O sinaleiro – Charles Dickens

By | 06/09/2021

“Ei, você aí em baixo!” Quando ouviu uma voz chamar assim, ele estava parado na porta da sua cabine, segurando uma bandeirola dobrada sobre o curto cabo. Alguém poderia pensar, considerando a natureza do lugar, que ele não teria nenhuma dúvida sobre a direcção de onde vinha a voz; mas, em vez de olhar para cima, onde eu tinha parado no declive sobre a sua cabeça, ele virou-se e olhou em direcção à linha. Havia alguma coisa marcante no seu jeito de fazer aquilo, ainda que eu não seja capaz de dizer de maneira nenhuma o quê. Mas sei que era algo considerável o suficiente para chamar a minha atenção, mesmo que a sua silhueta estivesse reduzida e obscurecida, lá em baixo, numa vala profunda, e a minha, sobre ele, tão saturada pelo rubor de um pôr-do-sol bravio que eu tinha de proteger os meus olhos com as mãos para vê-lo melhor.

“Ei! Aí em baixo!”

Olhando ao longo da via, ele virou-se novamente, e, levantando os olhos, viu o meu vulto bem em cima dele.

“Há algum atalho por onde eu possa chegar aí para conversarmos?” Sem responder, ele ergueu os olhos para me ver e eu olhei para baixo. Achei melhor não incomodá-lo repetindo a minha pergunta inútil. Nesse instante houve uma débil vibração na terra e no ar, que rapidamente se tornou um pulsar violento e de imediato uma investida fez-me ir para trás, forte o suficiente para lançar-me ao chão. Quando o fumo do expresso se dissipou, roçando a paisagem, olhei para baixo de novo, e vi-o enrolando a bandeirola que mostrara enquanto o comboio passava. Repeti a pergunta. Depois de um silêncio, em que ele me olhou com profunda atenção, o sinaleiro apontou sua bandeirola na direcção de um ponto à minha altura, dois ou três metros à frente. Respondi para ele, “Certo”, e fui até lá. Olhando atentamente em volta, achei um atalho irregular e todo trançado e segui-o. O caminho era extremamente profundo e estranhamente precipitado. Tinha sido feito de lado a lado numa pedra húmida que se tornava mais enlameada e escorregadia conforme eu descia. Por essas razões, achei o atalho longo o suficiente para relembrar o singular ar de relutância ou obrigação com que ele apontara.

Quando desci o suficiente para vê-lo outra vez, notei que estava em pé entre os carris onde o comboio tinha acabado de passar, numa atitude de franca espera. O sinaleiro estava com a mão esquerda no queixo, e a direita, sobre o peito, cobria o cotovelo esquerdo. Parecia tão atento e com tal expectativa que parei um momento para observar melhor aquilo.

Continuei a descida e atingi o nível da estrada. Mais de perto, distingui um homem moreno e pálido, com uma barba escura e sobrancelhas espessas. Nunca vi um lugar tão solitário e lúgubre como aquele onde haviam colocado a cabine. Uma parede gotejando água recortava os dois lados, escondendo toda a vista além de uma lista de céu: via-se apenas um arco prolongado de uma grande masmorra. Na outra direcção, apenas uma luz vermelha, que terminava na triste entrada do túnel negro, era visível. Havia na arquitectura maciça daquele túnel um ar rude, deprimente e ameaçador. A luz do sol quase não chegava àquele ponto, e a terra tinha um cheiro de cemitério. O vento gelado e cortante dava-me calafrios, como se eu estivesse deixando o mundo real.

Antes que ele pudesse mover-se, eu estava perto o suficiente para tocá-lo. Nem nessa situação ele desviou os olhos de mim, mas deu um passo atrás, e ergueu a mão.

