fazenda, mas revelava uma tendência hereditária a só fazer o que lhe interessava.

Rip agora retomava seus velhos hábitos. Encontrou muitos de seus antigos companheiros, mas todos tinham sofrido os estragos da passagem do tempo. Preferia fazer amigos entre a nova geração, entre a qual se tornou logo muito popular.

Sem nada para fazer em casa e tendo chegado àquela idade feliz em que um homem pode ser preguiçoso impunemente, tomou lugar mais uma vez no banco junto à porta da pousada e era reverenciado como um dos patriarcas da aldeia. Levou tempo para conseguir conversar normalmente ou compreender os estranhos acontecimentos que tinham ocorrido durante seu sono. Tinha havido uma guerra revolucionária, o país se libertara da Inglaterra e agora ele era um cidadão livre dos Estados Unidos. Na verdade, Rip não se interessava por política; as mudanças de estados e impérios pouco o impressionavam; mas havia uma espécie de tirania sob a qual ele sofrera muito tempo, a feminina. Felizmente chegara ao fim; livrara o pescoço do jugo do matrimônio e podia entrar e sair quando lhe desse na telha, sem temer a tirania da Senhora Van Rinkle. Sempre que seu nome era mencionado, porém, ele sacudia a cabeça, encolhia os ombros e erguia os olhos, o que podia passar por uma expressão de designação para com seu destino ou alegria por sua liberdade.

Rip costumava contar sua história a todo estrangeiro que chegava ao hotel do Senhor Doolittle. Viam-no, de início, alterar certos detalhes cada vez que a contava, o que se devia, sem dúvida, ao fato de ter despertado há tão pouco tempo. Mas, finalmente, a narrativa fixou-se exatamente nos moldes em que a narrei, e nenhum homem, mulher ou criança da redondeza deixava de a saber de cor. Alguns sempre duvidavam de sua veracidade e insistiam em que Rip tinha perdido o juízo. Os velhos habitantes holandeses, porém, acreditavam, quase todos, nela. Ainda nos dias de hoje, jamais ouvem uma trovoada numa tarde de verão sobre o Kaatskill sem dizer que aquele grupo de homens estranhos estão jogando bola. E é um desejo comum a todos os maridos tiranizados pela esposa, na redondeza, quando a vida se torna um fardo, poderem beber um gole repousante do garrafão de Rip Van Winkle.

166 Views