Aquele era um lugar muito solitário para trabalhar (eu disse), e isso tinha atraído a minha atenção quando olhei lá de cima. Uma visita era uma raridade, poderia supor; não uma raridade desagradável, era a minha esperança. Para ele, eu era tão somente um homem que ficara fechado nos seus estreitos limites durante toda a vida, e que, tendo por fim se libertado, se interessara por essas grandes construções. Foi mais ou menos sobre isso que falei, mas sem nenhuma certeza sobre os termos adequados a usar, já que não sou muito bom para começar uma conversa e também havia alguma coisa de ameaçadora naquele homem. Ele olhou de um jeito muito estranho para a luz vermelha na boca do túnel, e para os arredores, como se alguma coisa fosse sair dali. Depois encarou-me. Aquela luz era parte da responsabilidade dele — não era?

Ele respondeu com uma voz fraca: “Você não sabe do que se trata?”. Pensei em algo assustador enquanto acompanhava o olhar fixo e o rosto saturnino daquele espírito (não era uma pessoa). Comecei a especular se ele tinha algum problema mental.

Dessa vez fui eu quem recuou. Mas, enquanto fazia isso, percebi que ele sentia algum medo de mim, o que me fez deixar de pensar aquelas tolices.

“Você olha-me”, disse, forçando um sorriso, “como se tivesse medo de mim.” “Estou a pensat”, ele replicou, “se já não o vi antes.”

“Onde?”

Ele apontou para a luz vermelha.

“Lá?”, perguntei.

Sempre prestando atenção a mim, ele respondeu (sem palavras): “É”.

“Meu caro amigo, o que eu faria ali? Bom, de qualquer modo, juro que nunca estive lá.”

“Acho que posso acreditar”, respondeu. “Sim, acredito.” Os seus gestos ficaram mais soltos, os meus também. O sinaleiro começou a responder às minhas indagações com prontidão e palavras exactas. Ele teria muito que fazer lá? Sim, ou melhor, ele tinha muita responsabilidade; e precisava de muita atenção e perícia; quanto a serviço de verdade — trabalho manual —; ele quase não tinha. Balançar o sinal, organizar as luzes e dar a volta à manivela de ferro às vezes era tudo o que tinha de fazer. No que diz respeito àquelas longas e solitárias horas às quais eu parecia fazer tanto caso, ele dizia apenas que a rotina da sua vida se acomodara àquilo. Sozinho ele aprendera ali em baixo uma língua — se apenas entender seus signos, e formar suas próprias ideias cruas sobre a pronúncia, pode ser chamado de aprender. O sinaleiro tinha também estudado fracções e decimais, e tentado uma pequena álgebra, mas era desde garoto inábil para o cálculo. Enquanto trabalhava, precisava realmente ficar exposto àquele corredor de vento húmido? Ele não podia tomar sol entre as altas paredes de pedra? Isso dependeria do clima e das circunstâncias. Nalgumas condições havia pouco a fazer na via, tanto durante o dia quanto à noite. Com o tempo claro, ele fugia um pouco das sombras; mas, como poderia a qualquer momento ser chamado pela campainha eléctrica, nessas ocasiões ficava ainda mais atento e o descanso era menor do que eu poderia supor. Ele levou -me para dentro da cabine, onde havia uma lareira, uma escrivaninha para um livro oficial em que ele fazia certas entradas, um aparelho de telégrafo com o seu painel, indicadores e agulhas, e a pequenina sirene de que ele tinha falado. Como achei que ele não se importaria, disse que o via como um homem que recebera boa educação (eu esperava poder dizer sem ofensa), talvez muito superior à que o seu ofício exigia. Ele observou que aquele tipo de coisa, às vezes, poderia acontecer nas corporações com muitos trabalhadores; como na indústria, na polícia, mesmo naquele último e desesperado recurso, o exército; e, mais ou menos, no pessoal de qualquer grande ferrovia. Quando moço (sentado naquela choupana, para mim era mais fácil acreditar naquilo do que para ele), fora um estudante de filosofia natural e assistira a palestras; mas tinha deixado as coisas passarem, perdido várias oportunidades e nunca se recuperara. Mas não tinha reclamações sobre aquilo. Fizera a sua cama e estava deitado nela. Era tarde para fazer outra. O que estou a resumir aqui foi dito por ele de uma maneira calma, com o seu grave semblante escuro dividido entre mim e o fogo. O sinaleiro repetia a palavra “senhor” de tempo em tempo, e especialmente quando se referia à sua juventude, como se quisesse me pedir de entender que não desejava ser mais do que eu estava a ver. Fomos interrompidos várias vezes pela pequena campainha, e pela sua necessidade de ler mensagens e enviar respostas. Uma vez saiu à porta, empunhou a bandeirola enquanto um comboniano passava, e disse alguma coisa ao condutor. No que toca aos seus deveres, vi que ele era exacto e atento, parando de falar no meio da frase e só voltando a conversar quando terminasse o trabalho. Numa palavra, eu classificaria aquele homem como um dos mais adequados para exercer tal serviço, não fosse pelas duas vezes em que ele empalideceu, olhou para a sirene que estava silenciosa, abriu a porta da choupana (que tinha sido fechada por conta do ar húmido muito pouco saudável), e olhou estranhamente para a luz vermelha perto da boca do túnel. Nessas duas ocasiões ele voltou para a lareira com o mesmo semblante perturbado que eu observara quando ainda não tínhamos começado a conversar.

“Você quase me fez pensar que eu tinha encontrado um homem feliz”, disse, quando me levantei para sair.

(Confesso que disse aquilo para provocá-lo.)

“Eu costumava ser”, acrescentou ele com a voz baixa do começo da conversa, “mas agora estou com problemas, senhor, estou com problemas.”

Ele poderia não ter dito nada daquilo, mas, como começou, não deixei passar. “Porquê? Qual é o seu problema?”

“É muito difícil explicar, senhor. É muito, muito difícil confessar. Se o senhor me fizer outra visita, vou lhe contar tudo.”

“Mas eu realmente quero fazer-lhe outra visita. Diga, quando pode ser?” “Saio pela manhã, e devo estar de volta às dez da noite, senhor.”

“Venho às onze.”

Ele agradeceu, e saiu comigo até a porta. “Vou acender a minha lanterna, senhor”, disse naquela voz baixa tão particular, “até que tenha encontrado o caminho de volta. Quando o encontrar, não grite! E quando estiver no topo, também não grite!”

Aquilo deixava o lugar ainda mais gelado, mas eu disse apenas: “Combinado”.

“E quando você vier amanhã à noite, não grite! Mas deixe-me perguntar uma coisa antes que vá.

Por que gritou ‘Ei! Aí em baixo!’ hoje?”

“Sei lá”, disse, “gritei alguma coisa assim…”

“Não foi ‘alguma coisa assim’, senhor. Essas foram as palavras exactas. Eu as conheço muito bem.”

“É, foi isso mesmo que eu disse, sem dúvida, porque vi o senhor aqui em baixo.” “Só por isso?”

“E por que mais?”

“Não sentiu que essas palavras lhe foram transmitidas de um jeito sobrenatural?” “Não.”

Ele desejou-me boa-noite, e acendeu a lanterna. Caminhei ao lado da via (com a sensação muito desagradável de que um comboio vinha atrás de mim), até que achei o atalho. A subida foi mais fácil que a descida. Voltei à minha estalagem sem qualquer problema.

Pontual, eu estava a entrar no atalho quando os relógios deram as onze horas. Ele estava à espera de mim no lugar, com a lanterna branca acesa. “Não gritei”, disse, quando estávamos juntos de novo. “Podemos conversar agora?”

“É lógico, senhor.”

“Boa-noite, então, e aqui está minha mão.”

“Boa-noite, senhor, e aqui está a minha.” Com aquilo caminhamos lado a lado até o posto, entramos, fechamos a porta e sentámos-nos diante da lareira.

“Decidi que o senhor”, começou, torcendo-se para a frente logo que nos sentámos, quase
murmurando, “não vai precisar de me perguntar duas vezes o que está a perturbar-me. Ontem à noite achei que o senhor fosse outra pessoa. É isso que está a perturbar-me.”

“O engano?” “Não. O outro.”

“Quem é?”

“Não sei.”

“É parecido comigo?”

“Não sei. Nunca lhe vi o rosto. O braço esquerdo sempre fica sobre o rosto, e o direito balança muito, com violência. Dessa forma…”

Com os olhos, tentava acompanhar os seus gestos cheios de paixão e veemência, “Pelo amor de Deus, saia da frente!”.

“Uma noite enluarada”, disse o homem, “eu estava sentado aqui quando ouvi um grito: ‘Ei! Aí em baixo!’. Pulei, procurando a porta, e vi essa imagem em pé na luz vermelha perto do túnel, gesticulando como lhe mostrei. A voz parecia rouca e bradava: Atenção! Atenção!’. E novamente: ‘Ei! Aí em baixo! Atenção!’. Apanhei a lanterna, acendi o vermelho, e corri na direcção do vulto, gritando: ‘O que está errado? O que aconteceu? Onde é?’. Ele estava parado bem na saída. Cheguei tão perto que me admirou vê-lo cobrir os olhos com a manga. Corri para onde ele estava e estiquei as mãos para puxar a manga; foi quando ele se foi.”

“Para o túnel?”, perguntei.

“Não. Corri uns quinhentos metros para dentro do túnel. Parei, ergui a lanterna, e distingui os algarismos de medir a distância, e vi o húmido pigmento caindo furtivamente pelas paredes e gotejando através do arco. Corri para fora novamente, mais rápido do que tinha entrado (já que tinha uma repugnância mortal por aquele lugar), e olhei ao redor da luz vermelha, com a minha própria iluminação. Subi aos pulos a escada de ferro para a galeria, desci novamente e corri até aqui. Telegrafei para os dois lados, ‘Um alarme foi dado. Algo está errado?’. A resposta veio, de ambos os lados: ‘Tudo certo’.”

Resistindo ao lento calafrio que percorria minha espinha, mostrei-lhe como aquele vulto poderia ser um engano de sua visão. Sabe-se que algumas imagens originam-se de uma falha dos delicados nervos que comandam as funções do olho e frequentemente perturbam o paciente. Alguns, conscientes das suas aflições, comprovaram aquilo mediante exames em si próprios. ‘Apenas ouça”, disse eu, “o vento neste vale sobrenatural e veja em que harpa selvagem os fios do telégrafo se transformam!”

O sinaleiro respondeu que sim, depois que nos tínhamos sentado para ouvir por um instante. Ele, que tão frequentemente passava noites de inverno inteiras lá, cuidando de tudo sozinho, devia mesmo saber alguma coisa de vento e fios. Mas a história ainda não tinha acabado.

Pediu desculpas e, tocando o meu braço, lentamente acrescentou:

“Seis horas depois da Aparição, aconteceu o famoso acidente na via. Depois de dez horas, os mortos e feridos foram trazidos através do túnel até o lugar onde o vulto tinha estado.”

Um desagradável estremecimento me abalou, mas fiz de tudo para resistir. Não se podia negar, disse, que se tratava de uma notável coincidência, que impressionara profundamente a sua mente. Mas era inquestionável que coincidências notáveis acontecem o tempo todo, e elas devem ser levadas em conta em se tratando de tais assuntos. No entanto, devo admitir, acrescentei (pois vi que ele iria discordar de mim) que homens sensatos não levam em consideração as coincidências para planear as coisas ordinárias da vida.

Ele repetiu que ainda não tinha terminado. Pedi perdão outra vez por tê-lo interrompido.

“Isso”, disse, colocando sua mão no meu braço, e sorrindo sobre o ombro com olhos fundos, “foi há um ano. Seis ou sete meses depois, quando eu já me recuperara da surpresa e do choque, certa manhã, enquanto o dia estava a nascer, parado na porta, olhei para a luz vermelha, e vi o fantasma novamente.” Ele fixou os olhos em mim.

“O fantasma gritou?” “Não, ficou em silêncio.” “Ele balançava o braço?”

“Não. Estava encostado no poste de luz, com ambas as mãos sobre o rosto. Assim…”

De novo segui com os olhos os gestos dele. Eram movimentos condoídos; como o das estátuas de pedra de alguns túmulos.

“Você foi até lá?”

“Vim para dentro e sentei-me para ordenar os pensamentos, e para evitar que desmaiasse.

Quando saí novamente, a luz do dia cobriu-me e o fantasma tinha desaparecido.” “Depois disso não aconteceu nada?”

Ele tocou-me no braço com o seu dedo indicador duas ou três vezes, balançando a cabeça, sinistramente, a cada uma delas.

“Naquele mesmo dia, quando o comboio saía do túnel, percebi, por uma janela lateral, o que parecia uma confusão de mãos e cabeças. Alguém gesticulava. Imediatamente sinalizei ao maquinista, ‘Pare!’. Ele apagou a máquina e travou, mas o comboio andou ainda uns cento e cinquenta metros a partir daqui, ou até mais. Fui atrás dele, e, enquanto isso, ouvi gemidos e gritos terríveis. Uma linda senhorita havia morrido de maneira fulminante num dos compartimentos. Ela foi trazida para cá e ficou estendida aqui mesmo, neste chão.”

Sem pensar, empurrei a minha cadeira para trás, enquanto olhava para o lugar que ele apontava. “Verdade, senhor. Verdade. Estou a contar precisamente como aconteceu.” Eu não conseguia
pensar em nada para dizer, e minha boca estava muito seca. O vento e os fios completavam a história com um longo grito de lamentação. Ele concluiu: “Agora, senhor, considere isso, e julgue se a minha cabeça está mesmo perturbada. O fantasma voltou uma semana atrás. Desde então, reaparece de vez em quando”.

“Na luz?”

“É, na luz de perigo.” “O que ele faz?”

Ele repetiu, se possível com mais paixão e veemência, aquele último gesto em que dizia: “Pelo amor de Deus, saia da frente!”.

Então, continuou: “Não tenho descanso ou paz por conta disso. Ele me chama, por muito tempo, de uma forma sinistra, ‘Aí em baixo! Cuidado! Cuidado!’. Gesticula na minha direcção e toca a minha sirene…”

Detive-me nisso. ‘A sirene tocou ontem à noite quando eu estava aqui, e você saiu à porta?” “Duas vezes.”

“Porque, veja”, disse eu, “como a sua imaginação o trai. Olhei para a sirene e fiquei com os ouvidos atentos, e, se estou vivo, ela não tocou naquelas ocasiões. Não, nem em qualquer outra, excepto nas vezes normais em que você se comunicou com as estações.”

Ele balançou a cabeça. “Eu nunca cometi um erro como esse antes. Nunca confundi o toque do fantasma com o de um homem. O toque do fantasma é uma vibração estranha na sirene que vem do nada, e eu não acho que a vista capte a vibração da sirene. Não me espanto de que você não a tenha ouvido. Mas eu ouvi.”

“E o fantasma apareceu quando você olhou?” “Ele estava lá.”

“Nas duas vezes?”

Ele repetiu com firmeza: “Nas duas vezes”. “Venha comigo até a porta, vamos procurá-lo.”

Ele mordeu o lábio inferior como se algo indesejado se aproximasse. Abri a porta, fiquei no degrau e ele, no batente. Lá estava a luz de perigo e a lúgubre boca do túnel. No mesmo lugar, as pedras enormes e, lá em cima, as estrelas.

“Você vê-o?”, perguntei-lhe, prestando particular atenção ao seu rosto. Os seus olhos estavam arregalados e tensos, mas não mais do que, talvez, os meus quando olhei atentamente para o mesmo lugar.

“Não”, respondeu. “Ele não está lá.” “Também acho”, eu disse.

Entrámos novamente, fechamos a porta, e retomamos os nossos lugares. Eu estava a pensar no que podia fazer para aproveitar a boa situação (se aquela realmente fosse uma). No entanto, quando voltámos para dentro, ele afirmou que talvez não tivéssemos mais nada de muito sério para conversar, e percebi que de novo tinha perdido o argumento.

“Nesta altura o senhor já terá compreendido”, disse, “que a minha perturbação vem justamente da dúvida sobre o significado daquele fantasma.” Mesmo sem ter certeza, disse que tinha compreendido.

“O que ele quer avisar-me?”, ruminava o sinaleiro, com os olhos no fogo, e somente às vezes olhando para mim. “Qual é o perigo? Onde está o perigo? Há perigo em algum lugar na via. Alguma tragédia vai acontecer. Não tenho mais nenhuma dúvida agora, depois do que ocorreu antes. Mas isso me assombra muito. O que eu posso fazer?”

Ele pegou um lenço e enxugou o suor da testa.

“Não tenho motivo para telegrafar ‘Perigo’ para algum dos lados, ou para os dois”, continuou, secando a palma das mãos. Seria péssimo se pensassem que sou louco. A mensagem ficaria assim: ‘Perigo! Cuidado!’. Resposta: ‘Que perigo?

Onde?’. Mensagem: ‘Não sei, mas pelo amor de Deus, cuidado!’. Eu seria despedido. Que outra escolha teriam?”

Era triste ver a dor daquele espírito. A cabeça de um homem consciente estava a ser torturada e oprimida por uma responsabilidade incompreensível que envolvia vidas humanas.

“Quando pela primeira vez o fantasma ficou na luz de perigo”, prosseguiu, pondo o cabelo preto atrás da cabeça, e movendo as mãos de um lado a outro das têmporas, febrilmente tenso, “por que não me contou onde aconteceria o acidente, se fosse mesmo acontecer? Talvez isso pudesse ter evitado a catástrofe. Por que, depois, em vez de esconder o rosto, ele não me disse: ‘Ela vai morrer. Deixem-na em casa’? Se, naquelas duas ocasiões, ele apareceu só para me mostrar que os seus conselhos são verdadeiros, e para me preparar para o terceiro, por que não me avisa agora com mais clareza? E eu, Deus, me ajude! Um pobre sinaleiro neste posto solitário! Por que não fazer isso com alguém que tem crédito suficiente para fazer alguma coisa?”

Quando o vi naquele estado, percebi que devia fazer algo para acalmá-lo, não só por piedade, mas também pela segurança pública. Dessa forma, ignorando qualquer senso de realidade ou irrealidade entre nós, mostrei-lhe que o seu desempenho, até porque ele tinha entendido o seu dever, não estava prejudicado por causa dos recados obscuros do fantasma. Nisso saí-me melhor do que na tentativa de trazer razão às suas convicções. Ele tornou-se calmo e as exigências ocasionais do seu trabalho, conforme entrava a noite, começaram a exigir mais atenção. Fui embora às duas da manhã. Ofereci-me para lhe fazer companhia a noite toda, mas ele nem quis saber.

Não tenho motivo para esconder que voltei a olhar mais de uma vez para a luz vermelha enquanto subia pelo atalho, e que não gostava daquela luz vermelha e que teria dormido mal se a minha cama estivesse perto dela. Também não tenho motivo para esconder que me desagradavam as coincidências do acidente e da morte da jovem.

Mas o que dominava realmente os meus pensamentos era a hipótese de como eu devia agir, tendo ouvido aquelas revelações. Eu já sabia que aquele homem era inteligente, atento, e exacto; mas até que ponto ele permaneceria assim, nesse estado de espírito? Ainda que em posição subordinada, ele ocupava um posto importante, e eu (por exemplo) arriscaria a própria vida para que ele continuasse a executar o seu trabalho com exactidão?

Sem conseguir deixar de pensar que seria traiçoeiro comunicar tudo aquilo aos seus superiores na Companhia sem primeiro ter certeza de tudo e propor uma solução, resolvi oferecer-me para acompanhá-lo (mantendo o segredo) numa visita ao melhor médico das redondezas. O seu horário de trabalho mudaria na noite seguinte, ele sairia uma ou duas horas depois do raiar do dia e só voltaria à noite. Marquei de voltar naquele horário.

A noite caíra bastante amena, e eu saí mais cedo para desfrutar dela. O sol não estava ainda muito baixo quando atravessei o atalho perto do topo do alto barranco. Caminharia por mais uma hora, pensei, para depois ir à cabine do meu sinaleiro. Antes de continuar o passeio, parei na beira, e mecanicamente olhei para baixo, em direcção ao ponto onde o vira pela primeira vez. Não posso descrever a emoção que tomou conta de mim, quando, perto da boca do túnel, vi o espectro de um homem, com a manga esquerda sobre os olhos, apaixonadamente mexendo o braço direito.

O inominável horror que me oprimia passou num momento, pois logo notei que o espectro era um homem de verdade. Ele parecia estar a repetir o gesto para um pequenino grupo parado a certa distância. A luz de perigo ainda não estava acesa. No poste, vi um abrigo pequeno e baixo, inteiramente novo para mim, feito com alguns suportes de madeira e lona. Não era maior que uma cama.

Com o incontornável pressentimento de que alguma coisa tinha acontecido — com a culpa de que um acidente tivesse ocorrido depois que deixei o homem naquele lugar e ninguém veio conferir ou corrigir os seus actos — desci o atalho o mais rápido que pude.

“O que está a acontecer?”, perguntei.

“O sinaleiro foi morto esta manhã, senhor.” “Não é o homem daquela cabine?”

“Sim, senhor.”

“Não é o homem que eu conheço?”

“Se for, o senhor poderá fazer o reconhecimento”, disse o homem que falava para os outros, solenemente descobrindo a sua própria cabeça e erguendo uma ponta da lona, “pois o seu rosto ficou inteiro.”

“Oh, como isso aconteceu, como isso foi acontecer?”, perguntei, olhando para o grupo enquanto
fechava o abrigo.

“Ele foi atingido por um comboio, senhor. Nenhum homem na Inglaterra conhecia melhor o seu próprio ofício, mas por algum motivo ele não saiu dos carris. O dia raiava. Ele acendera a luz da lanterna. Quando o comboio saiu do túnel, estava de costas e assim foi atingido. O homem que dirigia a composição estava a mostrar como aconteceu. Mostre ao cavalheiro, Tom.”

O homem, que vestia um traje rústico escuro, voltou para a boca do túnel, onde estava antes: “Saindo da curva no túnel, senhor”, disse, “consegui vê-lo de longe, como se o avistasse por uma lente. Não havia tempo de verificar a velocidade, e eu conhecia o seu cuidado. Como ele parecia não ter ouvido o apito, desliguei-o quando estávamos a chegar perto dele, e gritei o mais alto que pude.”

“O que você disse?”

“Ei! Aí em baixo! Cuidado! Cuidado! Pelo amor de Deus, saia da frente!” Congelei.

“Ah! Foi horrível, senhor. Não parei de gritar. Coloquei este braço sobre os olhos para não ver, e fiquei agitando o outro; mas foi inútil.”

Sem prolongar a narrativa para sublinhar uma das suas curiosas circunstâncias mais do que outras, posso, concluindo-a, destacar a coincidência de que o aviso do maquinista incluía não somente as palavras que o desafortunado sinaleiro tinha-me dito que o perseguiam, mas também as que eu mesmo — e não ele — havia acrescentado — e apenas na minha cabeça — aos movimentos que imitara.

Título original: “The Signal-Man”

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